O Banco Central abriu uma investigação interna, conduzida sob sigilo pela corregedoria, para apurar eventuais falhas nos processos de fiscalização e liquidação do Banco Master. A decisão partiu do presidente da autoridade monetária, Gabriel Galípolo, no fim do ano passado, após o avanço das apurações policiais sobre o colapso da instituição financeira controlada por Daniel Vorcaro.
Segundo integrantes do BC, o objetivo da sindicância não é promover uma “caça às bruxas”, mas produzir uma radiografia detalhada do caso, nos moldes da apuração de um acidente aéreo, a fim de identificar fragilidades regulatórias e aprimorar mecanismos de controle.
Em meio ao avanço da investigação interna, Belline Santana e Paulo Sérgio Neves de Souza deixaram cargos de comando no Departamento de Supervisão Bancária (Desup). Não há acusações formais contra os dois. Procurado, o Banco Central afirmou que a alternância de nomes em cargos comissionados é prática comum na administração pública.
Souza, servidor de carreira, havia sido responsável por autorizar a aquisição do Banco Máxima — posteriormente rebatizado de Master — por Daniel Vorcaro. Já Belline assinou ofícios e despachos encaminhados ao Ministério Público Federal relacionados às operações do Master, alguns deles utilizados pela defesa do banqueiro em manifestações judiciais.
Modelo de negócios sob questionamento
As investigações lançaram luz sobre o modelo de crescimento do Banco Master, que expandiu rapidamente suas operações por meio da captação de recursos via CDBs com remuneração muito acima da média do mercado, chegando a oferecer retornos de até 140% do CDI. Com o esgotamento desse modelo e dificuldades crescentes de liquidez, a instituição passou a ser monitorada mais de perto pelo Banco Central a partir de 2024.
Durante esse período, o Master negociou sua venda ao Banco Regional de Brasília (BRB), que vinha prestando suporte financeiro à instituição por meio da compra de carteiras de crédito.
O escândalo do Master veio a público em 18 de novembro de 2025, quando o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial da instituição, encerrando suas atividades, afastando administradores e bloqueando bens para pagamento de credores. No mesmo dia, a Polícia Federal deflagrou uma operação para apurar suspeitas de fraudes em transações envolvendo a venda de carteiras de crédito estimadas em R$ 12,2 bilhões.
O controlador do Master, Daniel Vorcaro, foi preso preventivamente e passou a usar tornozeleira eletrônica. Ele afirmou em depoimento ter tratado da venda do banco diretamente com o governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha, que nega a versão.
Impacto no BRB e estimativa de prejuízos
Segundo o Banco Central, o prejuízo potencial para o BRB pode superar R$ 3 bilhões, enquanto investigadores avaliam que as perdas podem ser ainda maiores. As autoridades apuram se o banco público adquiriu carteiras de crédito problemáticas, sem garantias suficientes ou mesmo sem lastro efetivo.
Tanto o BRB quanto o Banco Master negam irregularidades e afirmam que as carteiras questionadas foram posteriormente substituídas.
Crise chega à governança do banco público
Em meio à escalada da crise, dois integrantes do conselho de administração do BRB, Marcelo Talarico e Luis Fernando de Lara Resende, renunciaram aos cargos na quarta-feira (28), com efeito imediato. Ambos também deixaram os comitês internos da instituição.
As renúncias ocorreram semanas antes da assembleia convocada pelo governo do Distrito Federal, principal acionista do banco, para eleger um novo conselho de administração. A reunião está marcada para 19 de fevereiro, quando os acionistas devem votar os nomes indicados para compor o novo colegiado.
Em janeiro, o BRB já havia promovido mudanças em sua cúpula executiva, com a eleição de Raphael Vianna de Menezes para a presidência do conselho e a nomeação de Antônio José Barreto de Araújo Júnior para a diretoria executiva de finanças.