Por Valter Mattos da Costa
Quando os indicadores não acompanham os investimentos, o problema não está apenas no orçamento, mas em um modelo de gestão que transforma educação em métrica, adoece professores e mantém salários incompatíveis com a importância social da profissão.
O Estado do Rio de Janeiro voltou a ocupar uma posição constrangedora nos indicadores educacionais brasileiros. Apesar de estar entre os estados que mais investem por estudante, aparece na penúltima colocação do Ideb entre as redes estaduais.
Segundo levantamento do Centro de Liderança Pública (CLP), divulgado em maio de 2026, o Rio investe cerca de R$ 19,5 mil anuais por aluno. Goiás, líder nacional em desempenho, investe aproximadamente R$ 10,7 mil por estudante.
O contraste deveria provocar uma discussão séria sobre as políticas educacionais. Entretanto, o debate costuma ser reduzido a números isolados, como se aumentar ou diminuir recursos resolvesse automaticamente os problemas da escola pública.
Os dados sugerem outra questão. Quando o investimento cresce e os resultados permanecem baixos, torna-se necessário investigar não apenas quanto se gasta, mas como se gasta e quais prioridades orientam a gestão educacional.
Nos últimos anos, a educação brasileira passou a ser organizada por aquilo que tenho chamado de pedagogia da métrica. A escola tornou-se um espaço crescentemente subordinado a indicadores, plataformas, relatórios, rankings e metas quantitativas.
Nesse modelo, o professor deixa de ser compreendido como sujeito central do processo educativo. Gradualmente, transforma-se em operador de sistemas, alimentador de plataformas e executor de metas produzidas longe da realidade concreta das escolas.
A lógica da métrica produz uma inversão perigosa. O que deveria ser instrumento de avaliação passa a ocupar o lugar da própria educação. O meio transforma-se em finalidade e a aprendizagem torna-se estatística.
O resultado aparece diariamente dentro das salas de aula. Crescem os formulários, os registros digitais, os relatórios e os mecanismos de monitoramento. Nem sempre cresce, porém, o tempo destinado ao planejamento pedagógico e ao ensino.
A pesquisadora Dalila Andrade Oliveira vem demonstrando há décadas que reformas educacionais recentes intensificaram o trabalho docente, ampliaram responsabilidades e fortaleceram mecanismos de controle e responsabilização individual dos professores.
Não surpreende, portanto, o aumento dos afastamentos por sofrimento psíquico. Ansiedade, depressão, esgotamento emocional e síndrome de burnout tornaram-se temas recorrentes nas redes públicas brasileiras.
Relatórios recentes da UNESCO e da OCDE sobre a profissão docente apontam que a sobrecarga de trabalho, a perda de autonomia profissional e a desvalorização social constituem fatores relevantes para o adoecimento dos professores.
Ao mesmo tempo, persiste uma contradição histórica. Exige-se do professor que resolva problemas sociais complexos, cumpra metas crescentes e apresente resultados cada vez melhores, mas sem a correspondente valorização profissional.
No Rio de Janeiro, milhares de docentes continuam acumulando matrículas, enfrentando longos deslocamentos e assumindo jornadas extenuantes para complementar rendimentos insuficientes. A realidade cotidiana desmente os discursos oficiais sobre valorização da educação.
Nenhum sistema educacional alcança excelência sustentada quando seus profissionais trabalham exaustos. Nenhuma política pública produz resultados duradouros quando aqueles que a executam convivem permanentemente com a precarização.
Por isso, o problema da educação fluminense não pode ser reduzido a uma simples questão de orçamento. Os números mostram que o desafio é mais profundo e envolve concepções de gestão, prioridades políticas e valorização profissional.
A insistência em transformar a educação em um conjunto de indicadores pode produzir boas apresentações em reuniões administrativas. Dificilmente produzirá, sozinha, uma escola pública mais humana, democrática e socialmente relevante.
Enquanto o professor continuar sendo tratado como custo operacional e não como investimento estratégico, os resultados provavelmente continuarão decepcionando. A crise educacional não será resolvida apenas por métricas.
Afinal, aquilo que realmente sustenta a educação continua sendo algo que nenhum ranking consegue medir completamente: o trabalho humano de quem ensina.