Por Cleber Lourenço
A Polícia Federal identificou movimentações de R$ 15,5 milhões em saques em espécie, empresas sem funcionários registrados e indícios de lavagem de dinheiro em um novo núcleo investigado a partir das diligências realizadas no inquérito que envolve o líder do PL na Câmara, deputado Sóstenes Cavalcante (RJ).
Os elementos constam da Petição 16.072, relatada pelo ministro Flávio Dino no Supremo Tribunal Federal. O documento autorizou novas medidas cautelares no âmbito do Inquérito 4937, que apura suspeitas de peculato, lavagem de dinheiro e organização criminosa.
Segundo a Polícia Federal, o aprofundamento das investigações levou aos empresários Jonas Keslley Gonçalves Umbelino e Jecy Kenne Gonçalves Umbelino e às empresas EJUS Empreendimentos Imobiliários e Foco Engenharia e Incorporações.
As duas empresas passaram a ser investigadas após a análise de material apreendido durante as diligências realizadas pela PF.
Empresa não possui funcionários
Um dos pontos destacados pela investigação envolve a EJUS Empreendimentos Imobiliários.
Segundo o relatório:
“não possui nenhum funcionário formalmente vinculado nem veículos registrados em seu nome.”
A decisão afirma que a empresa é administrada pela J. Umbelino Participações e integra o mesmo grupo econômico da Foco Engenharia.
As duas empresas possuem praticamente o mesmo endereço em Valparaíso de Goiás, diferenciando-se apenas pelas salas comerciais utilizadas.
Sobre a Foco, a PF afirma que:
“a coincidência substancial de endereço e a unidade de controle societário reforçam a hipótese de atuação empresarial integrada no âmbito do mesmo grupo econômico.”
A investigação aponta ainda que Jonas Keslley aparece ligado a uma ampla rede de empresas ligadas aos setores de construção civil e empreendimentos imobiliários.
R$ 15,5 milhões em saques em espécie
Os investigadores também identificaram um elevado volume de operações em dinheiro.
Segundo a decisão, apenas a EJUS e a Foco realizaram 22 saques em espécie que somam R$ 4,7 milhões.
O relatório registra:
“12 saques em nome da EJUS, totalizando R$ 2.568.000,00, e 10 saques em nome da FOCO, totalizando R$ 2.196.000,00.”
A análise do grupo empresarial como um todo revelou números ainda maiores.
Segundo a Polícia Federal:
“os saques em espécie alcançaram 81 ocorrências, no valor global de R$ 15.542.386,00, todos realizados por um dos dois irmãos.”
A decisão afirma que o volume das operações evidencia o protagonismo dos empresários na movimentação física dos recursos.
Coaf produziu alerta espontâneo
Outro ponto considerado relevante pela investigação foi a elaboração de um relatório de inteligência financeira pelo Coaf sem provocação prévia da polícia.
Segundo a decisão:
“o RIF espontâneo nº 140921, elaborado pelo COAF por considerar existirem fundados indícios de lavagem de dinheiro.”
O documento aponta Jonas Keslley e Jecy Kenne como principais envolvidos em operações financeiras consideradas suspeitas.
A investigação identificou ainda 14 provisionamentos de saques registrados em 27 de fevereiro de 2026, totalizando R$ 2 milhões.
Segundo a PF, metade dos saques previstos estava vinculada a Jecy Kenne e a outra metade a Jonas Keslley.
Suspeita de empresa de fachada
O relatório também retoma as conclusões das primeiras fases da investigação envolvendo a Harue Locação de Veículos.
Segundo a Polícia Federal, a empresa apresentava alterações societárias sucessivas, ausência de sinais de funcionamento e forte dependência de recursos públicos.
A decisão registra que:
“a HARUE continuava a receber pagamentos dos gabinetes dos Deputados CARLOS JORDY e SÓSTENES CAVALCANTE, apesar da ausência de sinais concretos de funcionamento regular.”
Para a PF, a investigação indica que a empresa poderia ter sido utilizada para conferir aparência de legalidade a despesas custeadas com recursos públicos.
O relatório conclui que o esquema investigado não se limitaria à locadora inicialmente investigada.
“a dinâmica delitiva, ao menos em tese, não se restringia à HARUE, mas abrangia outras pessoas jurídicas utilizadas para mascarar a real destinação dos recursos públicos.”
Os elementos apresentados pela Polícia Federal serviram de base para a autorização de novas buscas, apreensões e quebras de sigilo determinadas pelo ministro Flávio Dino.