A próxima vítima: quatro mulheres são mortas por dia no Brasil

Por mais forte, corajosa ou independente que seja uma mulher, o medo de morrer por uma questão de gênero nos atravessa por igual
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Os números do feminicídio no Brasil saíram. Saíram como sentença. São alarmantes — palavra insuficiente para dar conta do que significam. Saí de férias anunciando a morte da Tainara Souza Santos, 31 anos, atropelada e arrastada pelo ex-companheiro em São Paulo. Teve as duas pernas amputadas. Morreu na noite de 24 de dezembro de 2025. Naquele dia, Tainara foi apenas mais uma. Uma entre as quatro mulheres assassinadas diariamente no Brasil por serem mulheres.

Quatro por dia. Oficialmente. Porque ainda há as subnotificações. Porque ainda há os “acidentes domésticos”. Porque ainda há os assassinatos que não ousam dizer o nome.

Cansa. Estou exausta. Estamos exaustas. Eu tenho medo. Sempre tive. Mas o medo de agora é diferente: ele não é abstrato, ele se senta ao nosso lado no banco do carro de aplicativo, ele observa pelo retrovisor, ele calcula horários, ruas, atalhos. Já não me distraio. Já não relaxo. Sair à noite sozinha virou exceção, não direito. Não somos livres.

A frase atribuída ao escritor uruguaio Eduardo Galeano diz que “o machismo é o medo dos homens das mulheres sem medo”. Mas o nosso medo é outro. Não é psicológico, é estatístico. Não é subjetivo, é concreto. Por mais forte, corajosa ou independente que seja uma mulher, o medo de morrer por uma questão de gênero nos atravessa por igual.

E estamos morrendo mais.

Em 2025, o Brasil bateu o maior recorde de feminicídios desde que o crime foi tipificado, em 2015. Foram 1.470 mulheres assassinadas apenas por serem mulheres. Desde a tipificação, mais de 15 mil de nós foram apagadas da existência. Quinze mil histórias interrompidas.

E ainda assim os números não dão conta. Não contam as mutilações. Não contam as sobreviventes marcadas para sempre. Não contam os rostos queimados, desfigurados, atacados porque o rosto é identidade, é dignidade, é existência. Destruir o rosto de uma mulher é tentar apagá-la em vida.

No início de janeiro, a TV Record exibiu a série “Estranho amor”, inspirada em histórias reais de violência doméstica. Logo no primeiro episódio, a didática cruel da escalada da violência: o controle, o ciúme, a agressão verbal, o soco, o ácido no rosto. Não é ficção exagerada. É espelho. É roteiro repetido à exaustão na vida real.

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Conversei com Bruno Bellarmino, ator que interpreta o agressor. Ele pedia desculpas à colega de cena, a atriz Laryssa Ayres, a cada cena violenta. Disse que chegava aos sets já esgotado, atravessado pelas notícias, pela enxurrada diária de feminicídios nos jornais da manhã. Não era atuação. Era realidade vazando pela dramaturgia.

“Algumas pessoas poderão sentir uma sensação angustiante nas cenas de violência que surgirão ao longo da série. Mas olha que trágico, todas elas foram escritas de forma semelhantes a relatos reais de testemunhas. A minha preparação já começava desde a hora que ligava a TV para saber das notícias. Enquanto fazia o café, metade da grade do jornal, citavam casos e mais casos sobre feminicídio. Eu chegava na preparação da série me sentindo mais culpado do que tudo. E digo, péssimo mesmo.”, revela Bruno.

Enquanto isso, São Paulo lidera o ranking nacional de feminicídios. Foram 233 casos no último ano — 10% a mais que em 2024. E, mesmo assim, o governo de Tarcísio de Freitas executou apenas 28,5% do orçamento previsto para políticas de proteção às mulheres. Não é falta de diagnóstico. É escolha. O Ministério Público Federal abriu inquérito para investigar omissão do Estado. O governador nega. Os números gritam.

E seguem gritando.

Nesta semana, em Manaus, um homem matou o próprio filho de três anos para ferir a mãe. Arremessou a criança contra a parede. Esfaqueou repetidas vezes. Violência tem nome, tem método, tem intenção. Matar o que a mulher mais ama para puni-la. A monstruosidade não é exceção. É padrão.

Até quando vamos noticiar, lamentar e chorar essas mortes como se fossem fatalidades, e não projetos? Até quando a segurança das mulheres será pauta secundária, promessa vazia, orçamento contingenciado?

Não somos livres. E enquanto não formos, nenhuma sociedade pode se chamar de civilizada.

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