Por Hédio Silva Jr*
No julgamento da ADPF 186 sobre cotas no acesso ao ensino superior, ocorrido em abril de 2012, assim se manifestou o Supremo Tribunal Federal: “VI – Justiça social, hoje, mais do que simplesmente redistribuir riquezas criadas pelo esforço coletivo, significa distinguir, reconhecer e incorporar à sociedade mais ampla valores culturais diversificados, muitas vezes considerados inferiores àqueles reputados dominantes.”
Décadas antes desse julgado e da própria Constituição de 1988, no entanto, o povo de terreiro já exibia a pujança, vitalidade e poder transformador da cultura afro-brasileira ao instituir e consolidar duas vitórias simbólicas associadas ao réveillon: vestir branco e reverenciar Iemanjá.
O rito entrou para a cultura nacional nos anos 60 por iniciativa de um audacioso feiticeiro negro, dirigente umbandista, Tata Tancredo, que escolheu cuidadosamente a praia de Copacabana para realizar oferendas para Iemanjá na passagem do ano.
Turistas brasileiros torciam o nariz, mas os estrangeiros perceberam a riqueza daquela movimentação que tomava conta das areias de Copacabana, o que acabou por atrair o interesse do setor hoteleiro.
Vale lembrar que o vestuário branco vem do período colonial, das plantações de algodão utilizado nos uniformes dos escravizados e na fabricação de sacarias.
Não por acaso o abadá, da capoeira, tem no branco sua cor básica; a indumentária dos Filhos de Gandhy, a cor da roupa utilizada pelas jornalistas Flávia Oliveira, Andréia Sadi, Aline Midlej e milhões de brasileiras(os) que, nas sextas-feiras, rendem homenagem à Oxalá, orixá da criação.
No país em que durante o ano inteiro tantos indivíduos e facções perseguem, ultrajam e agridem as religiões afro, todos ou quase todos, no Réveillon, se rendem aos encantos da Rainha do Mar.
Esta é mais uma demonstração de que definitivamente somos um país africanizado. Mas é também uma prova de que as religiões afro convivem harmoniosamente com outras religiões; afinal, a passagem de ano celebrada em 31 de dezembro tem origem no calendário gregoriano, cristão.
China, Israel e Índia, entre outros países, festejam o ano novo em outras datas que não o 31 de dezembro. Há o ano novo judaico, o Rosh Hashaná, que este ano foi celebrado no dia 25 de setembro, celebrando o ano hebraico 5.786. Do mesmo modo, os muçulmanos comemoram o ano novo de acordo com o calendário islâmico.
Há um segmento importante das próprias religiões afro-brasileiras que segue o calendário yorubá, cujo marco inicial tem a ver com a existência do ancestral Oduduwa.
Mas o fato é que a ampla maioria das(os) adeptas(os) das religiões afro-brasileiras comemora o ano novo em 31 de dezembro e inclusive muitos festejam também o Natal, como resultado do sincretismo entre umbanda e cristianismo, por exemplo.
Como diz Chico Buarque, “A história é um carro alegre, cheio de um povo contente, que atropela indiferente, todo aquele que a negue”
Não adianta negar, sua Excelência, o fato: a despeito da perseguição estatal, das leis penais, das delegacias de costumes, do crime de curandeirismo e do ódio religioso, o povo de terreiro está aí. De pé, altivo, resiliente, acolhedor e no caminho de fazer deste país uma grande nação livre, justa e inclusiva.
O algodão rústico que vestia a senzala hoje desfila nas grifes de luxo, africanizando o Brasil!!!
Há mais: passadas as festas de ano novo, muita gente corre rapidamente para um spa, para tentar perder os quilinhos ganhos com a comilança própria desta época do ano.
Com funcionam os spas? Além da dieta e da atividade física, invariavelmente os spas são construídos em áreas rurais, locais em que se pode encontrar facilmente água (lagos, rios, cachoeiras), matas, estradas de terra.
Há um conceito importantíssimo em qualquer spa: o indivíduo deve ter contato com a terra, com a água, com a natureza enfim, visando fortalecer sua “mente”.
Mas não seria esse um dogma caríssimo para as religiões afro-brasileiras, isto é, o dogma de que o indivíduo deve estar em sintonia com as forças da natureza e apoiar-se nelas para enlevar seu espírito? Para encontrar a paz, a felicidade, a realização pessoal?
Transformando uma festa ruidosa como o Réveillon ou influenciando silenciosamente a medicina, como no conceito empregado pelos spas, constatamos a força e o poder do axé, dos orixás.
Axé para todas as pessoas em 2026 e sempre!
*Advogado, mestre e doutor em Direito pela PUC-SP, fundador do Jusracial e do Idafro – @drhediosilva