Passava pouco da metade do primeiro bloco quando Lula fez a mesma pergunta pela sexta ou sétima vez. Queria saber o destino dos R$ 134 milhões que Flávio Bolsonaro pediu ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro. A resposta voltava sempre igual, como refrão: “foi no filme”. Quando Flávio mudou de assunto e passou a falar do reajuste do Bolsa Família, Lula perdeu a paciência ao vivo: “Eu falei de você explicar os R$ 134 milhões e você veio falar de Bolsa Família, porra?”. Pouco depois, desistiu: “Não vai falar dos 134 milhões, eu vou parar de perguntar”.
A cena resume o primeiro debate presidencial de 2026, promovido pela Band na última noite. Durante o encontro, houve a demonstração de um ditado antigo: quando um não quer, dois não debatem.
O que um debate pressupõe
O debate na TV funciona com base num acordo implícito. Quem pergunta espera resposta e quem foge da resposta paga o preço na frente de todo mundo. As regras da Band seguiam essa lógica: banco de 15 minutos por candidato, liberdade para circular pelo palco, direito de resposta mediante pedido. A mediação controla o tempo, mas não tem como obrigar ninguém a responder.
Nesse desenho, a única punição para quem se esquiva é o julgamento de quem está assistindo. Esse mecanismo funciona quando o público é o telespectador que acompanha o debate inteiro. Ele deixa de funcionar quando o público que interessa aos candidatos é quem verá 40 segundos no celular no dia seguinte. No corte, a pergunta sem resposta desaparece e fica só a frase de efeito.
Flávio chegou com outro roteiro em mente
Flávio evidenciou o seu plano antes de entrar no estúdio. Disse que pretendia “esfregar algumas verdades na cara de Lula”. Pediu ao telespectador papel e caneta para escrever “corrupto” e encontrar o “PT” no meio da palavra. Disse que estava “sem carteira” para não ser roubado. Avisou que o “nariz” do adversário estava crescendo. Explicou que, sempre que Lula diz “sabe”, está mentindo. Em pleno debate, mandou o público procurar o áudio de Vorcaro em seu perfil nas redes.
Ao mesmo tempo, não respondeu ao que lhe foi perguntado. Não explicou por que foi o único deputado da Alerj a votar contra a ampliação da licença-maternidade, em 2009. Não explicou a defesa do policial acusado de matar Ana Clara, de 5 anos. Também ficaram sem resposta a retirada da numeração das munições, o modelo Milei e os R$ 134 milhões de Vorcaro. Em vez disso, falou de Lulinha, de Roberta Luchsinger e do INSS.
A checagem do Aos Fatos apontou como falsas ou distorcidas várias afirmações do senador: que a criminalidade “explodiu”, que 73% dos presidiários votaram em Lula, que Lula e Janja gastaram R$ 7 bilhões em viagens. Num debate tradicional, isso custaria caro. Na lógica atual dos cortes virais, quase não custa nada, porque a correção chega depois e impacta muito menos gente.
Lula levou um bloco para entender
Lula disputa sua sétima eleição presidencial e conhece os debates como poucos. Talvez por isso tenha demorado a perceber o que estava acontecendo. No primeiro bloco, tentou levar Flávio para o terreno que domina: pergunta objetiva, cobrança de explicação, insistência. Essa estratégia supõe que o adversário pague algum preço por não responder. Flávio fugiu.
No fim do primeiro confronto, Lula tentou apresentar o que tinha como plano: “Eu queria que acontecesse exatamente o que aconteceu. É dar corda para saber aonde a pessoa que mente vai”. A partir do segundo bloco, porém, mudou de estratégia. Parou de fazer perguntas à espera de resposta e passou a falar do que era de seu domínio: SUS, Mais Médicos, salário-mínimo, inflação de alimentos. No terceiro bloco, trocou a pergunta pelo desafio. Propôs que as duas famílias abrissem contas bancárias e sigilos telefônicos e os entregassem ao STF e ao TSE antes da votação do segundo turno. Um desafio desses não precisa de resposta para funcionar, porque a recusa já responde.
Lula também produziu o seu próprio material para circular nas redes. “pedigree ruim” e “Jair Bolsonaro, vote em mim” não foram frases para o eleitor em dúvida. Foram frases para a própria base.
Onde está o problema
Os dois candidatos usaram o debate como matéria-prima para a mesma coisa: reforçar a rejeição ao adversário e alimentar as próprias bolhas. O ritmo foi diferente. Flávio chegou com esse objetivo e Lula chegou a ele após o primeiro bloco.
Em um cenário de segundo turno empatado (Datafolha com 47% a 45%, Quaest com 46% a 44%), a rejeição pesa mais do que a adesão. Tornar o adversário inaceitável sai mais barato do que convencer quem ainda não decidiu. Além disso, a base precisa estar mobilizada e no mesmo dia houve mobilizações de rua dos dois lados na Avenida Paulista e em outras capitais do país. O debate virou extensão desses atos, com plateia se manifestando e mediadores pedindo silêncio várias vezes.
O formato do debate foi desenhado para quem assiste do início ao fim e cobra respostas. Os candidatos, cada um a sua estratégia, falaram para quem verá apenas o corte no dia seguinte.
Quem ficou de fora
A ciência política chama de índice de alienação eleitoral a soma de abstenções, votos brancos e votos nulos. No primeiro turno, foram 33,5 milhões de abstenções (21,08% do eleitorado, acima de 2022) e quase 6 milhões de brancos e nulos. São perto de 40 milhões de brasileiros, cerca de um quarto do eleitorado apto a votar. Flávio terminou o primeiro turno com 2,2 milhões de votos à frente de Lula.
Esse eleitor desengajado provavelmente desligou a TV nos primeiros minutos. É razoável supor que, a partir da metade do primeiro bloco, o debate tenha sido acompanhado sobretudo por profissionais (por necessidade) e pela militância (por amor). O debate não ofereceu comparação séria entre as propostas de governo sobre temas estruturantes, como a renegociação de dívidas da população e dos estados, a maioridade penal e o fim da escala 6×1, nem explicação de como cada um pretende atuar em sua transição.
Numa eleição decidida por 2,2 milhões de votos, o debate da Band não ofereceu aos quase 40 milhões de eleitores desengajados nenhum motivo para votar.