Outro dia, ouvi uma pessoa dizer que o pensamento negativo teria mais poder sobre o nosso cérebro do que o pensamento positivo. Interrompi dizendo que talvez a fonte, que esta pessoa pesquisou, não fosse das melhores.
Isso porque existe uma diferença importante: o pensamento negativo não necessariamente tem mais poder. Ele pode, entretanto, receber mais atenção e ser mais facilmente lembrado.
A neurociência e a psicologia estudam esse fenômeno como viés de negatividade. Em determinadas situações, informações negativas podem exercer um impacto maior sobre nossa atenção, memória e avaliação dos acontecimentos. Do ponto de vista evolutivo, isso faz sentido: perceber uma ameaça sempre foi mais urgente para a sobrevivência do que perceber algo agradável.
Mas existe uma questão ainda mais interessante: o que acontece quando um pensamento é repetido tantas vezes que deixa de parecer apenas um pensamento e começa a funcionar como uma verdade?
Nosso cérebro aprende por meio da experiência e da repetição. Quando determinados padrões de pensamento são constantemente ativados, eles podem se tornar mais familiares e automáticos. Não significa que tudo aquilo que pensamos repetidamente se torne verdade. Significa que podemos passar a interpretar a realidade a partir daquela mesma lente.
É assim que um pensamento pode contribuir para a formação de uma crença.
Uma criança que, por diferentes circunstâncias, cresce acreditando que não é suficientemente boa, que não merece ou que precisa fazer tudo perfeitamente para ser reconhecida pode levar essas conclusões para a vida adulta.
Talvez ninguém diga a ela diretamente: “Você não é suficiente”.
Mas críticas constantes, comparações, rejeições, falta de reconhecimento ou determinadas experiências podem produzir exatamente essa conclusão.
Anos depois, aquela criança se tornou adulta. A frase talvez já nem esteja presente conscientemente, mas a crença pode continuar aparecendo em suas escolhas.
Ela pode recusar uma oportunidade porque acredita que não está preparada. Pode aceitar menos do que gostaria em um relacionamento. Pode ter dificuldade para receber elogios. Pode escolher parceiros que confirmem aquilo que, inconscientemente, já acredita sobre si mesma.
A crença passa a funcionar como uma lente.
E isso também acontece com pensamentos construídos ao longo da vida.
Depois de uma sequência de frustrações, alguém pode começar a repetir: “Nada dá certo para mim”.
Inicialmente, é apenas uma reação a acontecimentos desagradáveis. Mas, se essa ideia se torna recorrente, pode influenciar a maneira como a pessoa interpreta as próximas experiências.
Uma nova oportunidade surge e ela já espera que dê errado.
Um relacionamento começa e ela aguarda o momento em que será abandonada.
Alguém demonstra interesse e ela desconfia.
O problema, portanto, não está apenas no pensamento. Está naquilo que ele passa a produzir quando se transforma em um padrão.
Por isso, talvez seja mais importante do que simplesmente tentar “pensar positivo” desenvolver a capacidade de observar e questionar os próprios pensamentos.
De onde veio essa ideia?
É um fato ou uma interpretação?
Essa crença corresponde à minha realidade atual?
Que evidências tenho de que ela é verdadeira?
E quais evidências mostram o contrário?
Esse processo exige autoconhecimento. E também conhecimento sobre a maneira como nossa mente funciona.
A boa notícia é que o cérebro possui capacidade de mudança. A neuroplasticidade demonstra que experiências e aprendizagens podem modificar conexões e padrões neurais ao longo da vida. Por isso, não estamos necessariamente condenados a repetir os mesmos padrões emocionais e cognitivos.
Existem diferentes abordagens psicológicas e técnicas terapêuticas que trabalham justamente com pensamentos automáticos, crenças e padrões repetitivos. O objetivo não é substituir um pensamento negativo por uma frase positiva que não corresponde ao que sentimos.
É investigar a origem da crença, confrontá-la com a realidade e construir uma compreensão mais verdadeira e funcional.
Isso é particularmente importante quando falamos de relacionamentos.
Entramos em uma parceria levando conosco nossa história. Levamos aquilo que aprendemos sobre amor, rejeição, abandono, merecimento, intimidade e sexualidade.
Por isso, às vezes, o problema de um relacionamento atual não começou naquele relacionamento.
Ele pode estar revelando uma crença muito mais antiga.
Talvez a pergunta mais importante não seja:
“Por que eu penso assim?”
Mas:
“Essa é realmente a minha verdade ou é uma verdade que eu aprendi?”
Reconhecer a diferença pode ser o início de uma mudança profunda, não para pensar positivamente o tempo todo, mas para desenvolver uma percepção mais consciente sobre nós mesmos, nossas escolhas e a maneira como construímos nossos relacionamentos.
Grande abraço,