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Valdemar Figueredo (Dema)

Idealizador e coordenador desde 2017 do Observatório da Cena Política Evangélica pelo Instituto Mosaico (www.institutomosaico.com.br). Pós-doutorando em sociologia pela USP. Doutor em ciência política (antigo IUPERJ, atual IESP-UERJ) e em teologia (PUC-RJ). Pastor da Igreja Batista do Leme e da Igreja Batista da Esperança, ambas na cidade do Rio de Janeiro.

Rio 40 graus: purgatório da beleza e do caos

O governador Cláudio Castro na Santa Ceia do histriônico Silas Malafaia
12 de dezembro de 2023

Numa manhã ensolarada, precisei enfrentar o trânsito pesado da Brasil. A Avenida Brasil, na região metropolitana da cidade do Rio de Janeiro, é um caso típico de obra inacabada. Os recursos terminaram e as vias afunilaram. Parece aqueles filmes futuristas de cidades fantasmas, escombros, poluição visual, poluição sonora e do ar, tons de cinza, fogo e fumaça de cachimbos de pedra e a suspeita de que o poder público se resignou frente ao caos.

Tentei um caminho alternativo para sair do engarrafamento num trecho que achava que conhecia bem. Inclusive, quando menino, me aventurei algumas vezes vendendo picolé no ramal de trem da Leopoldina. Circulava regularmente por Olaria, Penha, Brás de Pina, Parada de Lucas, Vigário Geral e pelo entorno.

Numa rua que me parecia familiar, deparei-me com quatro barras de ferro fincadas no asfalto barrando o trânsito. Daí constatei que eu era o único desavisado. A rua estava deserta e não havia outro carro tentando a fuga da Avenida Brasil no mesmo sentido em que eu estava. Sem perguntar pelo domínio ou pelos motivos, fiz o retorno.

Cheguei à conclusão de que o Rio está entregue e nesses casos não adianta ligar 190 (número da Polícia Militar).

O Governador Cláudio Castro (PL-RJ) foi visto um dia antes bem perto do local onde vivi essa experiência. Não propriamente para restabelecer a ordem, muito menos para implementar políticas públicas pertinentes à segurança ou mobilidade urbana.

No domingo (03), o governador foi à Igreja Assembleia de Deus Vitória em Cristo (ADVEC-Penha) para buscar a oração poderosa do Pastor Silas Malafaia (veja o vídeo aqui). Era domingo da Santa Ceia. Memorial restrito aos evangélicos com mensagem de arrependimento e comunhão. Pois, neste culto, o católico carismático Cláudio Castro não procurava a experiência da comunhão proporcionada pelo Sacramento da Eucaristia. Teve cinco minutos para falar das dificuldades da segurança pública no Estado do Rio de Janeiro e para pedir oração. Enquanto isso, pacientemente, o rebanho da ADVEC na Penha aguardava o pão e o vinho.

A sensação de violência no Estado escalou simultaneamente à sensação de calor.

O eminente líder espiritual chegou a sugerir, em defesa do governador, que no ranking de índice de violência a cidade do Rio de Janeiro estaria na vigésima posição entre as capitais dos Estados da federação brasileira. Indisfarçável tentativa de suavizar a situação que todos sabemos que é gravíssima.

Silas Malafaia é cúmplice do desgoverno Cláudio Castro, fiador de um governo no mínimo passivo em relação à expansão das milícias pelo território do Estado.

Nesse contexto de transformar a mesa da ceia em balcão político, a oração feita a favor do governador pelo pastor mais histriônico desta nação figura como uma ofensa a Deus e desprezo pela sacralidade da igreja na celebração da Ceia do Senhor.

Nas palavras de Jesus, “De que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma?” (Marcos 8. 36).

 

*O título é verso da música composta por Fausto Borel Cardoso / Carlos Cesar Laufer / Fernanda Sampaio De Abreu.

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