A Articulação Agro é Fogo e a Coalizão Florestas & Finanças, com mais 65 organizações, enviaram, nesta segunda-feira (20), uma carta às principais instituições financeiras globais em que cobram medidas concretas para prevenir incêndios florestais diante da prevista intensificação do El Niño.
Na carta, as organizações mencionam as projeções da Administração Oceânica e Atmosférica Nacional dos Estados Unidos (NOAA) e da Organização Meteorológica Mundial (OMM) que indicam um El Niño de forte intensidade ao longo deste ciclo, com efeitos previstos até 2027. Apenas nos primeiros meses de 2026 mais de 150 milhões de hectares foram consumidos por incêndios no mundo, segundo a rede de cientistas World Weather Attribution.
As organizações defendem na carta que o sistema financeiro também integra a cadeia de responsabilidades sobre o assunto. Entre 2016 e 2025, bancos concederam globalmente US$ 429 bilhões em crédito para setores como madeira, soja, borracha, papel e celulose, óleo de palma e carne bovina nos trópicos, historicamente associadas ao desmatamento das florestas tropicais.
Entre as medidas defendidas pelas organizações estão o reforço de políticas de desmatamento zero e de proteção de áreas naturais, proibindo a concessão de crédito a produtores que utilizem o fogo de forma ilegal.
O documento também pede que instituições financeiras ampliem a fiscalização sobre clientes de setores com maior risco de desmatamento, rompam relações com empresas que descumpram essas regras, apoiem brigadas voluntárias e corpos de bombeiros em áreas vulneráveis, aumentem o financiamento para a agroecologia e sistemas agroflorestais e suspendam novos empréstimos a empresas condenadas por incêndios florestais até que os danos sejam integralmente reparados.

Entre as instituições financeiras que receberam a carta estão o Banco da Amazônia, Banco do Brasil, Bank of America (Estados Unidos), BNP Paribas (França), Banco do Nordeste, Mandiri (Indonésia), Itaú, Safra e o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).
O manifesto completo e a relação das entidades signatárias estão disponíveis no documento divulgado pelas organizações.
A Articulação Agro é Fogo reúne mais de 40 entidades, entre movimentos sociais, organizações da sociedade civil, grupos de pesquisa, pastorais e povos tradicionais. Criada em 2020, a rede atua na defesa de comunidades afetadas por incêndios criminosos na Amazônia, Cerrado, Caatinga e Pantanal, além de promover ações de incidência política e comunicação sobre os impactos do desmatamento, da grilagem e das queimadas.
Já a Coalizão Florestas & Finanças é uma iniciativa internacional formada por organizações não governamentais e pesquisadores que monitoram o papel de bancos e investidores no financiamento de atividades associadas ao desmatamento e a violações de direitos humanos. Entre seus integrantes estão entidades como Amazon Watch, Repórter Brasil, BankTrack e Profundo, que acompanham fluxos de crédito e investimentos destinados ao agronegócio e à mineração em áreas de florestas tropicais.