Por Leila Cangussu
O impacto das bets sobre o endividamento, a saúde mental e as relações familiares foi o principal tema da edição ao vivo do programa Precisamos Conversar, realizada neste domingo (20), no Despertar ICL 2026. Comandado por Juliana Baroni, o encontro reuniu Verônica Oliveira, Gabriela Varella e Assucena, além da jornalista Milly Lacombe como convidada. O programa integra a grade de conteúdos do ICL.
A discussão começou após a resposta do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao vídeo gravado por Eduardo Moreira no evento. Na publicação, o fundador do ICL pediu a proibição das plataformas de apostas com a participação do público. Lula respondeu que o Brasil está mobilizado contra empresas que “destroem famílias inteiras pelo vício e o endividamento”.
A reação de clubes de futebol às propostas de restrição das bets também entrou no debate. Milly Lacombe criticou o argumento de que o futebol brasileiro não sobreviveria sem os recursos das plataformas.
“Se, para acabar com as bets que estão destruindo a vida de muitas pessoas, o futebol precisar padecer, que padeça”, afirmou.
Futebol existia antes das bets
Milly relacionou as apostas ao endividamento, ao sofrimento psíquico e ao agravamento de conflitos dentro das famílias. A jornalista também lembrou que o futebol existia muito antes da entrada das plataformas de apostas no mercado brasileiro. “O futebol feminino foi proibido durante 40 anos por lei e voltou. Os homens vão conseguir voltar”.
Gabriela Varella chamou atenção para a presença das marcas de apostas nas camisas dos clubes, nas transmissões esportivas e na publicidade feita por jogadores e influenciadores. Segundo ela, essa exposição dificulta que crianças compreendam a diferença entre apoiar um time e apostar. A jornalista também afirmou que as famílias de baixa renda estão entre as mais afetadas pelos prejuízos provocados pelo jogo. “O futebol é um fenômeno social e cultural que existe muito antes das apostas on-line. Tem que haver outra alternativa”, disse.
Endividamento e saúde mental
Verônica Oliveira relatou sua experiência com o desemprego, a insegurança alimentar e uma tentativa de suicídio. Ela contou que começou a produzir conteúdo nas redes sociais há dez anos, após passar por uma internação psiquiátrica. Ao relacionar sua trajetória ao vício em apostas, Verônica afirmou que o desespero financeiro pode levar uma pessoa a acreditar que não existe saída. “Nada é mais cruel do que o desespero de não ter condições financeiras”, declarou.
A influenciadora também mencionou mensagens recebidas de mulheres que não conseguem interromper as apostas mesmo depois de perder dinheiro, empregos e relações pessoais. “Se o futebol acha que seu modelo de negócio depende do sofrimento da sociedade, você não tem um modelo de negócio. Você tem um sistema criminoso”, afirmou.
Milly contou que o próprio pai era viciado em apostas e descreveu os efeitos do problema sobre sua família. Segundo ela, embora os homens apostem mais, muitas vezes são as mulheres que assumem as dívidas e a responsabilidade de manter a casa. “É um colapso das relações, da qualidade de vida e da vida financeira. Eu vi minha mãe sofrendo e tentando evitar que a gente soubesse o que estava acontecendo”, relatou.

“Uma questão de família”
Assucena afirmou que o combate às bets deve ser tratado como uma política de proteção às famílias brasileiras. Para a cantora, o debate também expõe a contradição de grupos conservadores que usam a defesa da família para atacar pessoas trans, mas não enfrentam os efeitos das apostas. “A questão das bets, antes de tudo, é para proteger a família brasileira”, disse.
Ela contou que um tio enfrenta o vício em jogos desde a época das máquinas instaladas em bares. Como forma de proteção, ele utiliza um celular sem acesso às redes sociais e depende do cuidado das mulheres da família. “Ele não tem controle e é uma das melhores pessoas que conheço. Não é uma falha de caráter”, afirmou Assucena. A cantora homenageou a mãe e as tias pelo cuidado prestado ao familiar e destacou que o transtorno não pode ser tratado como falta de força de vontade.
A união entre mulheres
Na segunda parte do programa, as participantes discutiram o tema central do Despertar 2026: “Juntos somos mais fortes”. Milly Lacombe criticou a ideia de que mulheres seriam naturalmente rivais e afirmou que esse discurso favorece a manutenção do machismo. “Não existe nada mais forte do que a união entre mulheres. A gente precisa entender como o sistema se beneficia dessa suposta inimizade”, declarou.
Gabriela Varella lembrou o apoio que recebeu de amigas, familiares e colegas nos momentos mais difíceis de sua vida. Verônica Oliveira falou sobre a possibilidade de construir novas amizades durante a vida adulta e convidou o público a criar vínculos durante o evento.
Assucena afirmou que sua vida foi transformada pelo acolhimento de três mulheres: a mãe, a irmã e a avó. Segundo a artista, o apoio familiar permitiu que ela estudasse e construísse sua trajetória sem romper os vínculos com a própria identidade. “Quem salvou minha vida foram três mulheres: minha mãe, minha irmã e minha avó”, disse.
Juliana Baroni encerrou a conversa contando que o programa nasceu a partir de sua participação na primeira edição do Despertar. Depois da palestra, mulheres do público sugeriram a criação de uma atração que ampliasse a presença feminina na programação do ICL. A edição do Precisamos Conversar ao vivo do terminou com Assucena cantando Força Estranha, de Caetano Veloso.
Jornalistas conversam com a plateia
A participação do público continuou no bloco seguinte, quando jornalistas e apresentadores do ICL deixaram o palco e circularam pelo Vibra São Paulo. Integrantes do Rádio News e de outros programas fizeram perguntas sobre a programação, os jornalistas e a história do instituto. Quem acertava recebia uma camiseta.
O momento encerrou o bloco com uma interação entre os profissionais e as pessoas que acompanham diariamente os conteúdos do ICL.