Por Cleber Lourenço e Jamil Chade
A Polícia Federal (PF) prepara a abertura de um inquérito para investigar possível interferência estrangeira nas eleições brasileiras. Segundo apuração do ICL Notícias, o caso está na Diretoria de Inteligência Policial (DIP) e deve ser formalmente instaurado em breve.
A investigação em preparação terá alcance mais amplo do que a apuração revelada nesta sexta-feira (2) sobre uma possível ameaça a instalações diplomáticas dos Estados Unidos no Brasil. A frente sob análise na DIP é voltada a possíveis ações externas relacionadas ao processo eleitoral.
A preocupação não surgiu agora. O ICL Notícias apurou que a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) vem alertando desde o ano passado integrantes do governo federal e autoridades ligadas às eleições sobre riscos de interferência estrangeira.
Entre os cenários acompanhados está uma eventual escalada de ações externas capazes de produzir ou reforçar uma narrativa internacional de instabilidade, insegurança ou falta de legitimidade em torno das eleições brasileiras.
No Palácio do Planalto, um dos cenários mapeados pelo governo é de uma possível intensificação dessa ingerência entre o primeiro e segundo turno das eleições.
Uma fonte da inteligência ouvida pelo ICL Notícias afirma que uma das preocupações é que iniciativas adotadas inicialmente pelos Estados Unidos passem a ser reproduzidas por outros governos.
“A maior preocupação é que países alinhados ao Departamento de Estado americano passem a corroborar suas ações”, afirmou.
Segundo a fonte, esse risco já vinha sendo discutido antes dos episódios registrados nesta semana. “Esse sempre foi o alerta que a agência fez”, disse.
A preocupação ganhou relevância a dois dias do primeiro turno, após Estados Unidos e Austrália adotarem medidas de segurança no Brasil.
Alerta estrangeiro levou PF a fazer buscas
Os Estados Unidos suspenderam temporariamente os serviços consulares em Brasília, São Paulo, Rio de Janeiro, Recife e Porto Alegre alegando preocupações com segurança. A Austrália também fechou sua embaixada em Brasília.
Nesta sexta-feira, a Polícia Federal confirmou que conduz uma investigação sigilosa sobre um suposto planejamento de atos que poderiam colocar em risco instalações diplomáticas americanas.
A corporação cumpriu dois mandados de busca e apreensão, um em São Paulo e outro no entorno do Distrito Federal. Segundo a PF, a ação preventiva foi resultado da “cooperação permanente entre agências de inteligência estrangeiras”.
A PF não identificou publicamente quais serviços forneceram as informações que deram origem às diligências.
Segundo fontes da inteligência brasileira ouvidas pelo ICL Notícias, a CIA teria participado do compartilhamento das informações que levaram a PF a investigar a possível ameaça. A participação da agência americana não foi confirmada oficialmente pela Polícia Federal.
As buscas também não confirmaram, até agora, o risco inicialmente comunicado.
“As medidas pertinentes foram prontamente adotadas, não tendo sido verificados, até o momento, elementos que corroborem os riscos inicialmente apontados, tampouco identificados quaisquer suspeitos de envolvimento com organizações criminosas”, informou a PF.
A investigação continua com a análise de equipamentos de comunicação e mídias apreendidos. A ausência de elementos que confirmem a ameaça até este momento não significa que a informação tenha sido descartada pela corporação.
PF e CIA mantêm canal de cooperação
O intercâmbio de informações entre a Polícia Federal e a CIA ocorre por canais institucionais e não começou com o episódio desta semana.
Em 28 de janeiro deste ano, o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, recebeu na sede da corporação, em Brasília, o vice-diretor da CIA, Michael Ellis. O encontro tratou do fortalecimento da cooperação e do intercâmbio de informações entre órgãos brasileiros e americanos no enfrentamento ao crime transnacional.
A composição da reunião é relevante diante da apuração atual. Entre os representantes da PF estava Leandro Almada, diretor de Inteligência Policial. É justamente na DIP, comandada por Almada, que está agora o caso que deve resultar na abertura do inquérito sobre possível interferência estrangeira nas eleições.
Também participaram do encontro representantes das áreas de Cooperação Internacional e Contrainteligência da Polícia Federal.
Hipótese de “false flag” é considerada
Um trecho da nota divulgada pela própria Polícia Federal chamou a atenção de integrantes da inteligência brasileira ouvidos pelo ICL Notícias. Depois de receber o alerta de agências estrangeiras e realizar duas buscas, a corporação afirmou não ter encontrado, até agora, elementos que confirmassem os riscos inicialmente apontados.
“As medidas pertinentes foram prontamente adotadas, não tendo sido verificados até o momento elementos que corroborassem os riscos inicialmente apontados, tampouco identificados quaisquer suspeitos de envolvimento com organizações criminosas”, informou a PF.
A corporação ressaltou que a investigação continua, com a análise dos equipamentos de comunicação e das mídias apreendidas, e que outras providências poderão ser adotadas.
É justamente a distância, até este momento, entre o alerta recebido e o que foi encontrado nas diligências que faz integrantes da inteligência brasileira chamarem atenção para outra possibilidade que deve ser considerada em análises sobre interferência externa: o uso deliberado de informações falsas ou distorcidas para provocar reações de autoridades e influenciar a percepção pública.
Uma das hipóteses mencionadas pelas fontes é a chamada false flag, ou “falsa bandeira”.
O termo é usado para descrever operações nas quais a verdadeira autoria ou origem de determinado episódio é ocultada ou atribuída a outro ator. Em operações de influência, um acontecimento real, fabricado ou deliberadamente atribuído a terceiros também pode ser explorado para reforçar determinada narrativa ou justificar ações posteriores.
Uma fonte da inteligência afirmou ao ICL Notícias que esse é um dos cenários que precisam ser considerados diante do risco de interferência estrangeira no processo eleitoral brasileiro.
A hipótese não significa que a PF tenha recebido deliberadamente uma informação falsa nem que esteja em curso uma operação de false flag. Até agora, não há elementos que permitam chegar a nenhuma dessas conclusões. O ponto levantado pelas fontes é que, em um cenário de possível interferência externa, a origem, a confiabilidade e os interesses por trás das informações compartilhadas também precisam ser examinados.
No episódio das representações americanas, o dado concreto é que informações recebidas no âmbito da cooperação com inteligências estrangeiras provocaram uma investigação e duas buscas. Até agora, segundo a própria PF, as diligências não corroboraram os riscos inicialmente apontados.
A atuação da Polícia Federal foi preventiva: diante de uma informação sobre possível ameaça às instalações diplomáticas, a corporação realizou as diligências e mantém a investigação aberta.
Abin alertava para efeito em cadeia
A preocupação da inteligência brasileira vai além da possibilidade de um episódio isolado.
Segundo fontes ouvidas pelo ICL Notícias, um dos riscos apontados pela Abin desde o ano passado é que uma sequência de ações ou manifestações estrangeiras construa a percepção internacional de que o Brasil enfrenta instabilidade ou não consegue assegurar a normalidade de seu processo eleitoral.
A preocupação aumenta caso diferentes países passem a adotar medidas ou discursos semelhantes.
“Se os Estados Unidos falando sozinho, tudo bem. Se passar de uma pressão geopolítica dizendo que as eleições não foram justas, que tem que refazer, que o Brasil é inseguro […] feito pelo Canadá, feito pela Austrália, isso muda de figura”, afirmou uma das fontes.
Não há evidência, até agora, de que os alertas e medidas adotados por diferentes governos tenham sido coordenados ou façam parte de uma ação conjunta para interferir nas eleições brasileiras.
A existência ou não de iniciativas estrangeiras destinadas a interferir no processo eleitoral é justamente o objeto que a Polícia Federal deverá aprofundar com a instauração do novo inquérito.
A apuração ainda está na DIP e não havia sido formalmente convertida em inquérito até a publicação desta reportagem.