Por Cleber Lourenço
As notas fiscais emitidas pelo escritório de advocacia do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) para empresas ligadas ao empresário Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, passaram a integrar formalmente o radar da Polícia Federal. O deputado federal Lindbergh Farias (PT-RJ) protocolou uma notícia de fatos novos solicitando que os documentos sejam incorporados às investigações já em curso e que a corporação aprofunde a apuração sobre a origem e o destino dos recursos.
Na petição, o parlamentar afirma que “a sequência de emissões e cancelamentos das notas fiscais levanta dúvidas que somente uma investigação poderá esclarecer”, defendendo o compartilhamento das informações com inquéritos que já apuram o Banco Master, Daniel Vorcaro e a Trustee DTVM. Ele também pede diligências para “reconstruir o caminho do dinheiro e verificar se houve efetiva prestação dos serviços advocatícios declarados”.
O caso gira em torno de três notas fiscais que somam R$ 1,5 milhão. Segundo a representação, o escritório de Flávio Bolsonaro emitiu, em 7 de abril de 2025, duas notas de R$ 500 mil para a Copenhagen Consultoria e Assessoria S.A., ambas canceladas no mesmo dia. Dois dias depois, em 9 de abril, foi emitida uma terceira nota, também de R$ 500 mil, desta vez para a Contábil Correa, conhecida como BR Global, sem registro de cancelamento.
As duas empresas aparecem conectadas por um mesmo contador, Rogério Lourenço Novo, apontado na petição como elo entre as estruturas societárias. Para Lindbergh, esse conjunto de operações — emissão, cancelamento imediato e nova emissão para empresa ligada ao mesmo núcleo — configura um padrão que exige investigação mais aprofundada.
Outro ponto destacado é o perfil da Copenhagen. A empresa foi criada poucos meses antes das operações, com capital social de apenas R$ 40, e funcionava no mesmo endereço da Contábil Correa. A petição menciona ainda reportagens segundo as quais a companhia recebeu dezenas de milhões de reais do grupo de Daniel Vorcaro após sua criação, o que, na avaliação do deputado, reforça a necessidade de apuração.
Na manifestação enviada à Polícia Federal, Lindbergh argumenta que as explicações públicas dadas por Flávio Bolsonaro não encerram o caso. Para ele, “a emissão de notas de elevado valor, seu cancelamento imediato e a posterior emissão de outra nota para empresa ligada ao mesmo contador” formam um conjunto de circunstâncias que só pode ser esclarecido com acesso a dados protegidos por sigilo bancário e fiscal.

Em resposta, Flávio Bolsonaro afirmou que seu escritório firmou contrato de assessoria jurídica com a BR Global e que jamais recebeu qualquer valor da Copenhagen, razão pela qual as duas primeiras notas foram canceladas. O senador também negou conhecer qualquer vínculo entre as empresas e o Banco Master.
Apesar disso, o próprio parlamentar reconheceu ter prestado serviços advocatícios remunerados para uma das empresas envolvidas e declarou, em vídeo nas redes sociais, que a Copenhagen foi utilizada por Daniel Vorcaro para realizar pagamentos a terceiros — embora tenha reiterado que seu escritório não recebeu recursos dessa empresa. Para Lindbergh, essas declarações “reforçam, em vez de afastar, a necessidade de rastrear toda a movimentação financeira”.
Entre as diligências solicitadas estão a oitiva do contador Rogério Lourenço Novo, a obtenção das notas fiscais emitidas e canceladas, a preservação dos registros eletrônicos e a análise da efetiva prestação dos serviços jurídicos. O deputado também pede a reconstituição completa do fluxo financeiro entre o Banco Master, Daniel Vorcaro, Copenhagen, BR Global e eventuais destinatários dos recursos, além da avaliação da quebra de sigilos bancário e fiscal das empresas envolvidas.
A representação solicita ainda que os fatos sejam compartilhados com os inquéritos já existentes envolvendo o Banco Master e a Trustee DTVM. Caso surjam elementos que envolvam diretamente Flávio Bolsonaro — que possui foro privilegiado —, o documento pede o envio imediato das informações à Procuradoria-Geral da República para eventual atuação no Supremo Tribunal Federal.
O protocolo da notícia de fatos não implica a abertura automática de um novo inquérito nem representa reconhecimento de irregularidades por parte da Polícia Federal. Caberá agora à corporação analisar os