Verás que o filho teu não foge à luta?

O que significa o amor ao país em 2025.
ouça este conteúdo
00:00 / 00:00
1x

 

O Brasil (como quase todo mundo sabe) é um país em crise com a sua identidade, com sua estima e com a sua história. A guerra por quais versões dos fatos do passado e do presente sairão vencedoras está sempre em curso e o resultado (como quase todo mundo percebe) está longe de ser conhecido.

Agora acontece um novo “round” nesta briga. Round não, assalto, volta, vez, fase… afinal, embora uma parcela acredite que não, nosso Brasil ainda se escreve com o mesmo “s” da palavra soberania.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, assim de maneira meio displicente como quem parece ter interrompido uma de suas cada vez mais frequentes (como podemos ver por sua aparência) sessões de bronzeamento artificial, anunciou que decidiu impor 50 por cento de taxa aos produtos brasileiros. Fez pela rede social mesmo. Quem precisa de departamentos de Estado, comunicações oficiais, etc?

Alegou estar em choque com a situação do amigo Bolsonaro e, em solidariedade a esta amizade sincera (por favor, contém ironia!), parece estar sequestrando a nação do coleguinha em troca da extinção dos processos que pesam sobre ele, o mentor de nada menos do que um golpe de estado. Coincidentemente (mais uma vez, ironia), ele digitou toda essa bronca em seu celular último tipo com peças fabricadas na China, enquanto os BRICS se reuniam no Rio de Janeiro.

Como dinheiro não aceita desaforo, o agro, a indústria, todos os setores que perderão receitas bilionárias, enfim, se uniram ao governo federal para, vejam só como o mundo gira?  Rechaçar a intromissão norte americana no judiciário brasileiro, como se esta supervalorização e dependência dos Estados Unidos não fosse das coisas mais perversamente cafonas, incentivadas, fomentadas e cultivadas por expoentes destes mesmos setores. O agro é “pop”, não é mesmo?

Patriotismo, esta palavra que soa anacrônica, cheia de mofo e um tanto limitadora, é sempre evocada quando interessa a esse mesmo dinheiro que não tolera afronta, mas jamais é mencionada quando precisa elevar as pessoas que deveriam amar a nação onde nasceram porque possuem políticas públicas de saúde, educação, cultura, habitação… No entanto, nada disso é encarado como estima ao país, tudo o que não diga respeito ao nervoso mercado é visto como atraso e gasto, nunca como investimento.

Então, agora que a economia precisa que este sentimento se apresente como brio de quem tem orgulho a ponto de brigar pela soberania, frente às ameaças de um grupo que não hesita em vender seu povo em benefício próprio, o amor à nação é trazido não como bravata de quem se enrola em uma bandeira e sai pela rua marchando a esmo ou pendura na janela de casa como sinal vazio, mas como fator de união.

Quando um povo está dividido, nada melhor que um inimigo externo comum para unificar. Nunca falhou na história da humanidade e pelo visto não será agora que falhará. Curioso e irônico é que este “elemento estranho a ser batido” seja um personagem como Donald Trump, unido a família Bolsonaro e seus colaterais, que prosperaram por décadas manipulando em multidões o conceito e o sentimento de amor à pátria.

Políticos que não fogem à luta porque nunca estiveram nela. Não fazem a menor ideia do que seja trabalhar de sol a sol em uma nação que lhes retira o máximo de direitos, que não lhes dá a chance de repousar mais do que quatro dias por mês e que tem congressistas prontos para corroer tudo o que de alguma maneira possa trazer alguma benesse, descanso e prazer aos cidadãos e cidadãs do país que dizem amar da boca para fora, enquanto engordam ainda mais os que nunca foram e nunca irão à luta nenhuma.

O que diferencia um país do outro não é apenas sua geografia ou fenótipos físicos, mas principalmente sua cultura. Comida, religiões, arte, idioma, hábitos, festas… a vida, enfim, criada por seus habitantes. Não há amor a nação alguma se não há respeito por quem nela vive.

Vês, pátria? O filho teu, Eduardo Bolsonaro, não foi à luta. Foi brincar na Disney de arruinar com a economia nacional.

E por aqui ficamos com Cetano Veloso e seu verso na música “Língua”: “Eu não tenho pátria. Tenho mátria e quero frátria”. Ainda está longe, mas quem sabe um dia acontece.

 

Carregar Comentários
Assine nossa newsletter
Receba nossos informativos diretamente em seu e-mail