Tempo de vazios

A agressividade na linguagem é sempre reveladora de fraqueza
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O que me parece verdadeiramente extraordinário é que este discurso tenha vindo do Canadá e não da Europa. A fala do primeiro-ministro canadense constituiu o primeiro ato de coragem no Ocidente — a complacência com a exibição do uso da força não oferece segurança, mas servilismo.

A bajulação nada traz, senão indignidade aos povos. É tempo de deixar de fingir: ninguém acredita na liderança americana e ninguém mais procura racionalidade na política externa americana — o narcisismo desrespeitoso do seu Presidente tudo invade.

E no entanto, aqueles que pensam que o direito internacional está liquidado, estão equivocados. Está talvez ameaçado — ele, o direito, e as instituições globais que lhe dizem respeito — mas não está acabado. Longe disso. Na verdade, a maior parte dos países, na maior parte do tempo, cumpre a maior parte das leis internacionais.

A Carta das Nações Unidas está bem viva e presente — e a sua força reside na decência. E, afinal, é o comportamento decente nos negócios internacionais que dá respeito e credibilidade às políticas externas. Não é a ameaça, não é a força bruta, não é a linguagem de rufia, é a decência.

A agressividade na linguagem é sempre reveladora de fraqueza. Os fracos fingem obedecer — mas sempre com reserva mental. Até que um dia, como lembrou o primeiro-ministro canadense citando o escritor checo Václav Havel, alguém deixa de colocar a tabuleta “trabalhadores de todo o mundo uni-vos”. Nesse momento ficamos a saber que o fingimento deixou de valer a pena.

E, desculpem, quem vê nesta política econômica de disparar tarifas em todas as direções e nesta política externa de ameaças ao acaso, um reforço da afirmação dos Estados Unidos no mundo, está a ver mal. A primeira vítima desta retórica destrambelhada será a América.

Há quem diga que sempre cometeram erros, que este é mais um, mas isso não é verdade. Desta vez fazem-no sem disfarce, de forma crua, de forma provocatória: o Presidente afirma que o único limite que conhece é o da sua própria moralidade. Não, nada disto é sinal de um império forte, mas de um império inseguro — quando as periferias deixam de obedecer, o império não tem futuro.

E, já agora, quanto ao futuro, a velha ordem resistirá. Como resistiu o Brasil, lembram-se? Como resiste agora o Canadá, como outros resistirão à loucura. Uma ordem só é substituída quando houver outra melhor, com melhores leis e melhores instituições.

A ideia de formar um Conselho da Paz como quem cria um novo Conselho de Segurança da Nações Unidas é simplesmente patética. Estas pretensas novas ordens não passam de simulacros. Os mais maquiavélicos, aqueles que acham que é sempre possível separar a política da decência moral, estão enganados. Esses são frequentemente os mais ingênuos.

 

Ericeira, 26 de janeiro de 2026

 

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