ouça este conteúdo
|
readme
|
Por João Cezar de Castro Rocha
Em 2021 tive a fortuna de tornar-me Xioaxiang Scholar do Estado de Hunan, na China, e da Universidade Normal de Hunan (UNNH) e do Centro Interdisciplinar Alexander von Humboldt. Como parte de minhas obrigações, passei dois meses em Changsha, cidade-sede da UNNH, desenvolvendo pesquisas, a fim de estabelecer um convênio com a Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), colaborando na criação do Departamento de Português e ensinando cursos de literatura brasileira, cultura latino-americana e literatura comparada.
A experiência foi uma fascinante via de mão dupla, dando corpo à intuição certeira do sábio Riobaldo: “Mestre não é quem sempre ensina, mas quem de repente aprende”. Por isso, durante a preparação dos cursos uma pergunta me inquietava: como reagirão os estudantes chineses à literatura brasileira? Eis uma dessas questões que levam longe e se desdobram em novas perguntas: o que eu aprenderei com suas dúvidas?
O entusiasmo dos estudantes de português e de espanhol foi contagiante! Ao entrar em sala, em cada um dos quatro encontros que mantive com as turmas, a primeira grande surpresa: era aplaudido pelos estudantes. Contudo, deixo o ego de lado: o protocolo era óbvio; aplaudia-se nem tanto um professor em particular quanto se reconhecia a centralidade do magistério na formação de um país. Nesse sentido, a colaboração com a professora Zhang Ying foi fundamental, pois sua participação durante o curso criou pontes indispensáveis de diálogo.
O interesse dos estudantes nas aulas me pareceu diretamente proporcional à diferença radical entre os idiomas – mandarim, português e espanhol – e as culturas – propriamente continentais, e que contam ainda com marcadas diferenças internas. Por assim dizer, continentes-arquipélagos.
Por exemplo, é um autêntico desafio para uma aluna chinesa pronunciar o ditongo nasal “ão” em português, que se transforma num desafio mais temível que o enigma da Esfinge derrotada por Édipo. Nada mais saboroso do que escutar as variações infinitas do nome próprio mais comum da língua: João, subitamente, parece a palavra mágica que abre todas as portas.
De igual modo, um abismo cultural se descortinou em cada encontro. Não me esquecerei da perplexidade expressa no olhar dos estudantes: o Brasil é independente “só” há dois séculos? Ontem, portanto! O poema que ajudou a definir a nacionalidade tem como título um paradoxo? “Canção do exílio”? Ênfase especial na pronúncia de exílio? – e não se esqueça do significativo ponto de interrogação. No final do encontro, gravei um vídeo despretensioso, mais para registrar meu encantamento com a intensa participação dos estudantes.
Aqui, o inesperado trouxe mesmo uma surpresa: o ministro da Justiça, Flávio Dino, maranhense como o poeta Gonçalves Dias, cujo aniversário de 200 anos de nascimento se celebra justamente em 2023, divulgou o vídeo, gerando grande repercussão.
O último encontro com essa turma propiciou outro momento inesquecível. Conversamos sobre um poema de Conceição Evaristo, “Vozes-mulheres”, cujos versos condensam a história das mulheres negras, num arco temporal que abrange da diáspora africana à afirmação da própria voz numa sociedade hostil.
Na véspera da aula me perguntava como faria para apresentar o conceito-chave da obra de Conceição Evaristo: escrevivência. Ora, mas a dúvida era tola! Como sempre, a resposta já se encontrava na literatura, pois o poema dá corpo ao conceito. Escrevivência nem de longe se confunde com autoficção; pelo contrário, na palavra de Evaristo, o eu não se basta narcisicamente a si mesmo, antes nele confluem inúmeras experiências prévias e a projeção de um futuro enquanto possibilidades ainda não vividas. O eu lírico da escrevivência também é muitos outros; aqui, lidamos com um eu-nós-outros. Numa palavra: um Eu-Ubuntu.
Pronto!
Ler o poema com os estudantes – palavra a palavra, verso a verso, respiração a respiração. Principiar pela voz sequestrada da bisavó na travessia dantesca nos tombadilhos do Atlântico Negro, nos porões do navio – reunindo Castro Alves e Paul Gilroy. Escutar a voz silenciada da avó escravizada no Brasil oitocentista dos brancos-donos de tudo – tema que também se encontra presente no excepcional e caleidoscópico Um defeito de cor, de Ana Maria Gonçalves. Dar vez à voz nunca ouvida da mãe, doméstica na casa grande urbana dos sinhôs e das sinhás do século XX, drama exposto com vigor em Solitária, de Eliana Alves Cruz, no fundo das cozinhas alheias. Chegar à filha-poeta, escrevivente, modo superior de sobrevivência, que forja a forma dessas “vozes-mulheres”; forma ainda marcada com rimas de sangue e fome. Vozes que se reúnem e projetam na utopia-filha, dona da liberdade de ser o que se deseja: finalmente, a vida-liberdade.
Brilho no olhar dos estudantes. Uma aluna, Laura – os estudantes chineses têm a delicadeza de adotar nomes ocidentais para facilitar o diálogo conosco – traduziu o conceito, isto é, internalizou a escrevivência.
Hora de voltar ao Brasil, mas não sem antes tornar voz coral o conceito de Conceição Evaristo. Em princípio, distante, chinesa, mas, ao mesmo tempo, próxima, profundamente literária.
Recordam o que propus no princípio desta crônica? O vivo interesse dos estudantes chineses pela literatura brasileira muito provavelmente é estimulado pela radical diferença tanto linguística quanto cultural.
Lição (decisiva) das coisas: o outro, precisamente por sua diversidade, enriquece minha vida, amplia meu horizonte, abre meus olhos e ouvidos.
O sambista já havia tudo dito: “E vida melhor não há…”.
**
Você se pergunta: o que eu aprendi com os estudantes chineses? Muito; mas aí já seria uma segunda crônica.
Relacionados
Em resposta a Trump, China, Japão e Coreia do Sul aceleram acordo de livre comércio
Três das maiores economias da Ásia preparam acordo trilateral para as 'tarifas recíprocas' dos EUA
MST planeja instalar fábrica de fertilizante orgânico em parceria com a China no RS
Anúncio foi feito por João Pedro Stedile durante a 22ª Festa da Colheita do Arroz Agroecológico
Musk pode ter acesso a plano ultrassecreto dos EUA sobre guerra com China, diz jornal
O bilionário e assessor especial de Donald Trump visita o Pentágono nesta sexta-feira (21)