ICL Notícias

Heloisa Villela: Parar o bombardeio de Israel sobre Gaza é urgente

"Embarco essa noite para o Brasil. Este diário fica por aqui. Mas, como disse, as notícias continuam nos assaltando."
30 de outubro de 2023

Diário da Guerra

Por Heloísa Villela (Enviada especial do ICL Notícias)

DIA 13 – 10h21 – 30/10 – Aman(Jordânia)

Está difícil olhar para frente. Para a viagem que vai me levar de volta ao Brasil. Não é possível “deixar para trás” o que está acontecendo com a população palestina. As ruas do mundo gritam por cessar-fogo imediato. É mais do que urgente esse grito. As cenas continuam se multiplicando, rapidamente, no meu celular. Agora, alguns lugares ameaçados são familiares. Outros, em Gaza, continuam mais distantes. Era impossível chegar perto daquela penitenciária a céu aberto que se transforma, rapidamente, no maior cemitério com o qual o mundo terá que lidar. Cada um de nós e, especialmente, cada governo, vai ter que responder por suas posturas nesse momento. Vai ter que carregar o peso das decisões que tomou, ou não tomou, nesse momento histórico.

A tentativa de extermínio do povo palestino cria um divórcio cada vez maior entre as pessoas que habitam esse planeta e seus governos.

De certa forma, é um alívio ver que a intermediação midiática, as distrações de celulares, a vida mais e mais virtual, ainda não tomou conta de nós. Que ainda somos capazes de reagir com força diante da desumanidade que bombardeia nossos olhos, mentes e corações a cada minuto. Mas isso não é consolo. Parar o bombardeio, é mais do que urgente. O governo de Israel não está disposto a discussões racionais. Age com a brutalidade orientada pelos sentimentos mais primitivos que o animal humano é capaz de nutrir.

Netanyahu não sairá ileso dessa desumanidade. Não pode. A Chechênia se mobiliza para enviar ajuda humanitária aos palestinos. Ramzan Kadyrov, chefe da República Chechena, explicou por que o socorro:

“O mundo quase todo não quer ouvir as vozes das pobres crianças palestinas – vítimas da agressão israelita. Agora, dirigem-se a mim na esperança de serem ouvidas. E o que eu lhes devo responder? O que é que todos nós podemos lhes dizer? É de partir o coração ver a crueldade que os olhos destas crianças são obrigados a ver todos os dias em consequência dos bombardeios israelitas. Elas não só vêem essa crueldade, como a experimentam elas próprias. Vários milhares de pessoas inocentes foram vítimas do horrível ato de genocídio sionista. Ninguém pode agora dizer o número exato. Aqueles que sempre defenderam hipocritamente os direitos humanos não condenam de todo as ações de Israel, mas, pelo contrário, prestam toda ajuda ao agressor”.

O recado aos Estados Unidos não podia ser mais claro. Washington precisa encarar a realidade urgentemente. Já leva na consciência a morte de mais de 8.000 palestinos. Poderia impedir o avanço dessa insanidade. Parar já com tudo isso. Mas Joe Biden não parece estar disposto a um milímetro de realidade, de humanidade. O presidente que faz sempre o papel do político que tem compaixão, que consola a população nos momentos difíceis, que sofreu com a perda dos filhos e por isso entende o sofrimento de outros pais precocemente órfãos de seus filhos, não passava de uma farsa. Nunca passou!

A máscara caiu de vez. Vai ser difícil ter mais quatro anos no cargo. Mas isso pouco importa. Só uma coisa tem importância nesse momento. Um cessar-fogo imediato. Salvar as vidas que ainda resistem na Faixa de Gaza.

Embarco essa noite para o Brasil. Este diário fica por aqui. Mas, como disse, as notícias continuam nos assaltando. Estarei por aqui volta e meia. E levo comigo, de volta, uma afinidade e um afeto pelo povo palestino que tive a honra de conhecer um pouco. Quero mais!

 

DIA 12 – 19:18 – 28/10 – Jerusalém

O horror e o desespero. Enquanto o mundo assiste apavorado o projeto de extermínio que do céu explode prédios inteiros e incendeia moradias, o ex-embaixador isralense Dror Eydar explica o inexplicável na tevê italiana: “destruir, destruir, destruir Gaza, esse mal absoluto”. Me pergunto qual seria o mal relativo e o mal absoluto. Ser lembrado constantemente que você é menos, menor, indigno de certas áreas e de um tratamento digno seria um mal relativo ou um mal absoluto?

Não vivi um décimo do que os palestinos enfrentam nessa terra ocupada e divida à força. Conheci vários que falam mais de um idioma. E nunca saíram da ilha de terra, cercada de muros e assentos ilegais de colonos judeus, hoje conhecida como Cisjordânia. Ou, territórios ocupados da Palestina. Enquanto estava em Ramallah, a principal cidade desse país que o mundo não trata como tal, não senti essa pressão. Ela só aparece na hora em que a gente decide se deslocar.

Imagine ir do Leblon à Madureira, ou da Paulista à Barra Funda, e ter que atravessar uma barreira militar, fortemente armada, que não vai muito com a sua cara se você tem a pele mais escura. Por aqui, é assim. Fui de Ramallah a Belém por exemplo. Ou de Ramallah a Jenin. Uma viagem de 40 minutos. A outra de quase duas horas. E a quantidade de muros e barreiras do exército de Israel vão se multiplicando no caminho.

1 Depois de 10 dias de trabalho intenso, do começo do dia aos primeiros minutos da hora de virar a folha do calendário, concluímos que o mais correto, e seguro, seria deixar a Cisjordânia e retornar ao Brasil. Recorri ao fiel escudeiro do carro de placa amarela, que pode circular dos dois lados da barreira militar. Ele, mais uma vez, mostrou que conhece tudo. Chegou no primeiro cruzamento e não gostou do tamanho da fila. Dependendo do horário, ela pode ser uma dor de cabeça.

Paciente, ele me explicou: “esse cruzamento é só para os árabes que têm os documentos necessários para entrar em Jerusalém e por isso mesmo a fila. Como são todos árabes, os soldados checam carro a carro, passaporte a passaporte”. Mas meu mestre das rodovias não é muito chegado a filas. Deu ré sinalizando para o carro de trás se afastar. Um segundo motorista nos seguiu andando também de costas. Pegamos a estrada novamente. Quinze minutos mais tarde e centenas de bandeiras israelenses marcando o caminho, chegamos ao ponto de travessia dedicado aos judeus israelenses e aos árabes com a permissão em dia para atravessar. Como a maior parte dos motoristas faz parte da turma que pode atravessar sem problemas, a fila anda bem mais rápido.

Foi assim que entrei em Jerusalém e cruzei as ruas coalhadas de soldados nas esquinas. Tempos de guerra, dizem alguns moradores e donos de cafés que estão apenas começando a reabrir. Na saída, ficou ainda mais clara a divisão, a exclusão, a situação insustentável em que vive essa gente. Mas levo daqui a amizade, o carinho e a sensação forte de que entre nós, brasileiros, e os palestinos que conheci, existem muito mais semelhanças e pontos de contato do que a gente imagina. Basta vencer a barreira do idioma e olhar com olhos de quem quer ver. O resto vem fácil!

 

DIA 11 – 10:56 – 27/10 (Ramallah, Cisjordânia)

Mohammad Alazza aponta, no horizonte, o assentamento de colonos judeus do outro lado do muro que Israel construiu para cercar o campo de refugiados onde mora. Entre o muro e o assentamento ilegal, uma área verde onde ele brincava quando criança e onde as famílias cultivavam, juntas, o terreno. A construção do muro começou em 2004. Três anos depois, já contornava todas as casas.

Foto de Heloisa Villela

Os avós de Muhammad vieram para Aida, um campo de refugiados em Belém, em 1948, quando o Estado de Israel foi criado e milhares de palestinos foram obrigados a se deslocar para dar espaço aos judeus. Uma decisão tomada pelas Nações Unidas que selou o destino dos palestinos.

Foto de Heloisa Villela

Na entrada do campo, um arco com uma chave de metal gigante simboliza o ponto central da luta palestina. O direito de retorno. Um tema que sempre foi colocado de lado, adiado nas discussões de paz e nos acordos já fechados com Israel. Mohammad me leva ao quarto andar, o topo de um edifício que fica bem de frente para a muralha israelense. O muro do apartheid, como ele diz. Enquanto converso com ele, Mohammad, de 33 anos, mostra a extensão do muro, aponta a base militar israelense e as sete torres de observação que, somadas às 20 câmeras de segurança, mantém os 5.000 moradores do campo Aida sob vigilância constante. Mas não é só isso. Nas madrugadas, é comum ver soldados israelenses dentro dos campos, armados, mascarados e acompanhados de câes, invadirem as casas dos palestinos.

“Um dos líderes israelenses disse abertamente: o melhor lugar para treinar nossos soldados são os campos de refugiados”, conta Mohammad. A invasão das casas dos civis, muitas vezes, não passa de treinamento para os militares de Israel. “Honestamente, muitas vezes entram no nosso campo e não prendem ninguém”.

Portal do Campo de refugiados de Aida

Mas na véspera da nossa conversa eles levaram um morador no meio da noite. Ninguém sabe porque. Como sempre, não dão satisfação, não apresentam queixa, nem indiciam o preso. Em uma das paredes do campo Mohammad me mostra os rostos de alguns dos que estão ou estiveram nos cárceres da força de ocupação. “Aquele lá da ponta”, diz, “foi condenado a prisão perpétua. Só saiu porque foi trocado em uma negociação”. Os tres primeiros rostos pintados na parede são de homens que foram presos e quando saíram da cadeia, foram enviados para Gaza. Eles têm família no campo de Aida, mas estão do outro lado do que ainda se chama Palestina, separados pelo estado de Israel. E não podem atravessar o território para ver os pais.

Mohammad não tem ilusões. Sabe que as grandes potências não farão nada para socorrer os palestinos e evitar o genocídio em andamento. Ele também está convencido de que Israel vai anexar a Faixa de Gaza e depois apontará suas baterias contra a Cisjordânia. “Eles dizem que em 1948 cometeram um grande erro. Deixaram muitos palestinos vivendo aqui”, afirma.

Foto de Heloisa Villela

Esse homem de 33 anos, de rosto fechado, de olhar triste, reclama que a resistência palestina está sendo tratada como terrorista, como assassina. Mas acredita que a população mundial está começando a ver, a entender o que o povo dele enfrenta. “Estamos em 2023, não estamos mais em 1948. No passado, Israel controlou muito bem a propaganda, nossa voz não era ouvida. Mas agora temos as mídias sociais. Se eles controlam todos esses grandes canais de televisão, não significa que vão controlar a narrativa, contar a história que querem contar. Podemos amplificar nossa voz, nem que seja nas mídias sociais, para contar a verdade”, diz.

Essa é boa parte do trabalho de Lubnah Shomali. Amplificar e fortalecer a voz dos palestinos, que estão nos territórios ou no exílio, para influenciar os governos. Ela morou nos Estados Unidos durante 33 anos. “Mas voltei para casa e quero proporcionar essa volta para meus irmão e irmãs”, afirma. Foi Lubnah que me aconselhou a visita a Aida para ver e sentir de verdade o que é a realidade cotidiana de moradores como Mohammad.

Na véspera do marco de 20 dias dessa guerra insana, como bem classificou o presidente Lula, a rainha Reina, da Jordânia, concedeu uma entrevista à rede estadonidense CNN e falou sobre o silêncio ensurdecedor da comunidade internaciona. Pergunto à Lubnah se, pelo silêncio, esses governos se tornaram cúmplices de Israel no massacre aos palestinos.

“Não é apenas o silêncio. É o apoio! Nós vimos EUA, Grã-Bretanha, França, Alemanha, União Européia, Itália.. todos declararem apoio incondicional a Israel. Em essência, declarando apoio ao genocídio! Isso significa que não são apenas cúmplices no crime de genocídio mas também estão envolvidos ativamente e os líderes desses países poderão ser cobrados pelo envolvimento no genocídio. Chegamos a esse ponto porque a comunidade internacional não exige que Israel cumpra as lei internacionais. Quando um estado comete crimes de guerra, crimes contra a humanidade e genocídio, ele tem que ser condenado. É o que diz a lei internacional criada por essas mesmas potências ocidentais. Ela diz que eles têm que sofrer sanções. E até hoje Israel não sofreu sanções. Então parece que estão aplicando as leis internacionais de forma bastante tendenciosa. E essa é uma forma educada de descrever a situação. Existem, definitivamente, dois pesos e duas medidas na atuação da comunidade internacional. Por isso estamos nessa situação hoje”.

Lubnah, como Mohammad, acredita que a única solução virá da pressão popular nas ruas das cidades euroeias e estadonidenses. Foi o movimento popular, lembra ela, que garantiu as conquistas do movimento de direitos civis, dos direitos da mulheres, da comunidade LGBT. E não será diferente com a causa palestina.

 

DIA 10 – 22h20 – 26/10 (Ramallah, Cisjordânia)

“Você toma café?”, me perguntou o motorista de táxi.

Imagina perguntar isso para uma brasileira! Mas os palestinos são ainda mais chegados a um café do que nós. E é um café diferente. Mais forte. Delicioso! Que mistura os grãos de café com cardamon. Juro que funciona. E o motorista, que não me deu o nome dele, parou na estrada, a caminho de Belém, e garantiu:

– Você vai tomar o melhor café da sua vida!

Que era bom era. Mas ele queria que eu conhecesse algo além do sabor. Fez questão de me mostrar como o trailer, no meio da estrada, mantém o café quentinho. Um jarra linda, de metal, está sempre aquecida por um mini fogão a lenha. Na carrocinha mesmo! Os caras têm história, tradição e criatividade. Sem falar na simpatia. Não disse nada, não pedi coisa alguma. Mas ele fez questão de convidar pro café que, depois eu descobri, é realmente famoso por aqui.

Estávamos a caminho de Belém e o pior já tinha ficado para trás. Logo na saída, militares israelenses impediam a passagem. A estrada estava fechada. Hora de recorrer ao jeitinho palestino… Não é à toa que eles resistem à ocupação militar de Israel a tantas décadas. “Vamos escalar um pouco”, ele brincou. Levou o carro para longe da barreira, subiu um morro, desceu outro e pegou a estrada mais adiante. Detalhe: uma estrada de duas pistas, mas uma delas virou via de mão dupla para acomodar os que sabem se virar, e driblar as barreiras israelenses. Mais adiante, mudamos de pista usando uma abertura na cerca de separação.

Primeiro obstáculo vencido, seguimos. Ainda passamos por um daqueles checkpoints onde os militares israelenses, armados até os dentes, decidem se vão parar o carro e pedir documentos, ou se vão deixar o veículo passar. Passamos sem problemas. Era cedo e o posto estava vazio. “Agora estou tranquilo”, ele me disse. O GPS do carro, que só “fala” inglês discorda e diz que estamos entrando em uma área muito perigosa. Haha! Uma área palestina, onde me sinto bem mais tranquila.

Meu companheiro de viagem tem muitas histórias pra contar. Ele garante que não tem medo de nada, mas engata a primeira e se manda quando se vê cercado, na estrada, por carros de colonos israelenses.

Ano após anos, eles constroem mais assentamentos nas terras palestinas, em torno das cidades, e contam com toda a proteção do Exército de Israel. Não é raro descerem de seus assentamentos para provocar, jogar pedras e até incendiar residências dos palestinos. Sempre em contato uns com os outros, os motoristas que cruzam essas estradas se previnem, procuram saber o que está acontecendo em cada trecho, antes de sair. Mas nem sempre é possível saber de tudo com antecedência. E aí, entra em campo aquela qualidade que a gente conhece tão bem. “A necessidade faz o sapo pular”, diz o ditado. E os palestinos, como nós, inventam maneiras de dar o pulo necessário para cumprir o plano de viagem e voltar para casa seguros. Sempre que possível.

 

Por Heloisa Villela (Enviada especial do ICL Notícias)

DIA 9 – 22h42 – 25/10 (Ramallah, Cisjordânia)

Wael Dahdou é um jornalista experiente, mentor dos colegas mais jovens, chefe do escritório da tevê Al Jazeera em Gaza. Ele fez questão de permanecer na região para mostrar ao mundo o que é esse genocído do povo palestino, levado a cabo por Israel. Quando o governo de Banjamin Netanyahu mandou que a população da Faixa de Gaza deixasse o norte do território e buscasse segurança no sul, Wael decidiu mudar a família de lugar. Mas nesta terça-feira, 25 de outubro, ele estava trabalhando quando soube que um bombardeio israelense, na região que deveria ser segura, havia matado a mulher, os dois filhos e o neto de Wael.

Tenho vontade de gritar. Gritar muito para ver se alguém ouve. O que mais falta para que os governos dos Estados Unidos e dos países da Europa entendam que o jogo de poder político já passou do de qualquer limite. Agora é pura matança. Genocídio promovido ao vivo e a cores que nos arrasa minuto a minuto. Basta abrir o computador ou correr as notícias de feeds das mídias sociais. Se não for forçado a parar com essa insanidade, Netanyahu só vai suspender essa matança quando expulsar todos os palestinos da Faixa de Gaza. E se precisar destruir tudo, absolutamente tudo, ele não hesitará!

E eu já estou preocupada com o que virá depois. Aqui em Ramallah, um lugar ainda seguro, distante dos bombardeios, essa é a pergunta que não sai da cabeça da população: o que Netanyahu fará depois de expulsar, ou matar, todos os palestinos e anexar a Faixa de Gaza? O medo é generalizado.

Conheci uma brasileira que tem medo até de manter no telefone as conversas que teve comigo. Apagou tudo antes de sair da vila em que mora para se encontrar comigo em um café de Ramallah. Vou fazer de conta que o nome dela é Maria. Não posso identificar a mulher que dividiu lágrimas, sorrisos e as fotos de filhos e netos comigo durante um longo café na tarde de céul azul dessa terça-feira.

Ela ainda carrega o sotaque forte que trouxe do Rio Grande do Sul há quase 30 anos. Os pais são palestinos. Quando o marido teve um enfarto repentino, a mãe achou melhor voltar para a Palestina com as filhas. Maria tem boas recordações daquele começo de vida na terra dos avós. Achava tudo mais fácil, mais livre. Não era difícil circular na Cisjordânia e até mesmo em Jerusalém. Isso tudo desapareceu. E agora, a situação é tão opressiva que ela tem medo até de receber uma visita surpresa do exército por conta de mensagens trocadas no whatsapp ou postagens nas mídias sociais.

Não é exagero. Isso está acontecendo. Ela não foi a única que me pediu para tomar esse cuidado. Perdi o registro de muitas conversas por conta disso. Mas guardei comigo as imagens dessa gente que me recebeu com tanta confiança e intimidade.

Maria tem os olhos grandes, um sorriso fácil e acolhedor e um amor profundo pela família que, contados todos os parente, soma quase 50 pessoas. Ela teme que o passo seguinte de Netanyahu seja tomar toda a terra palestina na Cisjordânia. A parte que ainda não foi tomada por colonos judeus que não param de construir assentamentos ilegais no território.

E aí? Não seria melhor pegar filhos e netos e sair daqui? Voltar ao Brasil já que foi lá que ela nasceu?

Maria não consegue nem pensar nessa possibilidade. Ir com quem? Deixar quem para trás? Não. A vida dela só faz sentido na convivência com os amigos e parentes que dividem as noites no pátio da família. Como qualquer um, ela quer o dia a dia perto das pessoas que ama. E aí, faz aquele gesto de ombro como quem diz: “vamos ver no que vai dar”. Maria tem certeza de que a mira de Israel vai se voltar contra ela, contra os filhos, primos, tios… Contra todos os palestinos que vivem nos espaços que ainda conseguem ocupar, no país que deveria ser o deles. E aconteça o que acontcer, daqui ela não sai. Até porque, nada mais faria sentido.

 

Por Heloisa Villela (Enviada especial do ICL Notícias)

DIA 9 – 9h15 – 25/10 (Ramallah, Cisjordânia)

Acordei com mais uma enxurrada de notícias horríveis. Hoje cedo, o exército de Israel usou drones para lançar mísseis contra o campo de refugiados de Jenín. Aquele que visitei e mostrei, aqui, como estava depois do ataque que destruiu uma mesquita. Onde as crianças retiravam livros, mapas e cópias do Alcorão dos escombros para empilhar do lado de fora. As crianças, possibilidade de futuro, levavam nas mãos a história. Não esquecer é vital por aqui.

Não se deixar apagar, mais que tudo. Não consigo tirar aquelas crianças da minha cabeça. Como será que elas estão?

Nós estamos assistindo, como um filme macabro na tevê, a tentativa de apagar a vida e a história de toda uma população. Foi contra esse apagamento, essa tentativa de eliminar a história, que a rainha da Jordânia, Rania Al Abdullah, se levantou durante uma entrevista para a rede de tevê CNN. Ela não permitiu que a conversa seguisse os parâmetros que a mídia ocidental costuma impor. Essa visão está ruindo diante dos nossos olhos.

O discurso hegemônico que tenta demonizar os palestinos e dar apoio incondicional a Israel isola cada vez mais os governos dos Estados Unidos. Eles ficam cada vez mais distantes de suas populações.

Eu não teria condições de ser tão clara e enfática como foi a rainha da Jordânia. Por isso, como parte desse diário de guerra, conto hoje o que acabo de ver porque foi assim que comecei o dia. E é com a mesma indignação, e com esse ponto de vista que ela tão bem apresentou, que vou continuar trabalhando por aqui. Vejam:

“Nós vimos mães palestinas escrevendo os nomes de seus filhos nas mãos das crianças porque as chances delas serem mortas, se tornarem cadáveres, é muito grande. As mães palestinas amam seus filhos como qualquer outra mãe do mundo”.

“As pessoas, no Oriente Médio, estão chocadas com a reação mundial. Existem dois pesos e duas medidas. Quando aconteceu o dia 7 de outubro, o mundo imediatamente apoiou Israel e condenou os ataque. Agora vemos um silêncio. É errado matar uma família com tiros mas está tudo certo bombardeá-la até a morte? O silêncio (do ocidente) é ensurdecedor. Para muitos, isso torna o Ocidente cúmplice. A religião islâmica já condenava o assassinato de civis 1.000 anos antes da Convenção de Genebra”.

“Por que não existe uma condenação igual ao que acontece agora? Esse conflito não começou no dia 7 de outubro. A guerra nunca acabou. Isso é uma história que tem 75 anos de mortes e deslocamentos. De ocupação sob um regime de apartheid que demole casas, ocupa a terra, confisca a terra, promove incursões militares e operações de assalto. Uma super potência nuclear que comete crimes diários, documentados, contra os palestinos. E essa qualificação de apartheid quem fez foram as organizações internacionais de direitos humanos”.

A rainha deixou claro que não está escolhendo entre o sofrimento de um povo versus o outro:

“Eu falo pela humanidade. Eu escolho as pessoas comuns dos dois lados. O povo palestino está, há muito tempo, sob a opressão e a desumanização, vive humilhações diárias e violações de direitos humanos. Não tem liberdade de locomoção. Existem mais de 500 barreira espalhadas pela Cisjordânia. Um muro de separação ilegal que disconecta 200 enclaves. Uma expansão agressiva dos assentamentos. Houve uma separação da continuidade do território palestino. Esse é o contexto. Mas existe uma fixação no Hamas. Porém, o problema antecede o Hamas e vai permanecer depois do Hamas”.

“Essa história de violência já perdura por tempo demais. Tem que ser condenada. Estamos vendo hoje Israel usar a desculpa do direito de se defender para cometer atrocidades. Você não pode se defender de qualquer maneira, cometendo crimes de guerra, impondo uma punição coletiva. São mais de 6.000 civis mortos. 2.004 crianças. Isso é uma carnificina em massa que usa armas de precisão. Nas duas primeiras semanas vimos um bombardeio indiscriminado que dizimou famílias inteiras, acabou com bairros, usou como alvos hospitais, escolas, igrejas, mesquitas, médicos, jornalistas e funcionários da ONU. Como é possível chamar isso de direito de defesa? Quando Israel comete essas atrocidades, por que se considera direito de defesa e quando a violência é cometida pelos palestinos é logo chamada de terrorismo? Terrorismo é uma palavra reservada para árabes e mulçumanos? Falar no direito de se defender é contar uma história pela metade. Israel está violando ao menos 30 resoluções da ONU”.

Inspirada pelas palavras da rainha, vamos ao dia.

 

DIA 8 – 9h16 – 24/10 (Jenin, Cisjordânia)

Mais de 400 palestinos mortos nas últimas 24 horas. Essa frase já devia ser motivo para fazer o mundo parar e exigir o fim dessa insanidade. Os bombardeios israelenses no sul e espeialmente no norte da Faixa de Gaza se tornaram ainda mais intensos. Vi de perto o resultado de uma única bomba lançada sobre a mesquita do campo de refugiados de Jenin, na Cisjordânia. Paredes esfareladas, vigas arcadas como se fossem de borracha. Lá dentro, nos escombros, as crianças recolhiam livros e cópias do Al Corão, o livro sagrado dos muçulmanos.

Hani Damaj me convidou a vistoriar a casa dele, colada na mesquita. Vidros estilhaçados e uma camada espessa de poeira por todo lado. Ele estava na sala da casa às 2:30 da manhã quando a explosão aconteceu. Por sorte, ele e a mulher não estavam no quarto porque um bloco de concreto caiu sobre a cama do casal derrubando a cabeceira sobre o colchão. Na hora, ele não conseguia enxergar a mulher, de tanto pó e fumaça que a explosão provocou. As filhas choraram e gritavam e ele correu, apavorado, pensando que podiam estar muito feridas. Por sorte não estavam.

Casa vizinha à mesquita bombardeada em Jenin – Foto de Heloisa Villela

A casa de Hani está toda rachada. Não é mais segura. E a dois palmos da parede lateral, a estrutura da mesquita ameaça desabar e cair sobre a moradia da família. me levou para conhecer o campo de refugiados de Jenin. Ele mora na cidade de mesmo nome, ao lado do campo improvisado pela ONU, em 1958, para receber os refugiados expulsos de suas casas e dar lugar à criação do estado de Israel. O antigo campo, de barracas, não existe mais. Aos poucos, os moradores e a Autoridade Palestina construíram casas e asfaltaram ruas que, volta e meia, as forças de ocupação israelenses destroem. Em 2002, a última grande incursão das tropas israelenses, 800 casas foram destruídas.

A vida os palestinos nessa região é um eterno recomeçar. Reconstruir. Resistir. As paredes das casas de Jenin têm as marcas óbvias dessa dinâmica. Estão cheias de buracos de balas de grosso calibre. A antiga estação de trem, do tempo do Império Otomano, é uma sombra do que deve ter sido um dia. Aqui, quem preserva a história é a memória da população que passa eventos, nomes e datas de uma geração a outra. Agora, no ponto mais alto da comunidade, a mesquita destruída aguarda o começo de mais uma restauração. Na entrada do campo de refugiados, um cartaz enorme homenageia os moradores que já morreram enfrentando o exército da força de ocupação. São muitos. E quase todos jovens. Muito jovens.

 

DIA 7 – 19H55 – 23/10 (Jenin, Cisjordânia)

Cheguei a Jenin sem grandes sobressaltos. Mas alguns pontos da paisagem me assustaram. Aqui e ali a gente passa por postos de observação do exército israelense. Eles nos olham pelas lentes escuras dos óculos de sol. Estão sempre armados, apontando as metralhadoras, protegidos por sacos de areia. Cena de filme. Mas é a realidade.

Na estrada, quando avistamos algumas construções no alto do morro e uma cidade no vale, mais abaixo, já se sabe o que é. No alto, cercados de mais verde, são assentamentos de colonos judeus. A vila é Palestina. E quase todas essas pequenas vilas, além dos vizinhos que observam tudo lá de cima, têm, na entrada e na via de acesso, muitas bandeiras de Israel. A sensação é de cerco mesmo.

Bandeira de Israel em assentamento palestino

E na prática, é exatamente isso que acontece. Para viabilizar a existência de tantos assentamentos de colonos judeus em meio às cidades e vilas palestinas, haja observação, cerco e repressão.

Mas o que fez o pote transbordar e me deixou aos prantos foi o pequeno cemitério improvisado na saída do campo de refugiados de Jenin. Os túmulos estavam muito bem cuidados. Floridos, verdes. E a água aqui é racionada. Israel controla o quanto entra nos territórios. Mas as crianças saem da escola ali ao lado com uma garrafa, todos os dias, e molham as plantas e flores que crescem sobre os túmulos.

Cemitério improvisado em Jenin – Imagem de Heloisa Villela.

Era o que fazia um menino de 13 anos. Cuidava, especialmente, da sepultura do tio. A foto não deixou dúvidas: não tinha nem 20 anos quando foi enterrado nesse cemitério improvisado, uma saída para a superlotação dos outros três que existem na área.

Não há lugar para tantas mortes. E nesse espaço improvisado, duas novas covas já estão abertas.

Esse fosso não para de engolir a juventude Palestina.

 

DIA 7 – 23/10, 9h30 (Ramallah, Cisjordânia)

O sol nasceu antes das sete num céu claro, sem nuvens. Como tem sido por aqui, um dia sim outro também. E vai ser em mais uma manhã ensolarada que o motorista do transporte público nos levará até Jenin. A terceira maior cidade da Cisjordânia tem, junto a ela, um campo de refugiados montado às pressas pela ONU. Mas ele não foi criado agora, para quem fugiu de Gaza. Até porque, quem tentou escapar das mais de 6.000 bombas já lançadas por Israel não saiu da estreita faixa de terra na beira do Mar Mediterrâneo. Lá, a única fuga possível foi para o sul do território, área que também sofre com os ataques a bomba.

Não. O campo de Jenin foi criado em 1958 para abrigar os refugiados, os deslocados, os que tiveram que deixar suas casas para trás e dar lugar aos novos moradores do terreno que passou a se chamar Israel em 1948. Até hoje, 65 anos depois, o terreno é chamado Campo de Refugiados de Jenin. Não foi exatamente incorporado à cidade do mesmo nome. As famílias de quem mora em Jenin já estavam lá antes de chegarem os compatriotas que perderam o chão. E todos, os da cidade e os do acampamento, continuam chamando o hoje aglomerado de casas simples de campo, para marcar com clareza o objetivo desses moradores: voltar para casa um dia.

Vou até lá porque na madrugada de sábado para domingo Israel bombardeou a mesquita desse campo de refugiados. Disse que ali embaixo havia um esconderijo de rebeldes. A guerra em Gaza não se limita ao território do lado de lá do mapa, a oeste de Israel. Aqui, no leste, as incursões militares se intensificam pouco a pouco. O governo de Israel não quer manifestações de apoio aos moradores de Gaza. Tenta calar o que não dá mais para esconder. As condições de vida desumanas impostas aos palestinos sob a violência de um Estado que mergulha mais e mais fundo nas práticas dos radicais de extrema direita.

São 137 quilômetros que separam Ramallah de Jenin. Outros 31 quilômetros para o norte e chegaríamos a Nazaré. A viagem não deveria levar mais de duras horas de carro. O amigo palestino que conheci há três dias condidera o caminho seguro. Ficou mais tenso circular dentro da Cisjordânia nos últimos 15 dias. Mas os motoristas das lotações que ainda ligam uma cidade à outra se comunicam o tempo todo para ter certeza de que ninguém será surpreendido por algum problema.

Ás vezes é preciso desviar um pouco a rota. Agora, ao invés de dirigir diretamente rumo ao norte, é preciso descer para o sul antes de seguir para Jenin. Os militares israelenses, que fazem a segurança dos vários assentamentos de colonos judeus no meio do caminho, andam fechando os acessos, os pontos de travessia. Imagine o Rio de Janeiro ou São Paulo entrecortados de aldeias de colonos estrangeiros, protegidos por forte presença militar, onde paulistas ou cariocas teriam que apresentar passaporte e passar por revista antes de atravessar. Para ir de Madureira a Osvaldo Cruz, seria preciso atravessar barreiras do exército, apresentar documentos, toda aquela humilhação e intimidação que a gente pode imaginar. Isso dentro de um mesmo estado! Assim vivem os palestinos, em meio aos assentamentos ilegais dos colonos judeus.

Mas vou até lá para ver de perto o que aconteceu com a mesquita, com os moradores, com as mães e pais que perderam filhos e parentes, para testemunhar as consequências desse primeiro bombardeio aéreo na Cisjordânia deste o começo da operação militar israelense na Faixa de Gaza. E vamos juntos! Da estrada, vou contando o que se vê no trajeto.

 

DIA 6 – 22/10, 19:30 (Ramallah, Cisjordânia)

O cuidado com as palavras. Tenho notado isso por aqui, em Ramallah, na Cisjordânia, desde o dia em que pisei nessa cidade pela primeira vez. Foi conhecer um aqui, outro ali, para perceber a paixão que o pessoal tem pelo termo certo para cada situação. Por isso não estranhe se um palestino te perguntar se você pretende visitar 48. Ou se vai para “dentro”. Israel dificilmente aparece nas conversas. A não ser para falar do agressor. Daquele que ocupa. Mas o que o mundo conhece como o estado de Israel, para os palestinos não passa de 48 ou dentro. Por que?

Bom, 48 é o ano da criação, da invenção, do Estado de Israel. Quando tudo começou… Para todo e qualquer palestino, essa é a raíz dos problemas, do trauma, do pesadelo que não termina. Naquele momento histórico, 750 mil pessoas tiveram que deixar suas terras para dar espaço e lugar aos moradores da futura Israel. “Dentro”, no caso, é o que se opõe a todo o resto que está do lado de fora. E a gente poderia pensar no mapa físico, na divisão geográfica de Israel e dos territórios palestinos. Mas também é uma preposição que estabelece o que está valendo, o que conta, e separa o que foi excluído.

Aprendi que os palestinos não brincam em serviço com os significados. Por exemplo, da mesma maneira que os brasileiros usam a gíria “gringo” para se referir, de forma pejorativa, aos estrangeiros e, em especial, aos estadonideneses, aqui em Ramallah e em toda a Cisjordânia, eles também têm um nome “carinhoso” para os parentes do Tio Sam. Um termo em árabe que, em português, significa filho da puta. Desculpa, mas quando a gente traduz, não pode mudar o sentido das coisas…

E a explicação para usar essa palavra e não outra qualquer, ficou mais do que clara nos últimos 15 dias, para quem ainda tinha alguma dúvida. O governo dos Estados Unidos é o grande aliado, parceiro inseparável, do Estado de Israel. Não diria nem do governo porque sai um, entra outro, o apoio é o mesmo. Incondicional. Matem quantos matarem. Aliás, quando o líder palestino Yasser Arafat apertou a mão do então primeiro ministro de Israel, Yitzhak Rabin, na Casa Branca, em 1993, sob o sorriso do ex-presidente Bill Clinton, Israel reconheceu a OLP (Organização Pela Libertação da Palestina) como o representante legítimo do povo palestino enquanto a OLP reconheceu o direito de Israel existir.

Mas paz, como se pretendia, não houve. Rabin foi assassinado em seguida por um estudante judeu de extrema direita que era contra as negociações. O nome do estudante eu sei mas não vou escrever porque esse texto trata da importância, do peso e do poder das palavras. Esse sujeito fica esquecido, como a gente gosta de dizer, na lata de lixo da história. As palavras de Rabin, na época, soaram bem: “Nós que lutamos contra vocês, palestinos, lhe dizemos hoje com voz clara a forte: basta de sangue e de lágrimas. Basta”. Pena que essas palavras foram esquecidas. Ou desprezadas.

Passei boa parte da tarde deste domingo conversando com o dono de um café onde a música ambiente só fala da resistência. Os cartazes nas paredes também. O cardápio muda volta e meia mas tem sempre um dizer a respeito dos direitos humanos, prato que anda muito em falta por aqui. Se falta o chão, a terra, o lugar no mundo que já foi o lar, esse povo palestino se apega às palavras. Veste como escudo cada sílaba. Se enraíza no dizer. A fala nos faz gente, nos define. E estrutura o mundo que nos rodeia. Eu aprendi. Saindo de Ramallah, na hora de voltar para casa, vou passar por 48. E de lá seguir o meu caminho.

 

DIA 5 – 21/10, 23:40 (Ramallah, Cisjordânia)

Confesso que já tinha visto uma chave como aquela, grande e enferrujada, em cena de documentário antigo, ou na tela do cinema. Não tenho certeza agora. Mas nas mãos da moradora de um bairro afluente de Jerusalém, foi forte. “É para me lembrar do nosso direito de voltar” me disse Huda Al Iman. No piso da sala, bem na entrada, para não escapar da vista de quem passa pela porta, um retângulo formado por azulejos em tons de marrom, vermelho, petro e branco. No corredor que dá para os quartos, são azulejos mais estreitos, com flores. “O meu favorito”, diz Huda.

Huda Al Iman – Imagem de Heloisa Villela

Ela pegou as caixas com os azulejos na demolição da casa do pai. Passou na porta, como costumava fazer, e viu a movimentação. Resolveu entrar e pegou algumas caixas que estavam enfileiradas com os azulejos retirados so cômodos que o pai dela projetou e construiu quando tinha apenas 25 anos. A imobiliária que comprou a casa do governo de Israel estava tirando todos os ajulejos para vender. Ela se serviu das caixas que conseguiu colocar na mala do carro.

Essa mulher obstinada não defende apenas o direito de retorno à terra de onde os palestinos foram expulsos, em 1948, para dar espaço à fundação do estado de Israel. Ela briga também pelo direito de sonhar com a volta e com a liberdade. Apesar de se dizer uma pessoa corajosa, que não fuge de um enfrentamento com os inimigos, agora Huda anda com medo. “Especialmente pelo meu filho”, me diz.

Hani Amra – Imagem feita por Heloisa Villela

Hani Amra é artista plástico. Nas paredes da sala ele mostra algumas obras de uma série mais antiga. São telas grandes, com muita textura. Uma homenagem, explica, aos trabalhadores palestinos que precisam de permissão especial para sair dos territórios e trabalhar em Israel. Os telas são abstradas, algumas em tons de azul, outras em amarelo. Todas elaboradas com material de construção. Cimento, areia, tinta de parede… Tudo que faz parte da realidade de boa parte da população palestina por aqui.

Consultora de turismo e cultura, Huda foi Coordenadora e fundadora do Centro de Estudos sobre Jerusalém da Uniersidade de Al-Quds. Ativista, ela costumava visitar, como voluntária, os kibutz judaicos para promover o entendimento, o humanismo. Hoje, diz que é impossível conversar com as novas gerações de colonos. Além de violentos, de andarem armados, eles acreditam em teorias bizarras. Por exemplo: “dizem que nós, palestimos, queremos afogar todos os judeus no mar”.

Desde o dia 7 de outubro, quando o Hamas derrubou uma cerca que separa Gaza do estado de Israel, sequestrou militares e civis israelenses e matou 1.300 pessoas, a situação ficou ainda mais difícil no bairro em que Huda mora. “Ben Gvir (Ministro da Segurança Nacional de Israel) disse aos israelenses que se encontrassem árabes na rua deviam matar, sequestrar, machucar”. A convivência com alguns vizinhos, que, segundo Huda, ocuparam casas de palestinos, forçados a se mudar nos últimos dois ou três anos, piorou um bocado. Apesar do desprezo pela postura dos governos da Europa, dos Estados Unidos e, especialmente, dos vizinhos do Oriente Médio, Huda não perdeu a confiança na população. Seja por conta da resitência palestina, seja pelas demonstrações mundo afora de apoio à causa da vida dela.

O número de mortos aumenta rapidamente. Até ontem, os palestinos perdiam uma criança a cada 15 minutos. Agora, é uma a menos a cada 12 minutos. É brutal. Vi na internet crianças escrevendo seus nomes nos braços. Para facilitar a identificação em caso de… Difícil. Muito difícil. No fim de semana, outra perda sentida. A romancista e poeta feminista Heba Abu Nada foi vítima de um bombardeio, mais um, em Khan Younis, cidade no sul da Faixa de Gaza, para onde Israel mandou os moradores do norte fugirem.

Heba Abu Nada ficou conhecida com a novela “O oxigênio não é para os mortos”. Na noite em que foi assassinada pelo bombardeio, ela deixou um recado nas mídias sociais: “Se morrermos, saibam que estamos satisfeitos e firmes, e digam ao mundo em nosso nome, que somos pessoas justas/do lado da verdade”.

 

DIA 4 – 20/10, 22h22 – (Ramallah, Cisjordânia)

Eram 8:30 da noite e foi difícil encontrar alguma porta aberta para comprar algo de comer. Jerusalém está às moscas. É claro que os turistas sumiram. Fazer o que em um país que declarou guerra ao território que ocupa? Por isso mesmo quem fala comigo logo pergunta: o que você está fazendo aqui? Não foi diferente na lojinha que vende ou entrega pizzas. O funcionário já estava recolhendo as cadeiras da calçada. Mas ainda deu tempo de colocar mais uma, tamanho pequeno, no forno. E enquanto ela assava, veio a pergunta inevitável.

– De onde você é?

– Do Brasil.

– Ah, você tem um país tão lindo! Viajei pelo Brasil durante seis meses. Até passei o carnaval em Olinda!

O sorriso no rosto com a memória daquele carnaval também foi a saudade de um outro tempo. Bem diferente do que o gerente da pizzaria vive hoje.

Mas como todo mundo por aqui, ele também queria saber o que uma brasileira estava fazendo em Jerusalém nesse momento. “Sou jornalista”, expliquei.

O sorriso desapareceu de imediato e veio o comentário que eu não esperava.

– A cada cinco anos tem uma guerra aqui. Isso não é vida!

É tudo muito triste. Do lado de cá do posto de controle que supostamente garante a segurança de Jerusalém, como do lado de lá, em Ramallah, onde vivem, cercados e cerceados, os palestinos. Lá, de tarde, conversei com o dono de um café. Ele tem uma filha de 13 anos que está estudando na Europa, acompanhada da mãe. Eles não são separados. Mas sair de Ramallah foi a única maneira que o casal encontrou para oferecer uma boa educação e, quem sabe, um futuro melhor para a menina.

Casado com uma palestina, filha de europeus, ele acompanhou com o coração partido e a impotência imposta pela distância, o sofrimento da mulher e da filha essa semana. A professora da menina expulsou a criança da sala de aula quando percebeu que ela estava falando árabe. O adulto disse se sentir ameaçado pela presença da criança…

Que mundo é esse?

Por aqui, na Cisjordânia, e especialmente na Faixa de Gaza, futuro é uma palavra que não tem lugar nas conversas. Está difícil contar, no presente, quantas crianças já morreram na guerra que avança sem ponto final à vista. A desumanidade escancarada aos olhos do mundo. Aparentemente, a cada quinze minutos os palestinos dão adeus a um ou uma futura médica, pintora, música, professora… Enquanto você leu esse relato, sabe-se lá quanto olhos curiosos, cheios de vida, já não nos olham. Já não esperam pelo nosso socorro.

 

DIA 4 – 20/10 (Ramallah, Cisjordânia)

Uma calma assustadora. Foi o que senti no ar, na cidade de Ramallah, na Cisjordânia. Do lado de lá das barreiras e muros está Jerusalém.

Do lado de cá, os moradores têm acordado de madrugada com som de alarmes de carro disparando. Ninguém sabe ao certo se é o acaso ou uma forma de alertar os vizinhos de que a polícia israelense está na área.

Desde o começo dessa nova fase sanguinária do conflito, as incursões dos militares de Israel em toda a Cisjordânia se intensificaram. Grupos palestinos de Whatsapp se comunicam e acompanham o trajeto das tropas dentro do território.

Cidade vive aparente tranquilidade, quando não soam alarmes. Foto: Heloísa Villela/ICL Notícias

Sentada em um café de Ramallah, de frente para a sede da prefeitura da cidade palestina, as músicas tranquilas, em inglês, soam realmente fora de lugar. Tipo aquela calma antes da tempestade.

O brasileiro Rafael Gustavo de Oliveira, professor de violão clássico e antropólogo, estuda o cotidiano palestino há 10 anos.

Ele dá aulas no conservatório da cidade e convive com estudiosos de outros países. Viu muitos saírem daqui, com medo, nos últimos dias. Ou serem chamados de volta à Europa pelas organizações onde trabalham.

brasileiro Rafael Gustavo de Oliveira, professor de violão clássico e antropólogo, estuda o cotidiano palestino há 10 anos. Foto: Heloísa Villela/ICL Notícias

Rafael costuma circular pela Cisjordânia para dar aula de violão em filiais do Conservatório. Agora, está só em Ramallah porque ficou perigoso cruzar de uma cidade a outra.

Militares israelenses e colonos que ocupam o território palestino andam atiçados. A tensão é palpável. Mas ele acha que ainda não é hora de sair daqui, e me levou para conhecer o mercado local. Frutas, verduras, legumes. E um aroma de hortelã e temperos que fazem bem a alma nesses dias de incerteza.

DIA 3 – 19/10, 19h (Jerusalém, Israel)

Ao chegar a Jerusalém me deu a impressão de que essa é uma cidade pequena e pacata, por causa do pouco movimento na rua. Passei pelo bairro onde moram os judeus ortodoxos e tinha comércio funcionando e alguns andando pra cima e pra baixo, mas é pouca gente.

Foto de Heloísa Villela

Agora à noite, vários restaurantes estão fechados. Pedi uma indicação no lobby do hotel onde eu estou hospedada e me disseram para virar à esquerda e procurar. O funcionário disse que não podia recomendar, porque não sabia qual estava aberto ou fechado, diante da situação que enfrentam.

Então, saí do hotel, andei um pouquinho, encontrei um café e um restaurante abertos, onde eu sou a única pessoa sentada comendo. Então, existe obviamente uma queda de movimento enorme e o comércio está sentindo as consequência desse conflito.

A equipe do hotel me disse que nem o café da manhã está sendo servido, porque os funcionários não estão conseguindo chegar para trabalhar.

Ou seja, essa situação, esse conflito, essa guerra que Israel abriu contra os palestinos, tem efeitos drásticos aqui na economia da cidade de Jerusalém

DIA 3 – 19/10, 15h00 (Jerusalém, Israel)

Curioso, para dizer o mínimo. Sair de um país em que você não fala uma palavra do idioma, para entrar em outro onde você tampouco fala a língua, pode ser interessante pra quem não se assusta por pouco. E foi assim que deixei a Jordânia e entrei em Israel. Navegando entre sorrisos, algumas palavras em inglês, 140 dólares e alguns carimbos.

Chegar à fronteira foi um capítulo à parte. Um motorista de Israel contactou um colega na Jordânia pra me pegar no aeroporto. Mahmoud Abbad deve ter quase dois metros de altura. Ao menos foi essa a impressão que eu tive. Muito simpático, ele disse oi e me deu a má notícia. Por conta do conflito, a ponte Rei Hussein, que permite a passagem de Amã, na Jordânia, para Aihem, em Israel, está fechando mais cedo. 14 horas e já eram quase 13h. Pergunta fatal: “quanto tempo até lá?”

– Mais ou menos umá hora. Talvez você precise dormir em Amã e seguir amanhã cedo.

Mahmoud não sabia ainda que desistir assim tão fácil não estava nos planos. Mas entendeu tudo e disparou. Vi o velocímetro chegar a 180 km por hora em alguns trechos. E chegamos com 20 minutos de folga.

No caminho, vi muitas bandeiras a meio mastro. Seria pelas vítimas desse conflito que se arrasta há décadas e se aprofundou de forma humanamente inaceitável? Mahmoud não sabia dizer. Fiquei com o palpite que sim.

Ele é neto de um palestino que aos 8 anos foi obrigado a deixar a terra dele e se estabeleceu na Jordânia, como milhares de outros. Mahmoud nunca foi à terra do avô. Não tem passaporte nem visto para entrar e tem uma boa dose de cinismo realista para observar o que está acontecendo.

Ele diz que os governos árabes da região falam, fazem cena mas no fundo o que realmente não querem é ver uma nova grande onda de imigracão Palestina para seus territórios.

Me despedi e prometi ligar na hora de cruzar de volta e voar pra casa. Pro Brasil. Mas Mahmoud não arredou o pé da ponte enquanto não achei um wi-fi para avisar que já tinha passado.

Agora é ver o que me espera desse lado.

 

DIA 3 – 19/10, 12h50 (Amã, Jordânia)

Cheguei no aeroporto de Amã e ao desembarcar para passar na Imigração, apesar de estar com visto em dia, meu passaporte foi retido. Me mandaram esperar para que fosse checado. Fui levada para uma sala onde um oficial me fez duas ou três perguntas.

Nada complicado. Queria saber o que eu vim fazer aqui a essa altura do campeonato — claro, tem uma guerra rolando.

Eles se asseguraram de que não vou ficar aqui e que estou indo para Israel e que sou jornalista. Era o que eles queriam saber.

Agora são 12h50 e a fronteira com Jerusalém fecha às 14h. Leva quase uma hora para chegar lá de carro. Estou no táxi, vou tentar chegar a tempo. Tem outro táxi me esperando do outro lado da fronteira.

Se não conseguir entrar, vou ter que voltar para Aman, dormir aqui e viajar amanhã de manhã.

Normalmente, essa fronteira ficava aberta o dia inteiro. Agora, ela está abrindo de 6h às 14h.

Isso vai dando uma ideia mais clara da tensão aqui na região. Não se pode mais atravessar com a mesma facilidade.

(Motorista está indo em alta velocidade. Acho que vou conseguir).

 

DIA 2 – 18/10, 22h38 (Doha, Catar)

Dia de voar e voar. A segunda perna dessa viagem começou em São Paulo, já na quarta-feira. Uma e meia da manhã o avião levantou voo rumo a Doha, no Qatar. Lá se foram sete horas de viagem e ainda faltam outras nove!
E o pior: sem notícias do que se passa. Isolada, no céu, sem acesso a qualquer tipo de informação.
A empresa aérea, em princípio, oferece serviço de internet a bordo, por 10 dólares para todo o tempo de duração da viagem. Mas quem disse que funciona?

O presidente dos Estados Unidos saiu na minha frente. Talvez já tenha dado início a uma viagem agendada para fracassar. Joe Biden queria fazer aquela foto ao lado de Netanyahu, dando apoio total a essa matança e de lá seguir para a Jordânia e talvez outros dois países do Oriente Médio. Todos os chefes de estado cancelaram a inoportuna visita de Biden. Se não deu meia volta, vai posar para foto exclusivamente com Netanyahu.

O poder, nos Estados Unidos, é de uma cegueira quase inacreditável. Parece ignorância. E muitas vezes é. Ignorância no sentido de ignorar, desconhecer. Eles só conseguem entender imagens refletidas no espelho. Cópias do próprio eu ou tentativas de imitação. O outro, o diferente, é incompreensível e deve ser moldado à imagem e semelhança do todo poderoso.

Esse mundo está ruindo e Washington se agarra à velha ordem com unhas e dentes. A ponto de se contorcer para continuar no topo a qualquer custo.

Quando olha para Netanyahu Biden vê, ou deveria ver, Donald Trump. Essas são as imagens parelhas. Elas se refletem com facilidade. A mesma postura autoritária, as mesmas ações para desacreditar as estruturas democráticas. Como cabe bem nesse espelho, o carbono brasileiro! Bolsonaro forma trinca com Trump e Netanyahu. Mas os interesses nacionais falam mais alto. Washington quer manter o controle sobre o Oriente Médio. Se possível, a dependência.

O senador de Delaware que defendeu a invasão do Iraque com convicção, com um discurso apaixonado no Congresso dos Estados Unidos, não decepciona. Continua do lado errado da história.

 

DIA 1 – 17/10, 17h (Brasília)

Chegando ao aeroporto de Brasília para viajar rumo ao Oriente Médio no décimo dia dessa carnificina à qual o mundo assiste, em pleno século XXI, a lista de perguntas na minha cabeça é longa! Afinal, quem vai por um fim a isso? Como é possível, depois de tantas lutas, letras de música, poemas e protestos, peças de teatro que denunciam, cobram e sonham com um mundo mais justo, essas imagens invadirem pequenas e grandes telas mundo a fora?

Que espécie é essa a qual pertencemos, que permitiu aos brancos tratar negros como animais, inferiores, incapazes de amor e dor, e ainda hoje ouvir um líder político se referir aos palestinos como “animais humanos”?

Me aproximei do aeroporto de Brasília lendo a horrenda notícia sobre o bombardeio de Israel a um hospital de Gaza. Saldo da ação: cerca de 500 mortos! Isso mesmo. 500. Na tentativa, na verdade uma prática, de reescrever a história, os militares israelenses ainda disseram que o ataque foi obra do Hamas. Tudo culpa de um foguete do grupo rebelde que falhou.

Rápido e preciso, como sempre, o amigo e colega Leandro Demori desmentiu a manobra. Mostrou que a conta de um “influenciador digital” do governo de Israel chegou a postar que o governo havia bombardeado o hospital para matar terroristas e depois apagou a postagem.

Assim são as guerras do nosso tempo. Muita tecnologia para levar a matança ao máximo e a mentira ao extremo. A desumanidade ganha mais e mais terreno. Não sei exatamente o que vou encontrar ao desembarcar no meu destino.

Mas é certo que na volta terei teto, chuveiro, comida. E os milhares que deixarei para trás? Como ficarão?

 

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