O governo francês anunciou no domingo (4) a proibição da importação de frutas da América do Sul que apresentem resíduos de agrotóxicos proibidos na União Europeia: mancozeb, glufosinato, tiofanato-metílico e carbendazim. A medida, divulgada pelo primeiro-ministro Sébastien Lecornu em seu perfil no X, será formalizada nos próximos dias pela ministra da Agricultura, Annie Genevard.
“Abacates, mangas, goiabas, frutas cítricas, uvas e maçãs da América do Sul ou de outros lugares não serão mais permitidos no território nacional”, afirmou Lecornu, destacando que uma brigada especializada realizará inspeções reforçadas para garantir o cumprimento das normas sanitárias.
Segundo ele, a iniciativa representa “um primeiro passo para proteger nossas cadeias de suprimentos e nossos consumidores, e para combater a concorrência desleal, uma verdadeira questão de justiça e equidade para nossos agricultores”.
Até o momento, Ministério da Agricultura do Brasil (Mapa) não se pronunciou sobre o assunto.
Pressão agrícola e adiamento do Mercosul
A decisão francesa ocorre um momento sensível para o acordo Mercosul-União Europeia, justamente no momento em que a Itália sinaliza apoiar o pacto, que vem sendo negociado há 25 anos.
O país — que, ao lado da França, vinha se opondo ao acordo devido à pressão de agricultores —, deve mudar de posição e apoiá-lo quando os embaixadores da UE votarem a medida em 9 de janeiro. A votação deveria ter ocorrido em dezembro, mas foi adiada.
A possível aprovação permitiria que a UE assinasse o tratado com os países do Mercosul — Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai — em 12 de janeiro. O pacto visa reduzir tarifas de importação e exportação, mas enfrenta resistência de países europeus, especialmente França e Itália.
Produtores franceses pressionam o governo argumentando que o acordo prejudica setores locais, como carne bovina, aves, açúcar e soja. Em protestos recentes, agricultores chegaram a despejar esterco em frente à casa de praia do presidente da França, Emmanuel Macron, e a colocar um caixão com a inscrição “Não ao Mercosul”.
Manifestações semelhantes ocorreram em Bruxelas, com confrontos entre policiais e manifestantes que queimaram pneus e lançaram objetos.
Analistas apontam que a proibição de frutas com resíduos de agrotóxicos pode ser interpretada tanto como uma medida sanitária quanto como um instrumento de proteção da agricultura francesa em meio às negociações comerciais.