Por Cleber Lourenço
Uma decisão do ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), colocou nas mãos da Polícia Federal um conjunto de provas que pode ajudar a aprofundar a investigação sobre o financiamento de Dark Horse, filme sobre Jair Bolsonaro, e que inclui material apreendido em uma empresa que pertenceu a um homem apontado pelo Ministério Público de São Paulo como integrante do Primeiro Comando da Capital (PCC).
Dino autorizou, a pedido da própria PF, o compartilhamento das provas obtidas pela Polícia Civil de São Paulo na investigação sobre o Instituto Conhecer Brasil (ICB), comandado por Karina Gama. A empresária também é dona da Go Up Entertainment, responsável pela produção de Dark Horse. A apuração paulista investiga suspeitas de irregularidades em um contrato de R$ 108 milhões do ICB com a Prefeitura de São Paulo e se parte desses recursos públicos chegou à produtora durante a realização do filme.
É dentro desse inquérito que aparece a Favela Conectada, empresa contratada inicialmente por R$ 12 milhões pelo ICB e que pertenceu a Alex Leandro Bispo dos Santos. Ele é apontado pelo MP-SP como integrante do PCC e conhecido como “Escorpião do PCC”. Alex nega fazer parte da facção.
A Favela Conectada e sua sucessora, a Urban Connect, foram alvos das buscas realizadas pela Polícia Civil no início de junho. Os investigadores também apreenderam documentos em endereços ligados a Karina e aos fornecedores do ICB, além do celular e de computadores da empresária. É esse material que Dino autorizou a Polícia Civil a entregar à PF.
E o alcance do compartilhamento vai além dos relatórios já produzidos pelos investigadores paulistas. A pedido da Polícia Federal, serão enviados também documentos apreendidos, dados brutos obtidos nas extrações forenses das mídias e os registros necessários para preservar a cadeia de custódia das provas.
Na prática, a PF poderá analisar diretamente o conteúdo dos aparelhos e documentos recolhidos durante a operação e fazer seus próprios cruzamentos para tentar reconstruir o caminho do dinheiro.
A investigação federal sob relatoria de Dino apura a destinação de emendas parlamentares para entidades relacionadas a Karina. Segundo informações obtidas junto à PF, pelo menos cinco parlamentares estão no radar dessa frente. Entre eles está Mário Frias, que destinou cerca de R$ 2 milhões por meio de emendas e afirma que os recursos foram enviados ao instituto, e não para financiar o filme.
Karina nega que dinheiro público tenha sido utilizado na produção de Dark Horse.
PF aproveita provas já reunidas em investigação
O pedido da Polícia Federal para receber todo o material paulista tem uma razão prática.
A investigação da Polícia Civil está mais avançada. Já houve buscas, apreensões e quebras de sigilo. Segundo informações de bastidores obtidas junto à PF, incorporar essas provas permite “cortar um caminho” e avançar mais rapidamente na investigação federal sobre as emendas e o destino dos recursos.
Dino estabeleceu prazo de cinco dias para a entrega. O delegado responsável pelo caso em São Paulo já entrou em contato com um delegado da Coordenação de Inquéritos nos Tribunais Superiores da PF, em Brasília, para organizar a remessa do material.
O compartilhamento também pode produzir efeitos em outra investigação sobre Dark Horse.
Há um segundo inquérito federal, sob relatoria de André Mendonça, que investiga o financiamento da produção e alcança as negociações envolvendo o senador Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro, então controlador do Banco Master.
As duas apurações partem de pontos diferentes. A frente de Dino acompanha recursos públicos provenientes de emendas e sua passagem por entidades relacionadas a Karina. A investigação de Mendonça tenta esclarecer a estrutura de financiamento privado do filme e o caminho do dinheiro atribuído a Vorcaro. Mas essa separação pode diminuir à medida que os investigadores avançarem.
Segundo uma fonte ouvida sobre o caso, se a PF encontrar no material paulista informações relacionadas ao objeto do inquérito de Mendonça, os dados poderão ser compartilhados. É o chamado encontro fortuito de provas: uma investigação procura determinado fato e encontra elementos relevantes para outra apuração.
Assim, celulares, computadores, documentos e informações financeiras apreendidos na investigação sobre o ICB e a Go Up podem acabar ajudando também a esclarecer o outro caminho do dinheiro de Dark Horse.
Empresa ligada ao PCC recebeu R$ 12 milhões
A presença da Favela Conectada nessa massa de dados é um dos pontos sensíveis da investigação paulista. O ICB foi contratado pela gestão Ricardo Nunes (MDB) para instalar 5 mil pontos gratuitos de internet nas periferias de São Paulo. O acordo previa R$ 108 milhões por ano. Sem experiência anterior na implantação desse tipo de rede pública, o instituto terceirizou parte dos serviços.
Uma das contratadas foi a Favela Conectada. O acordo inicial, de R$ 12 milhões, previa a instalação de parte dos pontos de Wi-Fi.
Na época, a empresa pertencia a Alex Bispo, apontado pelo Ministério Público paulista como integrante do PCC. Ele também responde por feminicídio pela morte da esposa, Maria Katiane Gomes da Silva, de 25 anos. Preso preventivamente, Alex foi solto por decisão da Justiça em 6 de agosto e passou a cumprir medidas cautelares.
A prisão mudou formalmente a empresa, mas não encerrou seus negócios com o ICB. Em janeiro deste ano, Alex deixou o quadro societário. A Favela Conectada passou a se chamar Urban Connect e foi transferida para Tatiane Camargo de Oliveira Fernandes. Segundo registros da Junta Comercial citados pelo g1, ela morava no mesmo endereço de Alex. Mesmo depois da prisão do antigo proprietário, a Urban Connect continuou recebendo recursos do ICB.
Há ainda uma disputa judicial que colocou sob suspeita a própria prestação dos serviços. A Ultra IP, outra empresa contratada pelo instituto, afirma ter sido responsável pela instalação dos 3.500 pontos de Wi-Fi entregues pelo ICB até então e acusa a Favela Conectada/Urban Connect de ter sido utilizada como empresa de fachada para sustentar uma fraude no contrato.
O ICB nega. Afirma que a Ultra IP descumpriu o acordo, interrompeu parte dos serviços e tentou extorquir R$ 2,5 milhões.
Outra trilha financeira de Dark Horse chega ao PCC
O caso da Favela Conectada não é o único ponto em que uma investigação relacionada a Dark Horse encontra personagens ou estruturas financeiras associados ao PCC.
Em uma apuração separada, a Operação Saturno, da Polícia Civil paulista, encontrou movimentações envolvendo a Entre Investimentos, empresa utilizada por Daniel Vorcaro na estrutura financeira relacionada ao financiamento do filme.
Os investigadores identificaram 14 transferências da Entre para a ACX ITC, somando cerca de R$ 28 milhões, entre agosto de 2024 e abril de 2025. A Entre teria sido a maior fonte de recursos da ACX no período analisado.
A ACX aparece na investigação como parte de uma estrutura suspeita de lavagem de dinheiro proveniente do tráfico. Seu proprietário formal disse aos investigadores ter recebido R$ 5 mil para emprestar seus dados e aparecer como dono da empresa. Esse caminho é diferente daquele encontrado na investigação sobre o ICB.
No primeiro, a ligação parte da estrutura empresarial comandada por Karina: ICB → Favela Conectada → Alex Bispo, apontado pelo MP como integrante do PCC.
No segundo, a conexão aparece na estrutura financeira utilizada por Vorcaro: Dark Horse** → Entre Investimentos → ACX → estrutura investigada por lavagem de recursos do tráfico.**
Até agora, não há comprovação de que os aproximadamente R$ 28 milhões enviados pela Entre à ACX tenham relação com o dinheiro destinado ao filme ou que recursos provenientes do PCC tenham financiado Dark Horse.
O dado relevante é que a mesma empresa utilizada na estrutura financeira relacionada à produção aparece movimentando milhões com uma companhia inserida em outra investigação sobre lavagem.
Fundo amplia as conexões investigadas
Relatórios do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) apontaram pelo menos R$ 20 milhões em operações entre a Entre e o fundo Gold Style.
O mesmo fundo aparece em R$ 146,5 milhões em operações com a BK Bank, fintech investigada na Operação Carbono Oculto e apontada pelas autoridades como uma estrutura financeira utilizada pelo PCC.
Os relatórios identificaram operações que criavam diferentes camadas financeiras e dificultavam a identificação dos beneficiários finais dos recursos.
Também nesse caso não há evidência de que o dinheiro movimentado pela Entre seja o mesmo relacionado à BK Bank. O elo documentado é o uso do mesmo fundo por empresas que aparecem em investigações distintas.
As linhas de apuração, portanto, ainda não formam um único esquema comprovado. Elas chegam a Dark Horse por caminhos diferentes.
A novidade é que uma dessas pontas acaba de ganhar uma dimensão federal maior. Com a decisão de Dino, a PF poderá analisar diretamente o material apreendido na investigação que atingiu Karina, o ICB, a Favela Conectada e a Urban Connect.
E, segundo informações obtidas junto à corporação, se essa análise produzir elementos relacionados ao financiamento privado do filme, as descobertas poderão alimentar também o inquérito sob André Mendonça.
A PF passa, assim, a ter mais elementos para responder à pergunta que atravessa as diferentes investigações sobre Dark Horse: de onde veio o dinheiro usado no entorno da produção, por quais empresas ele passou e qual foi seu destino final.