Não resisto: não vi o filme, mas gostei muito. A cerimónia dos globos de ouro deu-me a reconfortante sensação de que há ainda espaços no mundo onde as pessoas gostam do que eu gosto – e eu gosto muito do Wagner Moura. Comecei a gostar dele há muitos anos, de longe, ao vê-lo em “Tropa de Elite” interpretando um complexo personagem da violência social do Brasil. Passei a gostar menos no segundo filme, quando os protagonistas ficaram mais simples, mais previsíveis e com menos ângulos agudos, eu que só gosto dos ângulos agudos da vida. Mas regressou. Regressou ao meu mundo em grande com o seu “Mariguella” – e desta vez foi de vez. Naquele momento particular da vida política brasileira, fazer aquele filme foi um gesto de coragem cívica invulgar. Para mim, esse foi o verdadeiro globo de ouro de Wagner Moura – este é o segundo, e o primeiro celebrado pelos seus pares.
Não sei se repararam, mas há ainda pessoas que resistem. Pessoas que têm muito a perder, e que resistem. Pessoas que recusam viver com base no cálculo e na carreira. Pessoas com responsabilidades sociais que, quando chamados a agir, não pensam no mercado, nem no sucesso, nem no número de gostos nas redes sociais – no fundo, pessoas indiferentes ao que os outros vão pensar delas quando fazem o que a sua consciência lhes diz para fazer. Mark Ruffalo disse assim, na entrada da cerimônia:” Uma mulher, Renee Good, foi assassinada nas ruas da América hoje… não sei se consigo fingir que essas coisas absurdas não estão acontecendo.” A Casa Branca atacou-o dizendo que ele é um dos piores atores do mundo. A coragem sempre foi um alvo.

Ao contrário, a covardia segue imparável, sem inimigos e sem nada a temer. A política ocidental tornou-se desavergonhadamente dúplice – tudo perdoa aos amigos; tudo condena aos adversários. O servilismo com os fortes é apresentado como comportamento racional e pragmático; a intransigência com os fracos é apregoada como valentia. Viram a bajulação de Corina Machado? Viram a traficância política que fez do prêmio Nobel, um dos maiores orgulhos europeus? Que vergonha, que vergonha. Dostoievski escreveu, já no exílio nos Estados Unidos, que “o que mais o impressionava no Ocidente era a deserção da coragem cívica( …)e o declínio da coragem sempre foi o prenúncio do fim”. Pois, pela minha parte, como filho dessa cultura ocidental, tenho a dizer que gosto do Wagner Moura porque, com ele, sinto que está sempre qualquer coisa a começar. Para mim, é um gosto atravessar a vida ( ia a dizer, envelhecer) com pessoas como ele, como Mark Ruffalo, como George Clonney, como Brad Pitt. O sucesso de Wagner Moura representa a derrota do artista como arrivista e a consagração da coragem como virtude cívica. Saravá.