Se por um lado São Jorge aparece, para tradições cristãs católicas, como o “santo guerreiro”, montando seu cavalo para derrotar seus inimigos e o temido dragão, por outro, Ogum aparece como o orixá associado às batalhas, às grandes lutas e à guerra, clamado nos momentos mais difíceis por aquelas e aqueles que reconhecem e rogam por sua proteção.
Gostaria de aqui chamar a atenção e apontar essa devoção, em que “São Jorge vira Ogum e Ogum vira São Jorge”, como uma das múltiplas práticas das resistência e sobrevivência cotidianas dos grupos religiosos de matrizes africanas que viviam, sob a marginalidade social, cultural e espiritual imposta pela intolerância religiosa e pelo racismo à brasileira.
Cá do meu canto, busco compreender as relações e manifestações de fé e devoção que “unem” os fiéis e devotos de São Jorge e Ogum, no dia 23 de abril, como um ponto de resistência ou como bem pontua James C. Scott “um discurso oculto”, em que é possível aos marginalizados cultuar e manter os seus códigos de crenças através de uma ação simbólica em que é possível rezar para São Jorge e rogar a Ogum.
Seja representado o sagrado chamado e/ou identificado como santo ou orixá, nomeado de São Jorge ou Ogum, fato é que boa parte das pessoas que tem fé e respeito nas representações sagradas ligadas à cultura cristã e de matrizes africanas. Essas pessoas vão se apegar à crença e pedir proteção em momentos difíceis pois acreditam na força de suas devoções.
Assim, podemos concluir que rezar para São Jorge e/ou pedir proteção a Ogum é uma das múltiplas coexistências das devoções religiosas brasileiras. No dia 23 de abril , dia do santo e do orixá guerreiro, vamos pedir, rezar, rogar, voltando os nossos olhos para o fortalecimento da tolerância religiosa na nossa sociedade.
Ògún ye pàtak’orí