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Praticamente todo o custo do tarifaço adotado pelo governo de Donald Trump contra os principais parceiros comerciais dos Estados Unidos em 2025 foi pago pelos próprios consumidores estadunidenses. A conclusão consta de um estudo do Kiel Institute for the World Economy (clique aqui para ter acesso ao estudo), da Alemanha, que analisou mais de 25 milhões de registros de remessas, abrangendo cerca de US$ 4 trilhões em importações dos EUA.

Segundo o instituto, as tarifas funcionaram, na prática, como um imposto indireto sobre o consumo. Para Julian Hinz, diretor de pesquisa do Kiel, a política comercial representou um “gol contra” da própria economia norte-americana.

“Os US$ 200 bilhões em receita aduaneira adicional representam riqueza transferida de norte-americanos para o Tesouro dos EUA, não de produtores estrangeiros. A alegação de que países estrangeiros ‘pagam’ essas tarifas é um mito”, afirma o estudo.

Primeiros impactos: importadores e atacadistas

O impacto inicial das tarifas recai sobre importadores e atacadistas, obrigados a pagar o tributo no momento da entrada das mercadorias no país. Esse aumento aparece imediatamente como custo mais alto nos balanços das empresas, que então enfrentam uma decisão clássica: absorver o prejuízo por meio da redução das margens ou repassá-lo adiante.

Na etapa seguinte, fabricantes e varejistas que utilizam insumos importados ou vendem produtos acabados importados passam a lidar com o mesmo dilema. Evidências das tarifas aplicadas em 2018 e 2019, também durante o governo Trump, indicam que a maioria das empresas optou por repassar os custos ao consumidor final, ainda que com variações conforme o grau de concorrência de cada mercado.

O resultado, segundo o Kiel, é inequívoco: são as famílias estadunidenses que acabam pagando a conta, seja por meio de preços mais altos de bens importados, de produtos domésticos que utilizam insumos estrangeiros ou pela redução da oferta e da variedade de mercadorias disponíveis.

“O aumento de US$ 200 bilhões na arrecadação alfandegária não é dinheiro ‘de graça’. Ele sai diretamente do bolso dos americanos”, resume o estudo.

Perdas econômicas vão além da arrecadação

O impacto negativo das tarifas, no entanto, não se limita ao valor arrecadado. O estudo aponta que o custo econômico total supera a própria receita obtida pelo governo, em razão de distorções no padrão de consumo e na organização das cadeias produtivas.

Com preços mais altos, consumidores passam a substituir produtos preferidos por alternativas menos desejadas, enquanto empresas enfrentam custos adicionais para reorganizar fornecedores e rotas de suprimento. Além disso, a redução da variedade de bens disponíveis gera o que a literatura econômica chama de “perdas de peso morto” (deadweight losses): desperdícios econômicos que não produzem qualquer benefício compensatório.

Brasil e Índia reforçam a evidência empírica

As estimativas do Kiel indicam que apenas 4% do impacto das tarifas foi absorvido por exportadores estrangeiros, enquanto 96% foram repassados aos compradores americanos. Para reforçar essa conclusão, o instituto analisou os casos de Brasil e Índia.

Em 2024, as tarifas sobre produtos brasileiros foram elevadas abruptamente para 50%, enquanto as da Índia subiram de 25% para 50%. Segundo o estudo, os exportadores desses países não reduziram preços para compensar a tarifa adicional. Se isso tivesse ocorrido, os valores praticados nos EUA teriam caído em relação a outros mercados — o que não se verificou.

No caso indiano, a comparação entre exportações para os EUA, Europa e Canadá mostrou que tanto o valor quanto o volume enviado ao mercado norte-americano caíram até 24%, enquanto os preços unitários permaneceram estáveis. Em outras palavras, os exportadores venderam menos aos EUA, mas não aceitaram preços mais baixos.

Por que os exportadores não absorvem as tarifas

O Kiel Institute elenca diversos fatores que explicam por que o custo das tarifas não é internalizado pelos exportadores estrangeiros. Entre eles, a existência de mercados alternativos, que reduz a dependência dos EUA; a inviabilidade econômica de compensar tarifas elevadas apenas com cortes de preço; e a expectativa de que as medidas possam ser temporárias ou renegociadas.

Além disso, cadeias globais de suprimento tendem a ser rígidas no curto prazo. Relações comerciais de longa data dificultam a substituição imediata de fornecedores, o que preserva o poder de precificação dos exportadores.

No balanço final, conclui Hinz, os efeitos são generalizados: margens pressionadas para empresas estadunidenses, preços mais altos para consumidores e queda de vendas para países exportadores.

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