Por Bianca Borges*
Bastou sair o resultado do primeiro turno para que os estudantes brasileiros se levantassem em novo ciclo de mobilização. Em menos de 24 horas, assembleias foram convocadas em universidades de diferentes regiões e o movimento só cresceu: auditórios cheios, plenárias reunindo centenas e milhares de pessoas, centros acadêmicos reorganizando agendas. A tarefa era concreta e urgente: sair dos muros das universidades e conversar com quem ainda pode ser convencido.
Na terça-feira, a diretoria executiva da União Nacional dos Estudantes aprovou oficialmente o apoio à reeleição do presidente Lula. A decisão institucionalizou um sentimento que percorria as universidades: diante da possibilidade de retorno do bolsonarismo, a passividade nunca foi alternativa para o movimento estudantil brasileiro.
A história da UNE ajuda a compreender por quê. Criada em 1937, durante a ascensão de regimes autoritários, a UNE nasceu da busca pela unidade da juventude brasileira e se afirmou como entidade ligada às grandes questões nacionais: participou da campanha “O Petróleo é Nosso”, que culminaria na criação da Petrobras, e transformou a defesa da soberania nacional em marca de sua trajetória.
Nos anos 1960, o movimento estudantil estava entre os setores mais organizados da sociedade. O golpe de 1964 transformou a UNE em alvo imediato: sua sede foi incendiada, atividades perseguidas, lideranças presas, torturadas ou assassinadas. Ainda assim, em 1968, as universidades se tornaram centros de resistência. Edson Luís, assassinado no restaurante Calabouço, tornou-se símbolo de geração que pagou com a própria vida o preço de enfrentar o autoritarismo.
Na abertura democrática, a UNE voltou às ruas com as Diretas Já; depois, ajudou a impulsionar os caras-pintadas em 1992; e nas décadas seguintes participou de lutas pela expansão das universidades públicas, cotas, ProUni, Fundeb, assistência estudantil.
Há uma linha que conecta essas campanhas: a compreensão de que os estudantes não são espectadores da história brasileira e que nossas universidades não podem existir como ilhas separadas das disputas fundamentais da sociedade.

Não estamos diante de uma eleição qualquer. Flávio Bolsonaro representa a continuidade de um projeto que o Brasil já experimentou sob Jair Bolsonaro: ataque aos direitos sociais, desprezo pela educação e ciência, precarização do trabalho, enfraquecimento de políticas públicas. Do outro lado está Lula e a possibilidade concreta de preservar conquistas alcançadas nos últimos anos: Pé-de-Meia, apoio à permanência de estudantes, Lei de Cotas ampliada, novo Plano Nacional de Educação, avanços no combate à fome e ao desemprego.
Queremos reeleger Lula porque sabemos que ainda há muito a conquistar: universidades públicas com orçamento suficiente, política de assistência estudantil capaz de garantir permanência, ciência e tecnologia como instrumentos de projeto nacional, ampliação de cotas, trabalho digno para juventude, reindustrialização, soberania nacional, fim da escala 6×1.
Nossa posição não termina em declaração de apoio; materializa-se diariamente em cada estudante que decide se organizar, chamar assembleia, conversar com colega, disputar os rumos do país. O maior desafio é romper a bolha dos já convencidos. A eleição será decidida pela nossa capacidade de dialogar com milhões de brasileiros inseguros, descontentes, afastados da política.
Somos milhões espalhados por universidades, institutos federais, escolas, bairros e cidades de todo o Brasil. Quando essa estrutura se transforma em movimento coordenado, ganha capilaridade que poucas forças sociais possuem. Durante a semana, ocupamos universidades e entornos com banquinhas, passagens em sala, rodas de conversa, materiais. Nos fins de semana, atravessamos portões para organizar brigadas em bairros e periferias. Esta campanha será construída na conversa de corredor, no bandejão, no ponto de ônibus, na praça, no bar, na feira. Virar essa eleição significa virar voto por voto.
A história da UNE foi escrita por estudantes que enfrentaram regimes autoritários, defenderam soberania, reconstruíram a organização após perseguição, ocuparam ruas pelas Diretas, lutaram para que filhos de trabalhadores, negros, indígenas, jovens de periferias pudessem entrar em universidades que lhes foram negadas. Honrar essa história significa reconhecer quando nossa geração está diante de responsabilidade semelhante.
As universidades brasileiras estão com Lula, e os estudantes decidiram assumir a tarefa de virar esse jogo.
* Presidente da UNE