Trump ajudou Flávio a fugir, mas não banca plano golpista

Jornais americanos dão detalhes sobre como a operação foi planejada de dentro da Casa Branca; equipe de Trump rejeita reconhecer Flávio como "verdadeiro presidente eleito"
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O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump e seus conselheiros na Casa Branca ajudaram o senador Flávio Bolsonaro (PL) a fugir, inclusive com a organização do jato que transportou o candidato derrotado na eleição. As informações estão sendo reveladas pelos jornais americanos Wall Street Journal e New York Times, que indicam que a operação foi orquestrada por Jason Miller, assessor de Trump e amigo da família Bolsonaro.

Por enquanto, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva não vai se pronunciar. O Palácio do Planalto acredita que o prejuízo da fuga tem sido maior para o senador que ao presidente. Além disso, o governo brasileiro ainda insiste que não precisa do aval do governo americano como atestado da eleição.

Para o governo do Brasil, mesmo a criação de um espaço político – o Escudo das Américas – não conseguiu evitar que dezenas de países reconhecessem a vitória de Lula, entre eles El Salvador de Nayib Bukele. Lula, portanto, vê sua reeleição como uma derrota para Trump e um potencial momento de redefinição das relações.

Mas a revelação dos jornais americanos é de que teria sido Miller quem teria organizado o voo que saiu da Argentina, fez escala no Equador, evitou sobrevoar o território brasileiro e, ontem, pousou em Miami. O conselheiro é o mesmo que passou meses atacando o STF, o presidente Lula e insistindo em apostar numa vitória de Flávio Bolsonaro. Foi ele ainda quem articulou a visita do senador à Casa Branca, no auge da crise de Flávio com Daniel Vorcaro.

Com a operação de fuga em andamento, Trump aprovou a concessão de vistos humanitários para o brasileiro, apesar de fechar as portas para cerca de 500 mil estrangeiros que tinham feito o mesmo apelo nos últimos meses, na esperança de fugir da guerra, fome e morte.

De acordo com a imprensa americana, Flávio Bolsonaro apresentou um passaporte diplomático vencido. O governo norte-americano optou por dar um passe para permitir a entrada do senador que, agora, pedirá um visto de residente.

Carta golpista é censurada

Apesar disso, os primeiros sinais apontam que há uma hesitação por parte do governo Trump em acolher a reivindicação de Flávio Bolsonaro de que seria o presidente eleito. O Departamento de Estado se recusou a chancelar a carta publicada na quarta-feira pelo senador que, em sua primeira versão, falava que ele seria o “verdadeiro presidente eleito”. O termo foi trocado à pedido de Washington. Mas nem assim a Casa Branca bancou o pleito do brasileiro.

O Brasil, agora, busca entender como Trump vai agir e acredita que o americano esteja, neste momento “rebolando” e “redefinindo sua estratégia” diante da derrota de seu candidato na eleição brasileira.

Trump repetiu em quatro ocasiões que a eleição foi “estranha”, sugerindo uma fraude. Mas não cruzou a linha crítica de dizer que Lula não seria o presidente eleito.

Para o governo, há uma percepção de que Washington sabe que Flávio perdeu poder no Brasil e que, portanto, não é interlocutor.

Vitória da diplomacia

O constrangimento de Trump diante do resultado da eleição foi comemorado pelos operadores da política externa brasileira. A constatação é de que, ao blindar o processo democrático e vencer a eleição, até mesmo a maior potência militar do mundo teve de passar por uma reavaliação de sua estratégia.

A escolha de receber Flávio, portanto, não seria o equivalente a deslegitimar o pleito, pelo menos até agora.

O governo vê a hesitação dos EUA como resultado de uma operação por parte da política externa de Lula de conseguir um amplo reconhecimento internacional da eleição, inclusive de aliados de extrema direita de Flávio Bolsonaro.

Outro fator seria a situação delicada que Trump vive nos EUA com as eleições legislativas na semana que vem. Para o governo brasileiro, um derrota do republicano permitirá uma nova correlação de forças entre Trump e Lula, que passaria a ter os democratas como aliados

Um elemento que ainda pesa é a constatação de que a Casa Branca apostou por um candidato que saiu derrotado nas urnas.

Uma prova dessa situação incômoda seria as frases ambíguas por parte de Trump. Nesta quinta-feira, perguntado se ele iria falar com Lula para parabeniza-lo, Trump respondeu: “Eu falarei com ele. Mas acho que a eleição foi uma vergonha para o Brasil”.

Questionado sobre quem seria o presidente legitimo, ele insistiu: “não quero comentar sobre isso agora, mas acho que foi um constrangimento para os brasileiros. Eu não tomei lado, deixei ela ocorrer. O atual presidente pediu para eu não tomar partido. Mas quando assisti, foi uma vergonha. Olha o que ocorreu com o mercado”.

Embaixador será autorizado?

Até o momento, o governo brasileiro não vê motivos para responder às críticas de Trump. Mas, dentro do Palácio do Planalto, há quem defenda que a aprovação do novo embaixador dos EUA em Brasília, Daniel Perez, seja suspensa, caso o tom do republicano se intensifique contra as instituições nacionais.

Por enquanto, o Brasil aposta em uma relação pragmática com Trump, isolando o caso da família Bolsonaro.

O governo Lula está certo de que houve uma ação dos argentinos e americanos. Mas calcula que, pelo menos neste estágio, qualquer ação de retaliação não teria um impacto positivo.

Retorno de embaixador para Buenos Aires: descartado

Não se descarta ainda convocar o diplomata argentino em Brasília para pedir esclarecimentos diante do papel de Buenos Aires na fuga. Hoje, de todas as formas, a volta de um embaixador brasileiro para a capital argentina está “completamente descartada”.

 

 

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