O silêncio que adoece

Desde meninas, nos ensinaram que ser mulher é ser forte, inquebrável, e se orgulhar disso
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Sabe aquela figurinha da boneca com o olhinho tremendo? Pois bem, eu sou ela — várias vezes ao dia. Antes disso, meus ouvidos parecem entupidos, como se o corpo gritasse “basta”. Depois vem a dor de cabeça, rara em mim, mas que insiste em aparecer. Herpes zóster? Duas vezes só este ano, uma logo após a primeira dose da vacina.

Esses sintomas não são só meus, mas são um alerta. Quem cuida de quem cuida? Eu tenho três trabalhos, um filho que crio sozinha desde os cinco anos, e todas as demandas de uma vida solo. Sim, tenho privilégios —  e reconheço. Mas, ainda assim, me vejo presa nesse destino feminino de abraçar tudo: as demandas, os prazos, os afetos, os silêncios. Multiplicar-se até quase pifar. Ignorar os sinais que o corpo emite, como quem fecha os olhos para não ver a corda prestes a estourar.

A culpa é uma das nossas maiores carrascas. Desde meninas, nos ensinaram que ser mulher é ser forte, inquebrável, e se orgulhar disso. A missão: aguentar firme, sorrir, cuidar de todos, suportar calada. Como se fosse natural que a corda feminina aguentasse mais que a masculina. Só que não fomos feitas para carregar o mundo. E quando a corda arrebentar– quem vai segurar a onda?

Coleciono relatos de amigas e conhecidas: muitas atravessadas por doenças autoimunes, o corpo retaliando quem não soube ou pode se proteger. Por que dizemos “sim” quando queríamos gritar “chega”?

A ciência confirma: mulheres têm mais probabilidade de desenvolver doenças autoimunes. Lúpus, esclerose múltipla, psoríase, fibromialgia, síndrome da fadiga crônica, doença de Crohn. Doenças que atacam justamente o corpo que passamos a vida tentando blindar.

O perfil, dizem os cientistas, é comum: pessoas que colocam as necessidades emocionais dos outros acima das suas próprias; que ignoram desejos e focam em deveres; que reprimem a raiva, essa emoção que poderia ser barreira protetora; que acreditam ser responsáveis pelos sentimentos alheios; que vivem com a crença de nunca poder desapontar.

E não é exatamente essa a descrição da mulher contemporânea? A mulher que treme a pálpebra, que disfarça a exaustão, que marca consultas quando talvez o que precise seja apenas descansar — e, finalmente, dizer não.

Eu não vou.

Eu não posso.

Eu não quero.

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