Nos últimos anos, uma frase passou a circular com frequência nas redes sociais, em vídeos curtos, manchetes sensacionalistas e discursos políticos: “lula quer suspender redes sociais”.
A afirmação, repetida fora de contexto, costuma vir acompanhada de alertas alarmistas sobre censura, autoritarismo e ameaça à liberdade de expressão. Mas o que, de fato, foi dito? E por que esse tipo de narrativa encontra tanto espaço no debate público?
Nesse ambiente polarizado que nos encontramos desde a ascensão do bolsonarismo, falas presidenciais complexas sobre regulação, responsabilização das plataformas e proteção das instituições democráticas são frequentemente reduzidas a frases simplistas para fortalecer o sensacionalismo contra a esquerda.
Assim, o debate deixa de ser sobre o poder das plataformas digitais e passa a girar em torno do medo da censura, criando uma falsa oposição entre liberdade de expressão e regulação.
Aqui vamos entender o papel das redes sociais na comunicação presidencial e desenhar um resgate histórico para entender como a comunicação política mudou radicalmente com a digitalização.
Antes das redes: como presidentes falavam com a população
Durante grande parte do século 20, a comunicação presidencial era mediada por instituições. Nessa época, desde o início da democracia, presidentes falavam com a população por meio de pronunciamentos em rádio e televisão, entrevistas à imprensa, discursos oficiais e comunicados formais.
No Brasil, por exemplo, esse modelo foi evidente desde Getúlio Vargas, que usou o rádio como instrumento de construção de uma narrativa nacional. O uso do rádio era tão importante para manter a conexão política que, em 22 de julho de 1935, Vargas criou o programa “A Hora do Brasil”, que deveria ser transmitido por todas as estações de rádio, de segunda à sexta-feira, das 19h às 20h.
Hoje, o programa passou por reformulações, mas segue no ar nas rádios de todo o país sob o nome “A Voz do Brasil”, transmitindo as principais informações do governo federal. Embora ainda cumpra seu papel, sua audiência diminuiu com a ascensão das plataformas digitais. Vamos entender como.

A ascensão digital na política
Com a popularização das redes sociais, esse modelo mudou radicalmente. Presidentes passaram a se comunicar de forma direta, imediata e permanente com milhões de pessoas.
Internacionalmente, líderes como Barack Obama foram os primeiros a usar as redes sociais estrategicamente já em 2008, mas foi Donald Trump quem levou esse modelo ao extremo entre 2016-2020, com tweets diretos e controversos que pautavam a agenda midiática diariamente. No Brasil, essa transformação se intensificou na última década.
O movimento #ForaTemer, iniciado em 2016 após o impeachment de Dilma Rousseff, marcou um ponto de inflexão.
A verdade é que a hashtag #ForaTemer inundou as redes sociais na semana seguinte ao impeachment de Dilma, e as ruas foram tomadas pelas pessoas provando que um movimento que começou no antigo Twitter, hoje X, rapidamente consegue ser transbordado para as grandes avenidas do país em formato de manifestação política.
Com o passar do tempo, as manifestações digitais foram se intensificando e o próximo ápice brasileiro foi a corrida presidencial de 2018. Na verdade, muito antes do fatídico dia da eleição, no 7 de outubro de 2018, os candidatos à presidência já estavam usando as redes sociais de forma extremamente estratégica.
Quem acompanhou a eleição de 2018 certamente se lembra dos vários vídeos de Bolsonaro fazendo flexão com militares e policiais. Essas cenas reforçaram a imagem de proximidade com as forças de segurança, mas também humanizam o Capitão que usava de seu passado no militarismo para reforçar seus valores conservadores.
O resultado desse período teve, inclusive, um retrato bem representativo de seguidores de cada um: Bolsonaro chegou a abril de 2018 com 7,8 milhões de seguidores no Facebook, Instagram e Twitter, muito à frente de adversários como Marina Silva (4,2 milhões) e Lula (3,6 milhões), na época.
O uso político do medo
Narrativas sobre censura sempre foram eficazes para mobilizar apoio. No ambiente digital, elas ganham escala e velocidade inéditas. Criam pânico moral, engajamento e polarização.
O medo da censura funciona porque toca em ansiedades profundas sobre liberdade individual e controle estatal. Para o público conservador brasileiro, essa narrativa ressoa especialmente forte.
Afinal, existe a percepção de que a esquerda domina instituições culturais, universidades e mídia tradicional, e agora quer controlar as redes sociais — o último espaço onde a direita teria “voz livre”. E, claro, essa narrativa de “cerco” posiciona o público conservador como a recorrente vítima, o que é politicamente poderoso.
A construção dessa narrativa segue um padrão: qualquer discussão sobre regulação de plataformas ou combate à desinformação é imediatamente traduzida como “censura”.
Propostas específicas são apresentadas como ameaças. Se há debate sobre responsabilizar plataformas por fake news eleitorais, a narrativa vira “querem te proibir de dar sua opinião”.
O mecanismo é recorrente. Primeiro, uma declaração real é isolada do seu contexto original. Em seguida, ela é reinterpretada de forma simplificada e alarmista, geralmente acompanhada de palavras como “ditadura”, “controle”, “fim da liberdade” ou “censura”. Por fim, essa versão distorcida é disseminada em vídeos curtos, cards e mensagens em grupos de WhatsApp, criando a sensação de urgência e ameaça imediata.
Nesse processo, o conteúdo original perde importância. O que mobiliza é o sentimento: a ideia de que “algo está para ser tirado de você”. A liberdade de expressão deixa de ser um princípio democrático e passa a funcionar como gatilho emocional, acionado sempre que interesses políticos precisam engajar uma base já desconfiada das instituições.
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O papel das Big Techs na disputa política contemporânea
As Big Techs controlam hoje infraestruturas privadas de comunicação que funcionam como praças públicas digitais. Seus algoritmos decidem quais conteúdos terão visibilidade, quais vozes serão amplificadas e quais debates ganharam centralidade.
O modelo de negócio dessas plataformas é baseado em engajamento. Conteúdos emocionais, radicais ou alarmistas tendem a circular mais, pois geram cliques, comentários e compartilhamentos. Isso favorece a simplificação de debates complexos e a disseminação de narrativas distorcidas — como a ideia de que o presidente Lula quer suspender redes sociais.
No Brasil, episódios envolvendo ataques às instituições, campanhas de desinformação e atuação de gabinetes de ódio evidenciaram os limites desse modelo. A dificuldade de responsabilizar plataformas que lucram com conteúdos nocivos levou o tema da regulação ao centro do debate político.
É nesse contexto que o debate sobre regulação ganha centralidade.
Quando o governo Lula fala sobre limites às plataformas, não se trata de controlar opiniões individuais, mas de enfrentar uma questão estrutural: quem governa o espaço público digital? Estados submetidos a regras democráticas ou empresas privadas orientadas por lucro e engajamento?

Censura e regulação
A frase “lula quer suspender redes sociais” surge a partir de declarações do presidente sobre a necessidade de impor limites e responsabilidades às plataformas digitais diante do impacto que elas exercem sobre a democracia, o processo eleitoral e o debate público.
Nos últimos meses, o governo federal passou a discutir um projeto de lei que regulamenta a atuação das plataformas digitais no Brasil. O texto prevê a possibilidade de suspensão temporária de redes sociais que, de forma reiterada, deixem de remover conteúdos ilícitos mesmo após notificações formais do órgão regulador.
Segundo integrantes do governo, essa suspensão provisória seria aplicada pela Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD), vinculada ao Ministério da Justiça, que passaria a atuar como órgão fiscalizador das plataformas.
O foco central da proposta não é a punição de opiniões individuais, mas a proteção dos usuários contra crimes digitais, golpes, fraudes e conteúdos que violem direitos de crianças e adolescentes. O combate a fake news e discursos de ódio, inclusive, também não é prioridade e aparece como um elemento secundário do projeto.
Em diferentes ocasiões, Lula criticou o poder excessivo das Big Techs e defendeu que empresas que atuam no Brasil devem respeitar as leis nacionais e decisões do Judiciário, assim como qualquer outro setor econômico.
Esse posicionamento, no entanto, foi rapidamente deslocado do seu contexto original e transformado em uma narrativa alarmista, que associa qualquer tentativa de regulação à ideia de censura. Até porque o que está em discussão não é a proibição de opiniões individuais, mas a regulação das poucas estruturas privadas que controlam o espaço público digital.
Dessa forma, precisamos lembrar que enquanto a censura é a intervenção direta do Estado para impedir previamente a circulação de ideias, críticas ou manifestações políticas, a regulação defendida pelo governo Lula tem mais a ver com responsabilização das plataformas, transparência no funcionamento dos algoritmos e combate à desinformação.
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Regulação digital não é censura
A frase “Lula quer suspender redes sociais” é mais do que uma simples distorção: ela revela como funciona a política na era digital.
Declarações complexas sobre regulação são transformadas em narrativas alarmistas que se mobilizam pelo medo. O debate sério sobre o poder das Big Techs é sequestrado por falsas narrativas entre liberdade e censura.
Enquanto continuarmos confundindo regulação com censura, as plataformas seguirão operando sem limites democráticos. O verdadeiro risco não está em discutir regras para o espaço público digital, mas em deixá-lo exclusivamente nas mãos de algoritmos programados para amplificar aquilo que mais nos divide.
A questão não é se Lula quer suspender redes sociais — ele não quer. A questão é: quem deve governar o principal espaço de debate público do século 21? Instituições democráticas submetidas ao controle social, ou corporações privadas orientadas apenas pelo lucro?
A resposta a essa pergunta definirá não apenas como nos comunicamos, mas como exercemos a democracia nas próximas décadas.