Natal chegando e a maioria de nós está planejando celebrações em família. Independente das religiões, esta é uma festa entranhada na cultura brasileira. Uma das duas que dão o ponto final ao ano e dizem que é hora de rever o período que passou, recalcular rotas, fazer novos planos e alimentar (em parte literalmente) os afetos.
Considerando sua origem na cristandade, impossível não pensar na história das pessoas contadas por todos os presépios do planeta ao longo de dois milênios: Maria, José e Menino Jesus. Esse trio palestino perseguido, em insegurança habitacional e alimentar, em perigo e em constante deslocamento. Uma família que em um momento de muito medo achou abrigo em outro país.
Ainda bem este país não era uma versão ancestral de Brasil.
ENCERRAMENTO
Uma notícia do último dia 17 do portal Repórter Brasil, em matéria de Carlos Juliano Barros e Leonardo Sakamoto, nos conta que a prefeitura da cidade de São Paulo, a maior e mais rica da América Latina, vai transferir 157 homens, mulheres, idosos, crianças … para um espaço destinado a pessoas em situação de rua, pois estes será fechado o abrigo para estrangeiros Caef Ebenezer (Centro de Acolhida Especial para Famílias), na Zona Leste da capital paulista, que oferece desde setembro de 2022 uma série de serviços a recém-chegados ao país.
O local, tido como referência pelas Organizações das Nações Unidas (ONU) em atendimento especializado para refugiados, foi pioneiro na recepção de afegãos, mas hoje conta com cidadãos de diversas nações. Os Altos Comissariados da ONU de Refugiados e o de Direitos Humanos apoiam o centro, mas a gestão de Ricardo Nunes (MDB) teria comunicado a decisão de fechar o abrigo apenas à empresa de hotelaria responsável pela gestão da estrutura do espaço, e não estaria atendendo aos pedidos de esclarecimento feitos pela entidade.
UMA REALIDADE
Ainda não caiu a ficha na sociedade brasileira de que este também é um país de imigrantes, de estrangeiros. Não apenas do passado de colonizadores invasores, de população negra trazia à força ou de europeus vindos atraídos pelo projeto de substituir a mão de obra escravizada e embranquecer o país. O Brasil é imigrante aqui e agora.
Segundo o Censo, a pesquisa destaca que, entre os anos de 2010 e 2022, houve um grande crescimento dos residentes naturais de países estrangeiros no país. O total de imigrantes passou de 592 mil para 1 milhão de pessoas, número que representa 70,3% de aumento durante o período. Esse é o maior número total desde 1980, quando o Censo registrou 1,1 milhão de estrangeiros. Em 2025, a Polícia Federal informa que o país conta com mais de dois milhões de estrangeiros legalizados.
Em São Paulo, a entidade que corre o risco de ser fechada afirma que migrantes têm necessidades específicas e teme que a mudança provoque episódios de estranhamento e violência.
REORDENAMENTO
No outro lado, a Prefeitura informou que “todas as pessoas atendidas hoje no CAEF Ebenezer seguirão sendo acolhidas na rede socioassistencial da cidade de São Paulo. Elas serão atendidas em Vilas Reencontro e centros de acolhimento, de acordo com o perfil de cada uma”.
De acordo com o posicionamento, “em ambos os serviços são oferecidos acompanhamento e ações de fortalecimento à reinserção social”. Ainda segundo a Prefeitura, “a descontinuidade das atividades no CAEF Ebenezer faz parte de um processo amplo de reordenamento da rede de acolhimento”.
Por fim, a nota afirma que “todo processo de transferência é precedido de planejamento, respeitando os perfis atendidos e assegurando a continuidade do acompanhamento social e saúde”
XENOFOBIA
Na história do Brasil, quase todas as vezes em que uma prefeitura usou as palavras “revitalizar”, “reordenar”, “remodelar”… para as populações mais vulneráveis isso significou violência, desenraizamento, expulsão, deslocamento forçado, exclusão, esquecimento. Nada na São Paulo atual faz crer que será diferente. A ver.
Sobre a imigração, o que sabemos é que apesar da imagem cordial que o Brasil exala, a xenofobia por aqui é uma realidade brutal. Dados do Observatório Nacional dos Direitos Humanos (Observa DH) apontam um aumento de 874% nas denúncias no Brasil entre 2021 e 2022, e de 252,25% de 2022 a 2023.
Em entrevista para o portal alemão D.W, a coordenadora do Observatório das Migrações da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Glaucia Assis, fez uma afirmação triste.
— No Brasil, a cordialidade brasileira é destinada aos imigrantes brancos. Para os outros grupos há esse sentimento de xenofobia misturada ao racismo, um “xenorracismo”. É como se existissem ainda imigrantes preferenciais.
IMAGINÁRIOS
O imaginário europeu desenhou a sagrada família totalmente branca e o impôs ao mundo. No entanto (assim dizem os evangelhos), eles esconderam-se no Egito, país que está localizado na África e, como tal, não é e nunca foi branco europeu. Quanto mais há dois mil anos.
Considerando este fato comprovado cientificamente pelo físico, historiador, egiptólogo e antropólogo senegalês, Cheik Anta Diop, supondo que as histórias contadas sobre Jesus e sua família sejam reais, fica muito difícil considerar um casal e seu filho brancos fugindo de um ditador psicopata em meio a pessoas completamente diferentes deles.
Supondo tudo isso, no Egito dos tempos de Herodes, uma família não branca acolheu outra e, caso guardassem qualquer semelhança com o Brasil atual e seu “xenorracismo”, não teríamos natal nenhum para celebrar.