Polícia responde por quase uma em cada quatro mortes violentas em São Paulo

Estado registrou 835 mortes em intervenções policiais em 2025, o segundo maior número do país
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Por Cleber Lourenço

Quase uma em cada quatro mortes violentas registradas em São Paulo em 2025 foi provocada por uma intervenção policial. O dado coloca as forças de segurança no centro da violência letal paulista, mesmo em um ano em que o número total de assassinatos caiu no estado e no país.

Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2026, produzido pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, São Paulo teve 3.615 mortes violentas intencionais no ano passado. Desse total, 835 foram classificadas como mortes decorrentes de intervenções policiais, o equivalente a 23,1%.

A proporção aumentou em relação a 2024, quando as intervenções policiais representaram 21,7% das mortes violentas paulistas. Naquele ano, foram contabilizadas 813 mortes provocadas por agentes de segurança. Em 2025, o número subiu 2,5%.

O crescimento ocorreu enquanto o total de mortes violentas em São Paulo caiu de 3.751 para 3.615, uma redução de 3,6%. Ou seja, mesmo com a diminuição geral da violência letal, aumentaram tanto o número de pessoas mortas pela polícia quanto o peso dessas ocorrências no conjunto dos assassinatos.

Em números absolutos, São Paulo teve o segundo maior contingente de mortes decorrentes de intervenções policiais do Brasil. Ficou atrás apenas da Bahia, onde 1.570 pessoas foram mortas por agentes de segurança em 2025. O Rio de Janeiro apareceu depois de São Paulo, com 798 casos.

A taxa paulista, de 1,8 morte por intervenção policial a cada 100 mil habitantes, ficou abaixo da média nacional, de 3,1. O indicador proporcional, porém, é influenciado pelo tamanho da população. Em volume, São Paulo concentrou 12,6% de todas as mortes provocadas pelas polícias brasileiras.

A maior parte dessas mortes foi atribuída à Polícia Militar. O anuário contabilizou 700 vítimas de intervenções de policiais militares em serviço e outras 109 provocadas por PMs fora de serviço.

A Polícia Civil aparece com 14 mortes durante o serviço e 12 fora dele. Somadas, as ocorrências atribuídas à Polícia Militar representam quase 97% das mortes por intervenção policial registradas no estado.

Os números paulistas integram uma contradição nacional. Em 2025, o Brasil registrou 40.775 mortes violentas intencionais, queda de 8,2% em relação ao ano anterior. Os homicídios dolosos diminuíram 10%, os latrocínios recuaram 17% e as lesões corporais seguidas de morte caíram 15,2%.

As mortes provocadas pelas polícias caminharam na direção oposta. Foram 6.602 vítimas no país, aumento de 5,4% e maior número absoluto desde o início da série histórica, em 2016. Naquele ano, haviam sido contabilizadas 4.240 mortes. O crescimento acumulado em uma década foi de 55,7%.

Com o avanço, as intervenções policiais passaram a responder por 16,2% de todas as mortes violentas do país. Em média, uma em cada seis pessoas mortas violentamente no Brasil em 2025 morreu em uma ação envolvendo policiais civis ou militares.

São Paulo ficou acima dessa proporção nacional. No estado, a participação chegou a 23,1%, sete pontos percentuais a mais do que a média brasileira.

O anuário define como mortes violentas intencionais a soma dos homicídios dolosos, feminicídios, latrocínios, lesões corporais seguidas de morte e mortes decorrentes de intervenções policiais. A categoria reúne, portanto, as mortes cuja intencionalidade foi identificada pelos órgãos de segurança.

A classificação de uma ocorrência como morte decorrente de intervenção policial não significa automaticamente que houve execução ou ilegalidade. Policiais podem empregar força letal em situações de legítima defesa ou de estrito cumprimento do dever legal.

O próprio Fórum, porém, alerta que pesquisas e investigações já identificaram, dentro dessa categoria, ocorrências com indícios de execução, uso desnecessário da força e adulteração das circunstâncias das mortes. Por isso, o relatório defende mecanismos independentes de investigação, câmeras corporais, preservação de provas e controle externo efetivo da atividade policial.

O perfil nacional das vítimas mostra que a violência policial não se distribui de forma aleatória. Pessoas negras representaram 82% das mortes decorrentes de intervenções policiais em 2025. Entre os brancos, a participação foi de 17,7%.

A taxa de letalidade policial entre negros chegou a 3,5 mortes por 100 mil habitantes, 3,5 vezes o índice registrado entre brancos. A desigualdade ainda piorou em relação a 2024: a taxa cresceu entre pretos e pardos, enquanto permaneceu estável entre a população branca.

A violência também se concentra sobre os mais jovens. Pessoas entre 20 e 29 anos responderam por 46% das vítimas. A faixa entre 20 e 24 anos apresentou a maior taxa, de 10,4 mortes por 100 mil habitantes.

A capital paulista também aparece entre as cidades com maior número absoluto de mortes provocadas por policiais. São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador e Curitiba reúnem 11% da população brasileira, mas concentraram 19% de todas as vítimas da letalidade policial no país.

Para o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, a escalada da letalidade policial mostra que a redução geral dos homicídios não foi acompanhada pelo aprimoramento dos mecanismos de controle sobre o uso da força estatal.

O relatório sustenta que operações orientadas por inteligência, planejamento e prevenção tendem a reduzir a necessidade de confrontos diretos. Também destaca que o uso da força letal deve ocorrer apenas como última alternativa, dentro dos parâmetros de necessidade, proporcionalidade e legalidade.

Em São Paulo, o crescimento das mortes provocadas pela polícia enquanto os demais assassinatos diminuíram evidencia esse descompasso. A violência letal recuou, mas a participação dos agentes do Estado dentro dela aumentou.

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