A intervenção do presidente do PL, Valdemar da Costa Neto, na composição da chapa ao Senado em Santa Catarina excluiu as chances de Caroline de Toni disputar a vaga ao lado de Carlos Bolsonaro e é vista como mais uma peça movimentada no xadrez nacional. Costa Neto busca a federação União-Progressistas de Antônio Rueda e Ciro Nogueira como força aliada em palanques do Brasil, em gesto que também sinaliza que os partidos podem compor com a candidatura de Flávio Bolsonaro.
Presidente da sigla em Santa Catarina, o governador e pré-candidato Jorginho Mello tenta reverter o problema que ele mesmo criou. Desde o ano passado, Costa Neto vem dizendo que Esperidião Amin (Progressistas) era uma opção sólida de composição, mas Jorginho Mello começou a inviabilizar o projeto ao anunciar seu candidato a vice: o prefeito de Joinville, Adriano Silva, do Novo. Com esse movimento, entendido como uma reação de independência à direita, de Toni e Carlos Bolsonaro seriam os candidatos em chapa pura agora dinamitada.
Pela segunda vez em poucos meses, Caroline de Toni foi escanteada do palanque sem sequer ter subido nele. Na primeira vez, sua movimentação gerou uma novela que envolveu todos os filhos do ex-presidente em uma rixa pública com a deputada estadual Ana Caroline Campagnolo (PL-SC).
De Toni saiu em licença maternidade e deixou a poeira baixar, mas com a solução de aliança de Jorginho com o Novo tudo parecia encaminhado, já que os partidos do Centrão ficariam na geladeira ou teriam que recorrer ao PL sem poder de barganha. Essa costura do governador causou embaraço ao MDB, que esperava ter o candidato a vice, e ao Progressistas, que esperava o senado.
Para a deputada federal sempre leal ao bolsonarismo, a medida de Valdemar foi um balde de água fria. “Eu quero ficar no PL, mas eu não tenho outra opção. O Valdemar falou claramente para mim: ‘não, Caroline, não vai ser chapa pura. E se o Jorginho quiser chapa pura eu vou intervir no partido'”, disse a deputada em entrevista a uma rádio do interior de Santa Catarina. Segundo a deputada, o presidente nacional do PL mencionou os acordos em Brasília como a causa do boicote.
Há possíveis alianças a serem construídas em outros estados que mexem com o cenário de Santa Catarina e do Brasil, que ainda não sabe quais siglas do Centrão vão formalizar apoio ao projeto do PL. No Rio Grande do Sul, por exemplo, o Progressistas deixou o governo Eduardo Leite e está acenando à candidatura de Luciano Zucco (PL).
“Eu acredito que envolva acordo em sete estados do Brasil”, pontuou a deputada. Ela afirmou que o Progressistas não só teria pedido a vaga para Amin como condicionado o acordo à garantia de que a parlamentar não disputasse ao senado. Publicamente, Amin desconversou quando perguntado sobre o quebra cabeça e disse que a chapa só seria definida entre julho e agosto.
Encurralada
Ao mesmo tempo, o PSD corre solto tanto no palanque nacional, com a empreitada de Gilberto Kassab para definir uma candidatura entre Ratinho Junior, Ronaldo Caiado ou Eduardo Leite, quanto em Santa Catarina, com a pré-candidatura de João Rodrigues, prefeito de Chapecó.
O partido já tentou aproximações com de Toni e ela mesma admitiu o convite que a tiraria do palanque do aliado Flávio Bolsonaro. “Sair do PL é a única alternativa que eu tenho se eu quiser ser candidata ao senado”, disse.
PRD, Avante e Podemos ofereceram à De Toni a vaga e a presidência da sigla, segundo ela. O Novo também ofereceu a disputa ao Senado, mas sua entrada no partido quebraria o acordo de Valdemar, já que o Novo faz parte da aliança com Jorginho. A parlamentar diz que é mais difícil aceitar os convites do MDB e do PSD, o que indica sua intenção de não se afastar do bolsonarismo, nem da candidatura de Flávio Bolsonaro.
Valdemar conseguiu encurralar a deputada, já que ela dificilmente vai compor com partidos com candidato próprio à presidência. Além disso, se o acordo com Amin impedir que ela seja candidata ao senado, até mesmo o apoio a Jorginho Mello pode ficar comprometido. Mesmo traída, a parlamentar se resignou e chegou a agradecer Costa Neto pela “sinceridade” e pela transparência que deu aos acordos que ele costura junto ao Centrão.
Briga recomeça
A sensação é de deja vu, mas a briga que agitou o bolsonarismo em 2025 recomeçou. Michelle Bolsonaro voltou a defender a candidatura da amiga e aliada e foi confrontada com indiretas pelo enteado Carlos Bolsonaro. “De tão surreal, eu não acreditaria se não conhecesse”, escreveu, no X, requentando uma postagem antiga em que também de forma subliminar criticava a madrasta por estar próxima de Tarcísio de Freitas (Republicanos).
A deputada estadual Ana Campagnolo, ferrenha defensora da chapa Caroline de Toni e Esperidião Amin, também voltou a comentar o assunto. Dos Estados Unidos, fez postagens reafirmando, com um vídeo de novembro de 2025, que nada havia mudado. “Agora você sabe quem sempre lhe contou a verdade: EU”.
Ao mesmo tempo, Carlos Bolsonaro fez uma sequência de posts com agendas pelo estado, na tentativa de solidificar sua imagem junto a um eleitor cada vez mais confuso com o xadrez montado pelo bolsonarismo em troca de apoio do Centrão. Na legenda de uma foto, chamou Santa Catarina de “nosso Estado”, renegando o estado e a cidade que lhe deram mandato por 25 anos, o Rio de Janeiro.