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Como pensar em igualdade de direitos para as religiões ou culturas de matriz africana, se o acesso a direitos em nosso país nunca foi pensado para a população desses segmentos religiosos e culturais?

Tendo uma grande parcela de pessoas negras, e, consequentemente, os desassistidos, as religiões de matriz africana historicamente sempre foram alijadas de participar das decisões politicas e culturais do Brasil. Com a escravidão e a pseudoabolição, fomos largados à própria sorte, sem direitos à terra, moradia, saúde e todas as necessidades básicas da pessoa humana.

Sequestrados do continente africano, os negros e negras escravizados, trouxeram consigo não somente a sua cultura e religiosidade, mas também diversos conhecimentos, como a agricultura, metalurgia, seus saberes medicinais, a partir do conhecimento das plantas utilizadas nos rituais e uso terapêutico, e sua culinária.

A mão de obra nunca remunerada foi um dos fatores da construção das riquezas desta nova ação e também foram estes corpos que cedo foram ceifados pelo trabalho escravo.

Os povos sequestrados vieram de regiões diversas da África, com suas filosofias próprias e cosmopercepções distintas.

Um dos mecanismos de negação e aniquilamento destes povos por parte dos colonizadores foi desarticular quaisquer resquícios de identidade e valorização de suas identidades culturais e religiosidade (espiritualidade) ancestral. Apagar de seus corpos e mentes  valores fundamentais de dignidade humana e conexão com sua terra e ancestralidade negra.

Esta hegemonia colonial se encarregou de nos transformar em peças, nos coisificando, nos tirando a humanidade e os direitos. Povos bantos, iorubás, Jejes, todos misturados, como forma de não nos fazermos nos entender e consequentemente não nos articularmos.

Pois é, “o tiro saiu pela culatra”.

Nos reinventamos, criamos o Candomblé, uma tradição de matriz africana, ressignificada em solo brasileiro a partir desta afrodiáspora cultural e religiosa.

Trocamos entre nós, cunhamos nossos direitos nesses quilombos de resistência para reexistir. Os povos originais foram nossos parceiros e parceiras na resistência de ressignificados culturais, onde os cultos afroindígenas puderam se fazer presentes e resistentes entre nós, com a Umbanda e os Candomblés de Caboclos.

Perseguidos e violados em nossos direitos fundamentais, temos a Constituição Federal de 1988 (Constituição cidadã) que nos assegura a liberdade de exercício de nossa religiosidade e cultura, mas que não é respeitada pela sociedade brasileira e grupos religiosos fundamentalistas, racistas e fascistas, que não reconhecem os nossos direitos e, consequentemente, a Carta Magna.

A grande verdade é que em um Estado Democrático de Direito, ao menos no que diz respeito às tradições de matriz e motriz africana e sua população (adeptos/as), os direitos continuam a nos ser negados. Mesmo porque não fomos nunca consultados sobre a construção e planejamento dos direitos que pensamos ter.

Em um país que foi forjado na escravidão, colonização e ideias de supremacia e subjugação do outro, o que podemos esperar?

O reflexo histórico destas atrocidades continuam a estar presentes nos dias de hoje, se justificando nos ataques violentos contra as comunidades de matriz africana, suas lideranças e adeptos, nos desterritorializando, seja com os avanços violentos que se tornaram comuns aos nossos locais de culto, seja em áreas publicas ou privadas, sem a devida atenção das autoridades publicas do Estado Brasileiro.

Não, não queremos ser iguais.

Queremos igualdade de direitos para que possamos continuar vivendo de forma digna, cultuando e valorizando nossa ancestralidade por um bem viver, contribuindo por uma sociedade diversa e plural, étnica, racial, sexual, cultural e religiosa.

“Eles combinaram de nos matar, mas nós combinamos de não morrer!”

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