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Eliana Alves Cruz

Eliana Alves Cruz é carioca, escritora, roteirista e jornalista. Foi a ganhadora do Prêmio Jabuti 2022 na categoria Contos, pelo livro “A vestida”. É autora dos também premiados romances Água de barrela, O crime do cais do Valongo; Nada digo de ti, que em ti não veja; e Solitária. Tem ainda dois livros infantis e está em cerca de 20 antologias. Foi colunista do The Intercept Brasil, UOL e atuou como chefe de imprensa da Confederação Brasileira de Natação.

Uma vontade de aço

Contra a sobrevida do dia que antecedeu uma abolição inacabada e preguiçosa.
11 de janeiro de 2024

 

Abdias Nascimento no Congresso Nacional — 1982

O ano começou e duas notícias veiculadas se conectam e se repelem ao mesmo tempo. A primeira, que o número de denúncias de trabalhos análogos à escravidão explodiu no Brasil em 2023. A segunda, que Abdias do Nascimento foi incluído no Livro de Aço, o livro de heróis e heroínas da pátria. Se estivesse entre nós, Abdias estaria brigando feroz, usando sua voz potente e incansável para gritar aos quatro ventos contra a sobrevida, em pleno século 21, do dia 12 de maio de 1888, aquele que antecede uma abolição inacabada e preguiçosa.

Considerando que este ano se completam 200 anos da criação do senado na Constituição outorgada por Dom Pedro I e daqui a 2 anos, em 2026, completam-se também 2 séculos da primeira sessão, o próprio site da instituição traz na primeira frase da notícia da inclusão do nome de Abdias no livro uma informação curiosa e estarrecedora: “(…) primeiro senador autodeclarado negro”. E Abdias foi senador da república 158 anos após a criação do senado, no avançado ano de 1982.

Este fato, por si só, explicaria porque ainda não conseguimos erradicar a saudade que setores da elite nacional sentem dos tempos em que explorar o trabalho alheio era lei e um orgulho nacional. Uma saudade tão forte que os fazem trabalhar para que este passado siga muito presente.

Segundo o Ministério do Trabalho e Emprego, um total de 3.190 trabalhadores foram resgatados de situação análoga à escravidão no ano que acabou de acabar. Um número indecente para qualquer nação, quanto mais para uma que se fez em cima de sequestro, tortura e outras violências para cortar sua cana, colher seu milho, seu algodão, plantar e debulhar seu café, costurar, passar, lavar, cozinhar, erguer, servir, servir e servir.

O agora herói da pátria Abdias é um fruto da reação a tudo isso e mergulhou fundo. Ele foi poeta, dramaturgo, ator, artista visual, um dos fundadores do Movimento Negro Unificado, do Teatro Experimental do Negro, exilado político no regime militar, criador do quilombismo, professor em universidades no exterior como Yale, ativista panafricanista e intelectual brasileiro essencial do século 20. Abdias não está mais entre nós, mas se faz presente todo o tempo.

Em 2023 foi publicado Submundo, seu livro inédito e um documento histórico inestimável, onde ele retrata o cárcere nos anos de 1940, período em que foi detento no famoso presídio do Carandiru. Oficialmente por infração administrativa durante o serviço militar, mas com todos os sinais de perseguição política em função de sua atuação que se destacava em movimentos negros. Ali ele já enxergava o encarceramento em massa e as mazelas que explodem hoje, na terceira década do século 21.

O que diria ele sobre o fato de, depois de tanta luta, ainda existirem senzalas entocadas nos campos e cidades brasileiras? Talvez dissesse, avancem! Não existe direito que não precise ser mantido com vigilância e luta, que não precise ser defendido com uma vontade de material tal qual o do livro em que está agora o seu nome: de aço.

Com Abdias tenho algumas histórias bonitas que aconteceram com meu pai, Eloá Cruz, que teve a honra de conhecê-lo um pouco. Uma delas diz que estavam a caminho do lançamento do livro Quilombismo, do Abdias, quando avistaram um arco-íris. Ele, olhando para o horizonte, disse: Oxumaré veio. Vai dar tudo certo”.

Que em 2024, apesar de tanto caminho ainda a percorrer, consigamos enxergar este arco-íris de esperança.

 

 

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