Existe uma coisa profundamente perturbadora acontecendo no Brasil – e talvez a gente ainda não tenha entendido a gravidade dela: a crueldade virou carisma por aqui.
Gente agressiva virou “autêntica”. Gente violenta virou “sincera”. Gente que humilha virou “sem filtro”, e pouco a pouco fomos aceitando que o debate público brasileiro se transformasse numa competição de brutalidade, perceberam?
Hoje, homens dizem absurdos sobre mulheres em podcasts e são tratados apenas como “polêmicos”. Influenciadores espalham desinformação sobre feminicídio, aborto, violência doméstica ou educação sexual e ganham seguidores. Parlamentares transformam preconceito em corte viral, lacração. Quanto maior o absurdo, maior o engajamento.
A lógica das redes criou um monstro: o algoritmo recompensa quem choca, humilha, agride e mente. E o pior é notar que já estamos anestesiados, porque houve um tempo em que certas falas causariam revolta coletiva. Hoje viram entretenimento. Meme. Trend. React.
E não é só sobre política. É sobre cultura.
Existe uma geração inteira sendo educada emocionalmente por vídeos de 30 segundos que ensinam que empatia é fraqueza, que direitos humanos são “mimimi”, que feminismo é ameaça, que trabalhar até adoecer é virtude e que pedir respeito é censura. E talvez o mais perigoso seja justamente a transformação da violência em identidade.
O cara não quer mais apenas dar opinião. Ele quer performar brutalidade. Quer parecer duro, implacável, “raiz”. A agressividade virou estética. A ignorância, linguagem de pertencimento. Enquanto isso, quem tenta argumentar parece sempre cansado. Explicar exige tempo. Mentir exige apenas um corte bem editado.
E o recorte evidente nisso é o fato de que mulheres continuam sendo o alvo preferencial dessa cultura da brutalidade. Basta observar como debates sobre violência contra a mulher são conduzidos no Brasil. Sempre aparece alguém tentando relativizar feminicídio. Alguém dizendo que “os dois lados erraram”. Alguém transformando agressão em guerra cultural. E isso está no Congresso, nos podcasts e também nos comentários de posts aleatórios, é viral!
É assistir declarações violentas em horário nobre e perceber que parte do público reage com risada. É ver fake news grotescas sobre educação sexual circulando livremente enquanto especialistas precisam gastar energia desmentindo delírios. É perceber que homens falando barbaridades sobre mulheres frequentemente recebem mais espaço do que mulheres falando sobre a própria realidade.
Transformaram crueldade em produto. E produtos precisam de audiência. Por isso o debate público parece cada vez mais um ringue. Não importa quem tem razão. Importa quem viraliza. Quem lacra. Quem destrói o outro com mais eficiência diante das câmeras, por favor. A política virou entretenimento agressivo e o Congresso Nacional é maior evidência disso.
Nós estamos perdendo a capacidade de nos horrorizar.
Talvez esse seja o verdadeiro perigo do nosso tempo: não a existência da violência, mas o fato de ela ter deixado de constranger, de indignar. Porque sociedades começam a adoecer quando deixam de reconhecer as próprias brutalidades. E o Brasil está há tempo demais aplaudindo gente cruel como se coragem e violência fossem a mesma coisa.