Agentes do BOPE (Batalhão de Operações Especiais) da Polícia Militar do Rio de janeiro roubaram na cara dura a casa de uma família do Complexo do Alemão. Metade se escandalizou e outra metade apenas viu filmado e em rede nacional algo que as comunidades de todo o país vivenciam: o abuso policial de toda ordem.
A decadência sem nenhuma elegância da sociedade encontra suas imagens mais chocantes na política e na polícia. Pelo menos no Brasil, estes são os terrenos onde a bizarrice, o descalabro, o surrealismo com pitadas de sadismo e altas doses de criminalidade encontram os terrenos mais férteis para prosperar.

E não adianta falarmos dos que não fazem mais que suas obrigações, honrando seus salários, exercendo suas funções com honestidade. Estes, infelizmente, tem suas imagens e reputações quase que irremediavelmente enlameados pela banda podre a qual pertencem os oito agentes, que roubaram perfumes, roupas, calçados e a dignidade de uma família periférica, revirando seus armários e gavetas e enfiando nas mochilas objetos adquiridos por trabalhadores.
Prisão para os agentes é o básico e o mínimo. Para além da prisão de verdade e não apenas afastamento das ruas para “atividades administrativas”, é preciso haver um clamor por reparação financeira e moral. Caso a instituição chamada Polícia Militar tivesse o mínimo de coragem, pediria desculpas oficialmente, publicamente e ressarciria os prejuízos causados por seus agentes que confessaram serem ladrões contumazes, ratazanas acostumadas e constranger para roubar, de tão naturalmente que agiam dentro da casa caprichosamente organizada.
As imagens capturadas pela câmera corporal por um descuido do policial são constrangedoras e vergonhosas numa escala altíssima. A criança relatando quem vivia na residência enquanto os policiais vasculhavam e escolhiam o que queriam é de embrulhar o estômago.
A remuneração inicial de um policial do BOPE é de R$ 3.400, podendo ultrapassar R$ 8 mil, no caso de sargentos. Um policial do BOPE ganha em média R$ 1.500 a mais do que um colega do batalhão comum. Alguns podem considerar um valor baixo, considerando o grau de risco destas funções, mas absolutamente nada justifica locupletar-se à custa de quem deveria ser protegido pelas forças oficiais. Afinal, está lá no portal institucional: “Polícia Militar. Servir e Proteger. 215 anos”. Faltou especificar a quem.
Também está lá no portal da Polícia Militar do Rio de Janeiro o seu logo. Folhagens de cana e café se entrelaçando e formando um conjunto com pistolas também entrelaçadas. O ano de fundação no meio, 1809, e uma coroa majestosa encimando tudo isso.
No logo do Bope, as pistolas e a coroa ainda estão lá, mas as plantas que sustentaram a elite são substituídas pela famosa faca na caveira. Mensagem mais óbvia, impossível. O objetivo que motiva não é você, eu ou o povo, mas quem dele sempre se utilizou. Passados mais de 200 anos ainda é difícil enxergar mudança nesta lógica e a corporação, definitivamente, ajuda pouco. Talvez, para eles, pouco importe realmente.
“As roupas não são de lojinha”, observou um dos policiais enquanto revirava o que não lhe pertencia na casa alheia e depois de beber o energético encontrado na geladeira. “Estou trabalhando pra caralho”, reclamou outro.
O cansaço deles só não é maior que o de um país absolutamente exaurido por não ter em quem confiar e por sua absoluta e secular falta de paz.
Multimarcas de violências.