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Pesquisa da USP: Cobertura da mídia na guerra Israel-Hamas aumenta islamofobia

Homens (87%) e mulheres (92%) entrevistados dizem que cobertura da mídia ocidental contribui para visão negativa sobre muçulmanos
16 de dezembro de 2023

Por Felipe Faustino – Jornal da USP

Os conflitos no Oriente Médio carregam questões complexas e sensíveis quanto à visão das sociedades ocidentais sobre os muçulmanos e pode fomentar um discurso islamofóbico. Após a intensificação da guerra entre Israel e o grupo militante Hamas na Palestina, o Grupo de Antropologia em Contextos Islâmicos (Gracias), da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP) da USP, iniciou mais uma pesquisa para observar a islamofobia no País, a partir da invasão do Hamas em Israel no dia 7 de outubro, quando 1.200 pessoas foram mortas.

Os dados preliminares divulgados corroboram a percepção de aumento da islamofobia no País. Em relação ao aumento da violência, por exemplo, 55,6% dos homens e cerca de 78% das mulheres afirmam que perceberam esse aumento na islamofobia. Além disso, a pesquisa revela que 56% dos homens e 63% das mulheres relataram ter vivenciado algum tipo de violência após a intensificação da guerra contra o Hamas; cerca de 70% de ambos os sexos também conhecem alguém que passou pela situação.

A pesquisa indica que os homens (87%) e mulheres (92%) entrevistados acreditam que a cobertura da mídia ocidental contribui, de alguma forma, para uma visão negativa sobre os muçulmanos. 84% dos homens e 87% das mulheres dizem que a distinção entre termos como muçulmanos, palestinos e árabes não é executada corretamente. A opinião sobre discurso de ódio nas redes sociais também é de aumento, mais de 80% dos respondentes apontam para um crescimento da violência virtualmente.

O objetivo do trabalho é compreender como o conflito influencia a maneira como os praticantes do Islã no Brasil percebem o preconceito e a intolerância que podem enfrentar, neste curto período. “Como é que a comunidade tem recebido tudo isso? Tanto pela mídia, quanto pelo que significa andar pelas ruas. Então, as nossas questões estão muito mais concentradas, para que a gente consiga avaliar mais rapidamente esses resultados”, explica a professora Francirosy Barbosa, coordenadora do Gracias.

Questionário de pesquisa anterior, conduzida pelo Gracias, ficou aberto por mais de um mês e recebeu 653 respostas, enquanto em pouco menos de uma semana, segundo a pesquisadora, foram levantadas cerca de 240 respostas para essa nova pesquisa, indicando um engajamento significativo em pouco tempo. “Eu acredito que as pessoas estão muito interessadas em falar sobre aquilo que elas estão realmente sofrendo e vivenciando”, conta a professora. A coleta de dados é obtida através de um questionário on-line, divulgado amplamente entre a comunidade islâmica no Brasil.

De acordo com Francirosy, as notificações para a Associação Nacional de Juristas Islâmicos (Anaji) e para o Gracias cresceram com a maior exposição midiática da guerra no território palestino e a percepção da comunidade islâmica é de que esses eventos internacionais têm impacto no crescimento da violência e isso direciona a construção do questionário. “Tendo esses registros que ficam claros para a gente onde é que está realmente o problema na comunicação e eu posso chegar para as pessoas e dizer ‘bom, tem como a gente mudar essa linguagem? Tem como a gente transformar o modo de falar sobre muçulmanos, Islã?’, eu acho que isso é transformador”, afirma Francirosy.

Na visão da pesquisadora, o estudo, até o momento, reforça o aumento da islamofobia. “Ao analisar os dados, torna-se claro não apenas o aumento global, mas também a constatação de que tanto homens quanto mulheres já haviam experimentado situações desse tipo”, esclarece a pesquisadora, que categoriza o conflito em Gaza como um “evento-gatilho”, que contribui com a escalada do preconceito, como os ataques às torres gêmeas de Nova York em 11 de setembro de 2001 e ao Charlie Hebdo, em Paris, em 2015.

A análise atual é um olhar inicial sobre os dados e destaca a importância de uma interpretação cuidadosa das informações, diz a professora. “[A pesquisa] é importante nesse sentido de que tem dados e que agora nós vamos analisar cientificamente”, complementa. O estudo abrange pessoas da comunidade islâmica de diversas localidades do País e conta com a colaboração de associações islâmicas na disseminação do questionário.

Os responsáveis pela pesquisa atual, além da professora Francirosy, são Felipe Freitas de Souza, doutorando da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp), que realiza pesquisa sobre islamofobia e que também participou do primeiro Relatório de Islamofobia no Brasil, publicado em junho de 2022, e Francisco Cleverson Pereira da Silva, bolsista do Programa Unificado de Bolsas da USP (PUB)

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