PL realiza terceiro seminário com big techs e amplia ofensiva digital para 2026

Evento no Rio consolida aproximação entre o partido de Jair Bolsonaro e grandes plataformas de tecnologia
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Por Cleber Lourenço

O Partido Liberal realiza nesta sexta-feira (3), no Rio de Janeiro, a terceira edição do seu Seminário Nacional de Comunicação, encontro que reúne lideranças bolsonaristas, especialistas em redes sociais, influenciadores digitais e representantes de grandes empresas de tecnologia em meio à preparação política para as eleições de 2026.

A programação do evento prevê palestras, oficinas e atividades voltadas à inteligência artificial, produção de conteúdo, estratégias digitais e comunicação política. Entre os nomes anunciados pelo partido estão Flávio Bolsonaro, Carlos Bolsonaro, Nikolas Ferreira, Bia Kicis, Gustavo Gayer e Rogério Marinho.

Mais do que um encontro isolado, o evento do Rio consolida uma estratégia iniciada pelo partido em 2025, quando o PL passou a promover seminários voltados à comunicação digital e à aproximação com plataformas que dominam grande parte da infraestrutura do debate público brasileiro.

A primeira edição, realizada em Brasília, chamou atenção pela participação de representantes de empresas como Google, Meta, TikTok, X e Kwai. À época, materiais divulgados durante o encontro associavam as plataformas ao partido e à defesa da chamada liberdade de expressão, uma das principais bandeiras do bolsonarismo nas discussões sobre regulação das redes sociais.

Meses depois, a segunda edição, realizada em Fortaleza, aprofundou essa relação. Representantes de grandes empresas de tecnologia participaram de oficinas e treinamentos sobre inteligência artificial, ferramentas de comunicação, produção de conteúdo, engajamento e utilização de plataformas digitais.

O terceiro encontro ocorre em um cenário distinto. O Tribunal Superior Eleitoral estabeleceu regras específicas para o uso de inteligência artificial nas eleições de 2026, enquanto o Congresso Nacional permanece dividido sobre propostas de regulação das plataformas digitais.

Para Humberto Ribeiro, advogado, fundador do Sleeping Giants Brasil e conselheiro da Presidência da República e da Anatel, a aproximação entre partidos políticos e grandes empresas de tecnologia exige atenção.

“Há sérios riscos e motivos de grande preocupação nessa relação cada vez mais próxima. O histórico global mostra que a atuação de grandes plataformas digitais frequentemente pende para interesses políticos específicos, trazendo impactos profundos para a democracia”, afirmou ao ICL Notícias.

Ribeiro cita o caso da Cambridge Analytica, que revelou o uso indevido de dados de usuários do Facebook para influenciar as eleições norte-americanas de 2016 e a campanha do Brexit no Reino Unido.

“No caso da Cambridge Analytica, em 2018, ficou escancarado como o Facebook foi instrumentalizado, por meio do uso indevido de dados em massa, para beneficiar diretamente a campanha de Donald Trump nos Estados Unidos e a campanha do Brexit no Reino Unido”, disse.

O especialista também menciona episódios internacionais envolvendo grandes plataformas e processos eleitorais.

“Na Índia, a empresa foi formalmente acusada de praticar preços reduzidos e dar tratamento preferencial para a publicidade digital do partido do primeiro-ministro Narendra Modi, distorcendo o equilíbrio eleitoral.”

Segundo Ribeiro, a preocupação não se limita à atuação internacional das plataformas.

“Assistimos a um preocupante processo de apagamento e derrubada de páginas de movimentos sociais e de veículos de mídia independente, como o Tapajós de Fato, entre outros, o que sufoca vozes plurais e prejudica o debate público.”

Ele também aponta a crescente aproximação entre lideranças políticas conservadoras e executivos das empresas de tecnologia nos Estados Unidos.

“Esse alinhamento fica evidente quando lembramos a foto da posse de Donald Trump ao lado de magnatas das big techs, como Mark Zuckerberg, bem como o vídeo do próprio Zuckerberg em janeiro de 2025 afirmando abertamente que iria trabalhar junto à administração Trump para impedir o avanço de regulações sobre as redes.”

Na avaliação do fundador do Sleeping Giants Brasil, a proximidade entre partidos e plataformas pode produzir impactos institucionais.

“Essa proximidade entre big techs e partidos políticos evidencia um esforço coordenado para blindar as plataformas de qualquer controle democrático, comprometendo a integridade dos processos eleitorais.”

Ribeiro também destaca a atuação do próprio PL no Congresso Nacional em pautas relacionadas à regulação das plataformas.

“Não podemos esquecer que o PL tem sido o bastião da defesa das big techs no Congresso Nacional. Após a assinatura de dois decretos pelo presidente Lula que atualizaram a regulamentação do Marco Civil da Internet, foram apresentados 31 projetos de decreto legislativo para suspender os efeitos dessas medidas. Parlamentares do PL foram autores da maioria absoluta dessas propostas.”

Nos últimos anos, o partido de Jair Bolsonaro se tornou uma das principais vozes contra iniciativas de regulação das redes sociais, defendendo a chamada liberdade de expressão e criticando decisões judiciais relacionadas à moderação de conteúdo.

Ao mesmo tempo, a legenda passou a investir em estruturas próprias de comunicação digital e em treinamentos voltados ao uso de inteligência artificial, redes sociais e ferramentas de engajamento.

A realização da terceira edição do seminário indica que a iniciativa deixou de ser um evento pontual e se consolidou como uma estratégia permanente do PL para a disputa política e eleitoral nas redes sociais às vésperas da campanha presidencial de 2026 e uma aliança, no mínimo, indevida das Big Techs com um dos lados da disputa política no Brasil.

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