Pelo tempo dos nossos: taxar as bets

Proponho: 'Pelo tempo dos Nossos', para ganhar apoio, fica claro o motivo para taxar os mais ricos
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Por Santiago Gómez*

As pessoas têm cada vez menos tempo para dar atenção às crianças. As crianças estão com problemas de atenção. A ciência provou os efeitos do tempo demais diante das telas. As mulheres são quem dão mais tempo às crianças: mães, irmãs, avós, tias. Muita atividade para uma mulher só, a grana é pouca, e o telefone uma babá. Brincar na rua é um risco para muitas pessoas. Quais outras opções atraem à atenção de crianças e jovens? Brincar fora de casa contribui com o desenvolvimento motoro e cognitivo. Nas comunidades existem associações da sociedade civil, que desenvolvem atividades esportivas, artísticas, culturais, mas que estão limitadas pela capacidade de conseguir recursos ou do trabalho voluntário da pessoa que dá aula. Quando não há recursos nem trabalho voluntário, os espaços ficam vazios e o Estado precisa apoio para taxar os jogos de apostas, aos bilionários e aos bancos. E se esses recursos fossem, por lei, para financiar atividades educativas, esportivas, culturais nos espaços que já existem nas comunidades? As Instituições da sociedade civil, ONGs, Fundações, hoje representam a possibilidade do Estado oferecer políticas públicas onde mais precisam.

A oferta de atividades desse tipo nos bairros populares depende de esforço voluntário, de pessoas que cobram valores muito baixos para dar aulas, ou de instituições que recebem recursos por edital, por concurso, doações. Existe o problema de que acabou o financiamento e as crianças ficam sem as atividades para fazer. Temos estruturas vazias nos bairros, onde poderiam se oferecer atividades educativas, esportivas e artísticas para crianças e jovens. Pessoas com capacidade para transmitir conhecimento sobram no Brasil. As mães ficarão felizes de ter onde deixar as crianças, com segurança, e ter esse tempo para elas. O Estado tem dificuldades para ter presença nos bairros, o medo também atinge servidores públicos. Qual agente do Estado fica numa favela após às seis da tarde, que não seja policial ou trabalhe na saúde? Existem nas comunidades bases educativas, culturais, que precisam de recursos para ampliar a oferta. Não são suficientes as bases das PM para fazer o trabalho, além das resistências que geram. Existe a necessidade das mães e das crianças de ofertas esportivas, artísticas, culturais, para tirar às crianças das telas. Onde existe uma necessidade, dizia Evita Perón, nasce um direito.

O Estado teria que fazer um acordo com instituições da sociedade que já oferecem atividades educativas, esportivas, artísticas e culturais. O objetivo é aumentar a oferta: mais tempo disponível para as mães deixarem as crianças. O acordo estabeleceria a possibilidade de agentes do Estado oferecerem aulas nesses espaços ou atividades de promoção da saúde, combate à violência de gênero, ou outras políticas públicas. Será público quais associações comunitárias receberão recursos e para quais atividades. Quem der a aula emitirá nota fiscal como MEI. É possível o Estado monitorar por georreferenciação, que quem recebe esteja no local que deve estar, no horário que deve estar, e que permaneça aí pelo tempo contratado. Existirá um controle cruzado também pela sociedade, que saberá das ofertas educativas e culturais em cada local.

Como sabemos das dificuldades na comunicação, além do uso de ferramentas digitais, condicionadas por algoritmos, seria criada a Promotoria de Políticas Públicas, uma tarefa que consistiria na comunicação olho no olho, colar cartazes nas escolas, nos postos de saúde, no bairro,  que se cartaz não fosse efetivo Coca-Cola não investiria tanto neles. O Promotor ou a Promotora teria  que morar na área onde terá a tarefa designada, circular pelo território, com um caminho planejado, que nem carteiro, informando nas casas e nos comércios, das atividades disponíveis para as crianças e das políticas públicas realizadas pelo Estado na região. Para garantir o cumprimento da tarefa, existe a possibilidade de monitoramento por georreferenciação. Nos territórios onde existem Agentes Comunitários de Saúde, será importante contar com eles na promoção das atividades, que fazem bem à saúde.

O acordo estabeleceria que as organizações da sociedade civil que receberem recursos para a realização de atividades educativas, esportivas, artísticas e culturais, seja qual for a ferramenta utilizada para isso, permitiriam ao Estado o uso do espaço, caso precise para atividades de prevenção ou promoção de políticas públicas, fora do tempo eleitoral. As condições de utilização do espaço estariam definidas no acordo, mas não se pagaria aluguel pelo espaço, para evitar a possibilidade do Estado financiar organizações pelo suposto uso, e não pelas atividades realizadas.

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Proponho a consigna: ‘Pelo tempo dos Nossos’, para ganhar apoio, fica claro o motivo para taxar os mais ricos. 

Para alguns existe uma necessidade de voltar às bases, e nos bairros populares existem bases organizadas, oferecendo atividades diante das necessidades das crianças, limitadas pelos recursos dos que dispõe. Há crianças precisando de atividades, existem espaços vazios para serem utilizados, existem associações comunitárias que precisam de recursos, sobram pessoas capacitadas para dar aulas, e o governo precisa colocar o povo na rua para taxar Bets, Bancos e bilionários. Proponho a consigna: “Pelo tempo dos Nossos”, para ganhar apoio, fica claro o motivo para taxar os mais ricos. Claro que na mídia repetiram: “Vão fazer o quê com esse dinheiro?” e será difícil alguém ser contra financiar atividades para crianças nos bairros. Quem quer criança o tempo todo olhando uma tela? Quem não quer dar opções aos jovens para não caírem no tráfico? Taxar aos mais ricos pelo tempo dos nossos. Levar políticas públicas onde o Estado hoje não chega, não é só cumprir com um direito, quanto a possibilidade de visualizar políticas públicas onde não chegam outros atores.

*Licenciado em Psicologia. Psicanalista. Mestre em Literatura.

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