Militarismo de Trump acende alerta e ala do Planalto quer nova estratégia de defesa nacional

Queda de Maduro é considerada no governo Lula como parte de uma ofensiva maior por parte de Trump para a América Latina.
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A militarização da América Latina por parte do governo de Donald Trump acende um alerta no governo brasileiro e membros do Executivo já defendem internamente que o país comece a repensar sua doutrina de defesa nacional, sua estratégia de atuação das Forças Armadas e até mesmo reavalie o orçamento militar para o país.

Fontes do alto escalão em Brasília confirmaram ao ICL Notícias que a derrubada de Nicolás Maduro foi interpretada como a implementação da nova estratégia de defesa nacional dos EUA. Entre os diferentes aspectos, o documento americano defende abertamente o controle do Hemisfério Ocidental por parte da Casa Branca e a ampliação das posições militares pelo continente.

“Vamos apenas observar ou vamos também nos preparar?”, questionou um membro do Executivo, explicando o debate que está ocorrendo nos bastidores.

Existe uma coincidência de posições entre o Itamaraty e uma parcela do Executivo de que a operação que derrubou Maduro não é um ato isolado. Se as ameaças contra Cuba e Colômbia passaram a ser constantes nas últimas semanas, o que ainda preocupa o governo é o início de um posicionamento mais duradouro de tropas pela região.

“Cercado”

Se confirmada a presença dos EUA na Venezuela e a transformação do país numa espécie de protetorado, a preocupação do Brasil está ligada ao destino da soberania da Amazônia, uma permanente preocupação dos militares. Outro aspecto é a exploração de petróleo na foz do rio Amazonas e que ganha força com a ofensiva dos EUA por recursos naturais na região.

Mas a atenção dos assessores está também no Cone Sul. Em dezembro, o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, e o ministro das Relações Exteriores do Paraguai, Rubén Ramírez Lezcano, assinaram o Acordo sobre o Estatuto das Forças que estabelece o arcabouço legal e operacional para a presença de militares dos EUA no Paraguai.

O porta-voz adjunto de Rubio, Tommy Pigott, afirmou que “este acordo histórico estabelece um arcabouço claro para a presença e as atividades de militares e civis dos EUA” do Pentágono no Paraguai, “facilitando o treinamento bilateral e multinacional, a assistência humanitária, a resposta a desastres e outros interesses de segurança compartilhados”.

O diplomata americano também destacou que o texto assinado “reflete o compromisso dos Estados Unidos em coordenar estreitamente com o Paraguai em questões de segurança regional e a crescente importância do Paraguai como líder regional e defensor da segurança” no hemisfério, enfatizando o papel estratégico do país sul-americano.

É esse papel estratégico conferido ao Paraguai que chama a atenção. Uma eventual base militar americana nas proximidades da Usina de Itaipu é vista como preocupação, assim como a coordenação que pode surgir a partir do país com aliados de extrema direita na Argentina, Chile e Bolívia.

Ainda faz sentido “Zona de Paz”?

Um dos elementos considerados pelo governo Lula é a sinalização de Trump de que não irá aturar a presença da China na infraestrutura da região. A pressão da Casa Branca sobre o Panamá por conta do Canal e a decisão do país centro-americano de se afastar da China foi considerado como um recado.

Diplomatas brasileiros ainda ouviram de membros do partido republicano que o governo Trump não ficará confortável com a expansão de portos e ferrovias nas mãos de empresas chinesas.

Se o continente é alvo de disputa, a ideia de zona de paz pode estar obsoleta. A declaração da América do Sul como livre de armas nucleares, como área de cooperação com a Argentina na questão atômica e o compromisso regional pelo respeito às fronteiras foram elementos centrais que permitiram a redemocratização, seguida por um projeto real de integração econômica e de infraestrutura.

Orçamento

Uma mudança na estratégia brasileira e um eventual rearmamento, porém, teriam de passar por uma revisão do orçamento militar do país. Segundo os dados do SIPRI (Instituto para os Estudos da Paz, em Estocolmo), o Brasil tinha em 2024 apenas o 21º maior orçamento militar do mundo, uma queda de três postos no ranking mundial em comparação ao ano de 2023. Espanha, Holanda e Argélia superam os gastos nacionais.

Com um orçamento de US$ 20,9 bilhões naquele ano, o Brasil destinava cerca de 1% do PIB nacional para o segmento de defesa. De acordo com o levantamento da entidade, houve ainda uma queda de 14% do orçamento militar brasileiro entre 2015 e 2024, em termos proporcionais ao tamanho da economia do país.

Se os EUA representam 37% dos gastos militares do mundo em 2024 e a China cerca de 12%, o Brasil participa com apenas 0,7%.

O alerta sobre a situação de vulnerabilidade do Brasil não se limita a vozes dentro do governo. Em um recente artigo, o ex-diretor do FMI, Paulo Nogueira Batista Jr, aponta para o mesmo questionamento.

“O que ficou claro em 2025 é que o governo Trump só respeita países que têm força bruta e capacidade de retaliar, leia-se, fundamentalmente China e Rússia”, alertou.

“Mesmo os aliados tradicionais são desrespeitados. Por exemplo, os europeus, que são militarmente dependentes dos EUA, têm sido repetidamente desrespeitados e até mesmo publicamente humilhados, como nunca antes. Uma eventual ocupação da Groenlândia pelos EUA coroaria essa humilhação”, disse.

Segundo ele, “em face do contexto internacional, a nossa vulnerabilidade militar tornou-se um risco existencial”. “Precisamos, urgentemente, de uma revisão completa da política de defesa externa e um aumento dos gastos militares”, defendeu. “É caro? Sim. Haverá “espaço fiscal”? Temos que abrir esse espaço à força — se é que pretendemos, de fato, viver como nação independente. Sem bravatas e sem demagogia, o Brasil deve também aprofundar a cooperação militar com a China e a Rússia”, afirmou.

“O risco não vem do nosso entorno geográfico imediato, mas de uma superpotência imperial ambiciosa e agressiva”, completou.

 

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