A Câmara dos Deputados da Argentina aprovou, na noite de quinta-feira (12), o acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia, colocando o país mais perto de se tornar o primeiro do bloco sul-americano a ratificar integralmente o tratado. Foram 203 votos favoráveis, 42 contrários e quatro abstenções. O texto segue agora para o Senado, que deve analisá-lo no próximo dia 26.
A expectativa do governo é de aprovação sem grandes obstáculos, consolidando uma estratégia política e econômica central da gestão de Javier Milei.
O presidente havia prometido que a Argentina lideraria o processo de ratificação no bloco. Para acelerar a tramitação, o Executivo solicitou que o acordo fosse tratado em sessões extraordinárias, numa tentativa de garantir vantagem competitiva sobre os parceiros regionais.
Vantagem estratégica sobre o Brasil
A pressa argentina tem objetivo claro: acessar primeiro as cotas de exportação previstas no tratado, especialmente para produtos agropecuários como carne. A avaliação do governo é que a ratificação antecipada pode posicionar o país em melhores condições frente ao Brasil, maior economia do bloco.
Em Brasília, o governo federal já enviou o texto ao Congresso, mas a tramitação ainda está em fase inicial. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi um dos principais entusiastas do acordo, embora não tenha conseguido concluir a assinatura durante a cúpula do bloco realizada em dezembro, em Foz do Iguaçu.
A assinatura formal do tratado ocorreu em 17 de janeiro, em Assunção (Paraguai), coroando negociações iniciadas em 1999.
Impactos econômicos e setores beneficiados
O acordo prevê a criação de uma das maiores áreas de livre comércio do mundo, abrangendo um mercado de mais de 720 milhões de pessoas. A União Europeia deverá eliminar tarifas sobre 92% das exportações do Mercosul, o equivalente a cerca de US$ 61 bilhões.
No caso argentino, projeções indicam que as exportações podem crescer até 122% em dez anos. Setores como energia, mineração, lítio e hidrocarbonetos aparecem entre os principais beneficiados.
A agroindústria também deve registrar expansão estimada em 15%, com destaque para carne e pescado. Já as exportações industriais podem avançar cerca de 30%, especialmente em segmentos como autopeças e produtos químicos.
Atualmente, mais de 14% das exportações do Mercosul têm como destino a União Europeia, enquanto 20% das importações do bloco vêm do mercado europeu.
Apoios e críticas no Parlamento
O acordo dividiu forças políticas na Argentina. Parte do peronismo, tradicionalmente mais protecionista, votou a favor do tratado, enquanto outra ala manteve posição crítica.
O deputado Javier Sánchez Wrba, do PRO, destacou que o entendimento representa uma oportunidade estratégica para a Argentina e creditou ao ex-presidente Mauricio Macri o lançamento das bases do acordo.
Já o opositor Santiago Cafiero alertou para as chamadas barreiras não tarifárias europeias, especialmente aquelas vinculadas a exigências ambientais, como o Pacto Verde Europeu. Segundo ele, regras relacionadas ao desmatamento e ao uso de defensivos agrícolas podem funcionar como entraves às exportações sul-americanas.
Tramitação na Europa e dimensão geopolítica
No lado europeu, o Parlamento Europeu adiou a ratificação do tratado por cerca de um ano e meio e encaminhou o texto para análise jurídica. Ainda assim, a Comissão Europeia pode aplicar provisoriamente o capítulo comercial enquanto aguarda parecer definitivo.
Além da dimensão econômica, o pacto tem peso geopolítico. Ao aprofundar laços comerciais, Mercosul e União Europeia buscam fortalecer sua posição em um cenário internacional marcado pela crescente polarização entre Estados Unidos e China.
Se confirmado pelo Senado argentino, o acordo representará não apenas um marco comercial, mas também uma redefinição estratégica da inserção internacional da Argentina — e um teste para a coesão interna do Mercosul diante de interesses nacionais cada vez mais assertivos.