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O fundo Brain Cash, administrado pela gestora de recursos Reag, registrou um salto extraordinário em seu patrimônio ao receber um aporte de R$ 450 milhões, valor que multiplicou em cerca de 30 mil vezes os recursos iniciais com apenas 20 dias de existência do fundo, segundo informações de reportagem de O Globo. A operação, viabilizada por um empréstimo concedido pelo Banco Master ao único cotista do fundo, despertou a atenção do Banco Central (BC) e passou a ser investigada pelo Ministério Público Federal (MPF).

O Brain Cash foi registrado em 5 de abril de 2024 com patrimônio inicial de R$ 15 mil e tinha como objetivo declarado investir em crédito privado, como títulos de renda fixa e dívidas corporativas. Seu único investidor era a Brain Realty Consultoria e Participações Imobiliárias, empresa comandada por uma ex-funcionária da própria Reag.

Lembrando que a Reag também está na mira da Operação Carbono Oculto, deflagrada pela Polícia Federal e pelo Ministério Público no ano passado, que apura um suposto esquema de lavagem de dinheiro ligado ao Primeiro Comando da Capital (PCC) no setor de combustíveis e no sistema financeiro. Pelo menos três fundos administrados pela gestora e que mantiveram operações com o Banco Master — Hans 95, Reag Growth e Anna FIC — aparecem entre os investigados.

Aporte milionário e transações em sequência

Passo a passo do esquema:

  • No dia 24 de abril, às 15h22, o fundo recebeu o aporte de R$ 450 milhões de sua cotista;
  • Dois dias antes, a empresa havia tomado um empréstimo de R$ 459 milhões junto ao Banco Master;
  • O montante emprestado contrastava com o porte da companhia: meses antes, seu capital social era de apenas R$ 100 e havia sido elevado para R$ 2,2 milhões, o que torna o valor do crédito equivalente a 0,43% de seu capital.

A aplicação no Brain Cash, no entanto, durou pouco. Cerca de uma hora e meia depois, os recursos foram transferidos para o Fundo D Mais, também administrado pela Reag, que mantinha em sua carteira papéis considerados sem valor do extinto Banco do Estado de Santa Catarina (Besc).

Rentabilidade fora do padrão

Três minutos após receber os recursos, o Fundo D Mais repassou o mesmo valor ao FIDC High Tower para liquidar parte da aquisição desses papéis do Besc. Segundo as investigações, o fundo reavaliou ativos de baixíssima liquidez para um valor de R$ 10,8 bilhões, o que resultou em uma rentabilidade declarada de 10.502.205,65% em 2024.

Para efeito de comparação, no mesmo período, o bitcoin — a maior criptomoeda do mundo — apresentou retorno aproximado de 120% em dólar, enquanto o ouro se valorizou 61,6% em reais. Para os investigadores, a discrepância reforça a suspeita de reavaliação artificial de ativos, sem lastro em ganhos econômicos reais.

Dinâmica sob suspeita

De acordo com o MPF e o BC, a partir dessa operação inicial houve uma sequência de transações fracionadas, com passagens por diferentes camadas de fundos administrados pela Reag. O objetivo, segundo a apuração, seria inflar o valor dos ativos e gerar rentabilidade extraordinária apenas por meio de registros contábeis.

Há também indícios de que, após circular por essa rede de fundos, parte dos recursos tenha retornado ao próprio Banco Master por meio da compra de Certificados de Depósito Bancário (CDBs), principal instrumento de captação da instituição, que foi liquidada no fim do ano passado por suspeitas de fraude.

Nesta segunda-feira (12), o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, e diretores da autarquia se reúnem com o presidente do Tribunal de Contas da União (TCU), após o recuo de uma inspeção relacionada à liquidação do Banco Master. Participam do encontro os diretores responsáveis pelas áreas de fiscalização, regulação, supervisão de conduta e secretaria-executiva do BC.

Outro lado

Procurada por O Globo, a Reag afirmou que os recursos citados decorrem de “operações de crédito estruturadas”, cujos desembolsos estariam condicionados ao avanço de projetos específicos. Segundo a gestora, enquanto esses marcos contratuais não eram atingidos, os valores deveriam permanecer aplicados em instrumentos financeiros vinculados ao próprio credor, prática que, segundo a empresa, seria comum no mercado. A gestora nega qualquer irregularidade.

 

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