Em 2026, a capacidade de as democracias de resistir aos movimentos de extrema direita será testada em processos eleitorais pelo mundo. Em diferentes continentes, campanhas políticas podem definir não apenas o destino domésticos dos países que vão às urnas, mas do próprio movimento ultraconservador pelo mundo.
Se a agenda política do ano promete ser tão imprevisível quanto os acontecimentos de 2025, analistas apontam que ela pode ainda ser acompanhada por um acirramento da tensão entre as principais potências.
O que processos eleitorais ainda definirão no ano que começa nas próximas horas é a dimensão da influência dos EUA de Donald Trump em diferentes pontos do planeta.
Em sua estratégia de segurança nacional, o governo americano não esconde que irá apoiar partidos de extrema direita pelo mundo, principalmente na Europa.
Eis, portanto, o calendário eleitoral e o que nos espera no ano que está prestes a chegar:
Fevereiro: eleições livres em Bangladesh
As eleições em Bangladesh serão as primeiras desde que a primeira-ministra Sheikh Hasina e seu governo foram depostos do poder em agosto de 2024 por protestos liderados por estudantes. Ela dominou a política de Bangladesh por quinze anos, reprimindo a oposição e corroendo a democracia do país. Hasina foi condenada à morte por crimes contra a humanidade, mas vive exilada na Índia.
Muhammad Yunus, ganhador do Prêmio Nobel da Paz, foi escolhido para liderar um governo interino com o objetivo de restaurar a lei e devolver o país ao regime democrático.
Mas, para 2026, não há sequer um acordo sobre como serão aplicadas as leis eleitorais. Blocos nacionalistas, uma coalizão de partidos islâmicos, grupos que defendem a criação de uma nova república devem se enfrentar no que pode ser a primeira eleição competitiva do país em mais de uma década.
Abril: extrema direita na Hungria na encruzilhada
15 anos depois de assumir o poder na Hungria, o primeiro-ministro de extrema-direita Viktor Orbán testará sua popularidade e suas manobras para se manter no poder nas eleições parlamentares no país. Mas, pela primeira vez, seu partido, o Fidesz, não aparece na preferência dos eleitores. A oposição, que levou anos para conseguir se organizar, ensaia uma estratégia para concentrar todo seu apoio em um só candidato.
Uma das apostas, porém, é um ex-aliados de Orban, Péter Magyar, que rompeu com o Fidesz diante de um escândalo de corrupção. Numa recente entrevista ao Financial Times, ele sinalizou que estaria mais próxima da UE, da OTAN e mais distante do Kremlin.
Sentindo que poderia ter seu governo ameaçado, o primeiro-ministro que se diz um admirador de Donald Trump usou a maioria no Parlamento para aprovar uma lei de redistribuição de distritos eleitorais que pode dificultar que a oposição de fato consiga sair vencedora.

Maio: Colômbia e o mapa da América Latina sendo redesenhado
O mês de maio será crítico para a composição política da América Latina. Depois de a extrema direita vencer no Chile, Argentina e aliados de Donald Trump ganhar força no Paraguai, Bolívia e em vários outros países da região, o destino político da Colômbia será colocado em jogo.
Gustavo Petro não pode concorrer. Mas, abalado por fortes questionamentos internos e sob um ataque constante de Donald Trump, seu partido pena para garantir qualquer tipo de continuidade com o escolhido para concorrer ao pleito, o senador Ivan Cepeda.
A violência também voltou a ser um ponto da agenda do país, principalmente depois do assassinato do senador Miguel Uribe Turbay e que costurava uma candidatura à presidência. A oposição, desta vez, deve apresentar Sergio Fajardo, de centro-direita, e Abelardo de la Espriella, um ultraconservador, como possíveis nomes.

Setembro: Suécia vira campo de testes para extrema direita europeia
E será na Suécia, em sua eleição geral de 2026, que o mundo poderá avaliar até que ponto partidos de extrema direita na Europa Ocidental se transformaram nas principais forças políticas do Velho Continente.
O atual governo – uma surpreendente aliança forjada em 2022 entre partidos de centro e a extrema-direita – passou a ser confrontado com a realidade de um aumento da violência e o desembarque da narrativa de que as mudanças estão ocorrendo por conta da imigração. Um outro dilema afeta o país: aumentar ou não os gastos militares, diante do risco de uma ameaça russa.
Por enquanto, os sociais-democratas lideram as pesquisas de opinião. Mas as urnas vão dizer se a extrema-direita se consolidará como um dos pilares incontornáveis no país.
Os Democratas Suecos (SD), um partido de extrema-direita com origens neonazistas, ainda serão acompanhados de perto pelo restante da Europa. Durante o ano de 2026, a extrema direita da França, Espanha e Alemanha buscam se posicionar para disputar o poder em seus respectivos países a partir de 2027.
Outubro: o Bolsonarismo está vivo?
Em outubro, o mundo está de olho no Brasil. Para as forças democráticas, o processo eleitoral será crítico para entender como um um dos maiores países do mundo vai lidar com a pressão das plataformas digitais, a organização da extrema direita mundial e a eventual influência de forças estrangeiras.
Para a extrema direita, o Brasil representa um campo de teste fundamental, principalmente depois da condenação de Jair Bolsonaro.
Mas, acima de tudo, a eleição promete testar a política externa de Donald Trump na América Latina. O campo bolsonarista ainda aposta na ingerência da Casa Branca no processo democrático brasileiro. Já o governo Lula trabalha para neutralizar qualquer tipo de influência de Trump na eleição nacional.

Outubro: o futuro de Netanyahu em jogo
O mês de outubro também será marcado pela eleição ao Parlamento de Israel. Em jogo estará o destino político de Benjamin Netanyahu. Em 2022, para poder governar, o líder israelense formou a aliança mais direitista e religiosa da história de Israel, com um pacto com os grupos mais radicais. Isso obrigou seu governo a ceder às exigências das alas mais radicais da política de Israel.
Netanyahu, que ocupou a liderança por 18 dos últimos 29 anos, ainda enfrenta um processo por corrupção. Os protestos da população contra o primeiro-ministro foram suspensos com o ataque do Hamas em 7 de outubro de 2023. Mas a pressão sobre o político deve ganhar força nos próximos meses.

Novembro: Governo Trump vive momento crítico
2026 terminará ainda com uma eleição fundamental: no dia 3 de novembro, os americanos vão às urnas para escolher seu Legislativo. Os resultados das eleições, porém, podem mudar drasticamente o rumo da política americana e mundial, colocando ou não um limite ao projeto da extrema direita.
Nas urnas, o eleitorado irá referendar ou rejeitar o caminho adotado pelo presidente. Se perder sua maioria apertada na Câmara de Deputados, Trump pode ver seus principais projetos comprometidos.
Trump ainda enfrenta uma baixa popularidade. Eleições em algumas cidades e estados norte-americanos em 2025 revelaram que existe um movimento para contestar o poder do presidente.
Mas nada indica que o republicano esteja disposto a simplesmente ver seu poder ser ameaçado. Nos últimos meses, ele passou a pressionar estados governados por aliados a reformularem seus mapas eleitorais para obter mais cadeiras republicanas e, assim, manter seu controle sobre o Congresso.