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Por Matheus Pichonelli*

Cruzei o rubicão dos 40 anos, em 2022, com um olho na vela e outro nos hábitos deletérios de quem me rodeava. Pelos exemplos mais próximos, meu destino pelos próximos anos estava selado: morrer de tanto beber, morrer de tanto comer, morrer de tanto fumar ou morrer de tanto trabalhar para pagar as parcelas de alguma moto que comprei para fingir que não envelhecia — uma negação do tempo em alta velocidade e jaqueta de couro. Outra possibilidade era morrer de tédio.

O risco embutido em tantas bifurcações era embrutecer e só. (Já tentou abrir um livro ou contemplar as belezas da vida em ressaca? Ou depois de encarar como uma jiboia um processo digestivo de dois dias intensos na companhia de açúcar, fritura e gorduras oferecidas como sequestro de recompensa às áreas cerebrais avariadas por trabalho igualmente intenso e sono interrompido? Pois então).

Com 40 anos e um dia, decidi fugir de tudo isso pulando na água. De duas a três vezes por semana, religiosamente às 6h30, mergulho agora numa piscina semi olímpica de água gelada onde busco preservar meus 50 minutos de sanidade sem ser acionado, receber notificações nem atender alguma compulsão — na água me preservo dos perigos da adega ou da geladeira.

Mas mesmo envolto de cloro não consigo me despir do sujeito que esperam de mim fora dali. Os tiros são contabilizados em metros e tempo de chegada. Há metas de desempenho entre uma braçada e outra. E competição. Não pega bem chegar em último no exercício de perna — o que já me leva a estudar maneiras de fortalecer a pernada na academia ou com suplemento alimentar.

Pronto. Em minha fuga particular da morte certa antes dos 60, troquei uma compulsão por outra.

Ainda assim, sinto que diminuí consideravelmente o impulso de comer/ beber/ dormir até morrer desde que voltei a nadar.

Só não sei se é porque agora sou capaz de produzir em velocidade A3 minha própria endorfina ou porque o caminho de volta para casa me reconectou com uma cidade por onde só deslizava de carro.

A princípio queria apenas economizar o Uber. Mas peguei gosto de encarar uma subida de 3,5 quilômetros e encontrar, no caminho, alguns conhecidos de quem não sei o nome. (No começo levava os fones para ouvir podcasts sobre notícias e utilidades e suportar a caminhada; agora é a caminhada em si que me atrai). Essa sim é minha rebelião contra as imposturas do tempo: levo uma hora para fazer o mesmo percurso que faria em dez minutos de carro.

Mas é no caminho que consigo congelar o tempo e observar nuances despercebidas do meu bairro, um entreposto entre a periferia e os condomínios de classe média alta do interior paulista.

Da última vez, tocava “Página de Amigos”, clássico sertanejo de Chitãozinho e Xororó, às 7h30 no mercadinho do bairro, um ponto de resistência à rede Oxxo onde paro toda vez para buscar os legumes do dia. Mentira, paro porque gosto de conversar.

Antes do refrão, falei para o dono/ atendente/ psicólogo da mercearia que aquela música derrubava demais a gente àquela hora da manhã. Só de ouvir dava vontade de abrir a latinha (de Itaipava, porque cerveja boa não combina com passado mal resolvido) e botar o Derby no bolso da camisa de botão aberta.

Ele riu e perguntou se tinha dado certo a polenta que eu faria semana passada, quando ele saiu do balcão e me ajudou a buscar nas prateleiras os ingredientes e os modos de preparo (chupa, Oxxo). Até que deu certo, contei. Mas não era a polenta a minha vó.

Minha (nossa) conclusão era que a gente não tem vontade de comida da vó depois de velho. Tem é saudade da vó. E para isso não tem receita.

Esse é o tipo de diálogo que tenho a caminho de casa quando tudo o que meu celular aponta é que estou em atraso comigo mesmo, não li o que tinha que ler, não performei o que tinha a performar, não resolvi o que tinha a resolver antes do bicho pegar no horário comercial.

Mas aprendi a fazer minha própria polenta.

Essas concessões ao delírio das experiências com coisas reais, em 2023, só parecem fazer sentido como resistência e enfrentamento às demandas digitais do novo século. É no terreno analógico que retomamos o controle do tempo, e é isso o que faz de “Dias perfeitos”, filme de Wim Wenders que estreou semana passada no streaming, um manifesto contra os imperativos da contemporaneidade.

O longa acompanha a rotina de Hirayama (Koji Yakusho), um funcionário que passa dias imperfeitos limpando as privadas dos banheiros públicos de Tóquio com a meticulosidade de um ourives (“por que tanto cuidado, se todo mundo vai sujar depois?”, pergunta o único colega de jornada entre germes e bactérias).

Mas Hirayama é o típico funcionário padrão. Ele não só cumpre a missão sem reclamar como sorri toda vez que sai de casa para encarar o ofício menos prestigiado da cadeia produtiva urbana. Não é um sonho um funcionário assim?

Hirayama parece incorporar o que o diretor alemão buscava quando viajou a Tóquio nos anos 1980 para conhecer e absorver a sabedoria milenar do país de origem de seu mestre, Yasujirō Ozu, o cineasta da câmera baixa e estática, dos diálogos econômicos, dos silêncios preservados, do enquadramento obsessivo — e do registro da transição lenta de um país de base rural para um outro pulsante, urbanizado, e prestes a se impor à tradição.

Esse conflito sobre a nova modalidade temporal já estava desenhado em “Era uma vez em Tóquio”, de 1953. Mesmo parada, é aquela câmera posicionada à altura de velhos sentados e crianças de pé que registra o impacto social do trem de alta velocidade que agora corta a paisagem quase feudal.

Wenders, talvez sem compreender o que o próprio Ozu anunciava em seu filme consagrado, se surpreende ao descobrir que aquele país idílico, monástico e silencioso tinha desaparecido em tão pouco tempo. A Tóquio que ele conhece pelo cinema estava completamente ocidentalizada, como uma Nova Iorque com mais neon e menos espaço para contemplação.

Pior: os atores dos filmes da vida dele não eram sequer reconhecidos pelo público quando saíam às ruas.

Wenders não demora a perceber que o que ele procurava estava soterrado, mas não liquidado por completo: as pessoas seguiam meditando, mas não à sombra das cerejeiras ou aos pés do Monte Fuji ou do Rio Sumida. Faziam isso entre ruídos de salões de jogos observando em silêncio as bolinhas das apostas caírem uma a uma. Era uma forma de não pensar no mundo nem na vida (ansiosos que jogam Paciência no tablet para não pensar em nada entenderão. Os que entram na água às seis da manhã para mentalizar só a dor do corpo, e não da alma, também; os que caminham para ver a cidade e não os buracos internos, idem).

A experiência no Japão é relatada no documentário “Tokyo Ga”, de 1985, que Wenders atualiza com o personagem contemplativo de “Dias perfeitos”. Hirayama, o protagonista, é, antes de tudo, o exemplo e o herói que ele não encontrou naquela primeira viagem.

Não sabemos se aquele personagem preservado da ordem do tempo realmente não sabe o que é Spotify ou se só finge não saber quando dialoga com uma jovem encantada com o seu arsenal de fitas K7, que sonorizam a travessia entre um banheiro e outro em companhia de Lou Reed e Patti Smith. Hirayama é o último representante da espécie que ainda usa celular (e não smartphone) para telefonar e só.

Num mundo que pede desempenho, prestígio, conexões sociais e reconhecimento o tempo todo, Hirayama parece satisfeito em receber ao fim do dia, num restaurante de galeria de decoração duvidosa num beco da cidade, uma bebida como recompensa pelo “duro trabalho”. Aparentemente ele não precisa mais do que aquilo para ser feliz (e se sentir vitorioso, como todos buscam na cidade grande).

Naquele ritmo de redução de expectativas, pensamos nós, ele manteve intacta a capacidade de contemplar a beleza que ninguém mais reconhece ao redor: a vegetação que resiste ao avanço do asfalto, o doidinho da praça que chama a árvore para dançar, a piscadela de desconhecidos, o jogo de luz e sombras captados em câmera analógica, e reveladas em papel. Ou mesmo as delícias do prato e das músicas de sempre, nos mesmos formatos de sempre.

Andar com Hirayama pelas ruas de Tóquio é abrir as portas para uma experiência sensorial que perdemos com o tempo. Wenders faz isso com apenas dois dos sentidos aguçados: visão e audição.

E elas se sofisticam à medida que o personagem silencia.

Em uma cena de “Assassino da lua das flores”, de Martin Scorsese, o personagem de Robert De Niro, ainda não revelado como vilão, ensina o sobrinho interpretado por Leonardo DiCaprio a interagir com os indígenas da reserva Osage, alvos da cobiça mais moderna dos endinheirados. A ordem é mais ou menos assim: “Cuidado com os minutos em que não temos nada a dizer. Eles preenchem esses espaços com silêncio. Nós preenchemos com palavras. É aí que falamos bobagens”.

Como os indígenas do filme concorrente ao Oscar de 2024 (e igualmente derrotado), o protagonista de “Dias perfeitos” não preenche lacunas com palavras, mas com leitura e observação. (Tem companhia melhor do que os livros?, me perguntou uma amiga ao fim da sessão. E se a companhia dos relacionamentos for apenas superestimada? E se a solidão, no fim, for uma dádiva quando se aprende a absorver a dor e a delícia de ser o que é?

Em outras palavras: teria o personagem, enfim, descoberto o princípio ativo da felicidade ao se proteger do mundo sem precisar gritar mais alto ou simplesmente fugir para longe?

São todas perguntas em aberto.

Da rotina filmada em looping, como um “Dia da marmota” com alguma chance de redenção, percebemos que todo dia aquele protagonista faz tudo sempre igual. O que muda é o posicionamento da câmera de Wenders, num convite igualmente silencioso para o público testemunhar por outros ângulos e perspectiva a beleza (ou dureza) de uma vida silenciosa, solitária e disciplinada – mas que gira em falso quando alguma coisa sai do lugar ou do previsto.

Nisso há mais de “Jeanne Dielman” do que de Ozu naquele trabalho compulsivo de personagem e diretor. Jeanne Dielman é o nome da protagonista do filme de Chantal Akerman que repete obsessivamente a rotina maquinal de cuidados com o filho e com a casa até o momento em que vê fechada a porta do café que frequenta todo santo dia. A interdição a leva não a mudar a rota, mas a repensar a própria existência sobre a qual não quer pensar. Ela, como o jogador flagrado por Wim Wenders em “Tokyo Ga”, também busca a essência da meditação ao provocar incômodo e cansaço ao corpo para não pensar em nada.

Sob essa ótica é possível desconfiar que os dias de Hirayama não são tão perfeitos assim. E que o sorriso diário ao sair de casa pode ser apenas tique ou um sintoma de epilepsia gelástica, como o riso involuntário do Coringa — sacado ao menor sinal de confronto.

Por trás do sorriso recorrente, o rosto do personagem é todo cansaço. “Um sorriso bobo, parecido com soluço”, e que fica ainda evidente na cena final, em que ele ri e chora ao mesmo tempo.

Uma forma de observar o filme, em um dos muitos movimentos de câmera oferecidos pelo diretor, é pensar em Hirayama como um sujeito com dificuldade aguda de comunicação e um provável nível suporte e neurodivergência — só que sem o suporte e sem diagnóstico. E que ele só consegue sobreviver àquele mundo de performance, desempenho, imperfeições e inseguranças porque consegue regar e cuidar dos próprios hiperfocos que criou com um cápsula protetora em um rotina de disciplina quase militar pela qual tenta caminhar sem se perder.

“Existem muitos mundos dentro do mundo. E nem todos eles estão conectados”, diz o personagem à sobrinha, em um raro momento de conexão. A todas as outras perguntas e tentativas de contato ele responde apenas com silêncio ou sorriso: ou porque palavras não inúteis, como ensinam os Osage, ou por pura incapacidade de socialização.

Na busca pelo personagem contemplativo e romantizado que não encontrou em Tóquio nos anos 1980, Wenders transformou seu protagonista da ficção dos anos 2020 em um sujeito solitário, com dificuldades de encarar o passado, as relações devastadas (com a irmã rica, o pai abusivo e alguém que, percebe-se, morreu ou partiu) e qualquer perspectiva de vínculo afetivo futuro.

Talvez o protagonista de “Dias perfeitos” não seja o soldado resistente à modernidade que Wenders e todos nós queremos encontrar e ser quando crescer.  Talvez ele esteja há tanto tempo sozinho e fugindo da dor que não percebeu o mundo passar na janela enquanto o corpo, a câmera analógica e as fitas K7 envelheciam.

Crônica originalmente publicada na newsletter https://matheuspichonelli.substack.com/

*Formado em jornalismo e ciências sociais. É roteirista do ICL Notícias, com passagens por Folha de S. Paulo, iG, CartaCapital, Yahoo, Intercept Brasil, UOL, e colaborações para o jornal O Globo e a revista Piauí.

 

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