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Eliana Alves Cruz

Eliana Alves Cruz é carioca, escritora, roteirista e jornalista. Foi a ganhadora do Prêmio Jabuti 2022 na categoria Contos, pelo livro “A vestida”. É autora dos também premiados romances Água de barrela, O crime do cais do Valongo; Nada digo de ti, que em ti não veja; e Solitária. Tem ainda dois livros infantis e está em cerca de 20 antologias. Foi colunista do The Intercept Brasil, UOL e atuou como chefe de imprensa da Confederação Brasileira de Natação.

Sem inocente sob o sol quente

Operação Verão: Crianças e adolescentes podem ser apreendidos mesmo sem flagrante
5 de janeiro de 2024
Blitz policial militar revista ônibus com destino às praias.

Blitz policial militar revista ônibus com destino às praias.

— Meu filho, vai à praia?
— Vou. Tá muito calor…
— Não tira a camisa até pisar na areia. Não esquece os documentos. Não corre. Vai de tênis. Já falei do documento? Tá com dinheiro? Já falei pra não correr? Cuidado com grupos grandes. Vai à praia aonde? Quem vai com você? Teu irmão, tua irmã, a vizinha? O RG tá aonde, deixa eu ver. Filho… por favor, por mim, não vá à praia…

Este texto é para você, que algum dia se viu fazendo uma fala semelhante a esta com seu filho, pois só você sabe que não são inocentes. Não adianta relutar, você sabe que é assim que te enxergam. Vocês são monitorados nas lojas, nos shoppings, nos transportes, nos terminais rodoviários. Vocês, antes de cidadãos, são culpados. Mesmo calados, incomodam…e muito! Vocês são culpados à priori.

Senhoras vão se abraçar à bolsa quando vocês passarem, vão mudar de assento no metrô, vão desviar o caminho e mudar de calçada. A polícia vai abordá-los e é bom que esteja preparado ou…

…Ou tem tudo para ser apreendido. Sempre pode, mas agora pode mais, visto que até o chefe do Ministério Público da cidade concorda que presunção de inocência não existe. O que vale é a tua cara avaliada por quem pouco ou quase nada vigia e muito pune. Crianças e adolescentes desacompanhados podem ser apreendidos nas praias da cidade do Rio de Janeiro, mesmo sem crimes em flagrante.

“… eventuais abusos cometidos na apreensão ou no acolhimento serão objeto de tratamento pelo juiz e pelo MP e blá, blá, blá.”, disse a autoridade. Até que resolvam analisar os “eventuais abusos” teu filho já estará detido, encaminhado a algum abrigo pelo supremo crime de ter ido à praia. Já estará marcado pelo sentimento de não ser, já estará com essa experiência macabra no corpo, na retina, na alma… Apenas por ousar querer escapar do bafo incandescente causado pela ausência de árvores, dos centros de lazer, de sombra e água fresca no bairro onde mora. Apenas por pisar naquela areia branca, que brancos acreditam ser deles por direito e IPTU alto; que gringos se apossam desfrutando da exótica e exuberante “paisagem dos trópicos” gastando em dólar.

Mas e os arrastões? E os celulares roubados? E os senhores e senhoras espancados? Óbvio que você, pai ou mãe, que fez um discurso enquanto seu filho se aprontava para dar um singelo mergulho, sabe que a violência urbana existe e que é absurda. Óbvio que você sabe que algo precisa ser feito, mas você desconfia (ou tem certeza) que não querem fazer o trabalho difícil e necessário que você paga ano após ano com seus suados impostos, para solucionar algo sistêmico e reincidente, mas que se acentua a cada novo verão.

Em algum momento você pensará que uma sociedade em que ir à praia em um dia de calor torna-se quase um ato de coragem, de rebeldia, está muito doente, mas também sabe que aqui é mais fácil engaiolar todo mundo primeiro, para ver se existe culpa depois. Opa! Todo mundo não. Todo mundo é muita gente.

O papo é contigo… e com o teu filho pardo ou preto saído de algum subúrbio, alguma periferia ou não. Basta que um dedo sedento de vingança pelo celular perdido te aponte ou nem isso. Basta ter a “cara certa” para o “procedimento padrão” errado.

James Baldwin, um dos escritores e intelectuais negros norte-americanos mais brilhantes e disruptivos de todos os tempos, dizia que “ser negro e relativamente consciente é estar quase sempre com raiva”.

A cidade não é tua. Você não é bem-vindo nela e sabe disso. Muito menos o teu garoto, o teu rapaz. E com raiva ou não você quase implora:

“Não, meu filho, não vá à praia”.

E este ano tem eleição.

 

 

 

 

 

 

 

 

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