Lula e progressistas articulam ação global e na ONU para blindar eleição

Em discurso em NY, presidente denunciará ingerência externa; interlocutores buscam países para costurar compromisso de reconhecimento e isolar Trump
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Nesta terça-feira, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva usará seu discurso na ONU para rejeitar a ideia de uma ingerência por parte de potências, defender a soberania e insistir sobre a credibilidade das instituições brasileiras. Sua aparição no palco central da diplomacia mundial não é um gesto isolado e faz parte de uma ação mais ampla. Nas últimas semanas, articuladores da sociedade civil, empresários e membros do governo atuaram nos bastidores para criar uma espécie de movimento no exterior que garanta um rápido reconhecimento dos resultados da eleição brasileira, em outubro, e blinde o cenário político nacional de um eventual caos.

Após o discurso de Lula, quem sobe ao palco da ONU é Donald Trump. Para embaixadores estrangeiros ouvidos pelo ICL Notícias, os dois líderes vão resumir, em poucos minutos, duas visões antagônicas do mundo. De um lado, a defesa de políticas sociais, do direito internacional e do multilateralismo por parte do brasileiro. Do outro, o desmonte de um sistema e a apologia à força pelo chefe da Casa Branca.

Os dois líderes devem se encontrar por alguns instantes na sala que dá acesso ao plenário da ONU. Segundo a reportagem apurou, está “previsto” um rápido intercâmbio de palavras entre Lula e Trump. E, claro, uma foto.

Mas o brasileiro quer aproveitar o palco para reforçar a imagem ao mundo de que a democracia brasileira é sólida. A mensagem subliminar é que questionar a eleição brasileira não faz sentido e que o país é um dos raros casos latino-americanos onde nunca houve uma denúncia de fraude desde a redemocratização.

Desde o ano passado, tanto o Palácio do Planalto quanto o Itamaraty colocaram a defesa da democracia como prioridade da política externa e linha central de atuação. Na prática, interlocutores do governo passaram a articular com aliados pelo mundo uma posição de defesa do estado de direito, dos direitos humanos, dos organismos internacionais e um freio à desinformação.

Agora, o teste será a própria eleição brasileira.

Um dos cenários temidos pela ala progressista é de que Trump opte por não reconhecer de forma imediata uma eventual vitória de Lula na eleição.

O risco é de que o primeiro alerta de uma suposta fraude venha de Javier Milei, presidente da Argentina, e aliado da extrema direita brasileira e americana. A campanha de Flávio Bolsonaro entraria, então, com um pedido de recontagem ou denúncia e, desde a Casa Branca, a mensagem seria de que Trump apenas iria reconhecer o resultado quando o imbróglio jurídico fosse resolvido.

Com o STF enfraquecido por conta dos escândalos dos últimos dias, estaria criada a condição de uma instabilidade institucional.

Isolar Trump e inverter a pressão

Nos bastidores, uma ação dos progressistas tem sido intensificada por intermediários e movimentos da sociedade civil para construir uma massa crítica suficiente pelo mundo de reconhecimento do resultado. Assim, a esperança é isolar uma eventual manipulação por parte de Trump e aliados bolsonaristas, apoiados pela disseminação de desinformação.

Assim, a pressão que poderia existir sobre o Brasil seria invertida e, na contramão da comunidade internacional, seriam os EUA que estaria sob o constrangimento de não reconhecer o resultado da eleição no país.

No fim de semana, o Instituto Vladimir Herzog entregou às Nações Unidas um extenso documento com um alerta neste sentido. Na semana passada, numa reunião em Pequim, o embaixador Celso Amorim e a chancelaria chinesa concordaram em rechaçar qualquer ingerência no resultado da eleição.

Enquanto isso, interlocutores brasileiro estão buscando diálogo com democracias ocidentais, como Reino Unido, Canadá e a UE, além de aliados como México, Índia e África do Sul. Uma missão de ativistas viajou para a Europa, também em busca de um compromisso de capitais aliadas.

Outro aspecto fundamental é a participação de observadores internacionais. Para a eleição neste ano, 13 grupos foram credenciados pelo TSE. Pela primeira vez, a UE foi convidada para acompanhar o processo, algo que o governo de Jair Bolsonaro havia vetado em 2022.

Uma participação importante, do ponto de vista do governo, é a viagem dos especialistas do Carter Center. A presença da entidade americana é considerada como estratégica, inclusive para frear eventuais narrativas dos EUA de uma suposta fraude.

Um dos temores, porém, é de que grupos trumpistas optem por viajar ao Brasil durante a eleição e, sem qualquer comprovação ou credenciamento oficial, espalhem desinformação sobre supostas fraudes em colégios eleitorais.

A presença de cerca de 60 americanos ligados ao movimento MAGA na Colômbia, durante o processo eleitoral, foi um sinal de alerta.

O governo Lula, desde meados do ano, vem vetando a liberação de vistos para diplomatas e articuladores do Departamento de Estado norte-americano que teriam organizado viagens ao Brasil para tratar de temas relacionados com o processo eleitoral.

Neste sentido, os encontros selecionados para Lula em Nova York, nesta segunda-feira, foram reveladores de uma operação que vai muito além do próprio futuro da ONU. O brasileiro esteve com dois expoentes da oposição democrata dos EUA e com um dos poucos líderes progressistas ainda no poder na América do Sul, Yamandu Orsi, do Uruguai.

Democratas por Lula

Com o senador Bernie Sanders, Lula ouviu que os democratas vão apoiar a autodeterminação do Brasil e que, se vencerem a eleição legislativa em novembro, irão convidar o brasileiro para discursar sobre políticas sociais e o SUS no Senado dos EUA. Um sinal de que, se forem maioria no Congresso americano a partir de 2027, vão confrontar a ofensiva de Trump contra o Brasil.

No encontro com Zohran Mamdani, prefeito de Nova York, a simbologia da diplomacia ocupou seu espaço e a troca de presentes não foi apenas um gesto protocolar. Quando Lula entregou ao político local a camisa do Corinthians, a referência não era o futebol. Mas o reconhecimento por parte do próprio Mamdani da importância da luta pela democracia no Brasil.

(Foto: Ricardo Stuckert / PR)
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