ouça este conteúdo
00:00 / 00:00
1x

O presidente do Republicanos, deputado Marcos Pereira (SP), afirmou que levou suas preocupações sobre a Proposta de Emenda à Constituição (PEC), que prevê o fim da escala 6×1 ao presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB). Em entrevista à Folha, Pereira disse discordar de discutir o tema em ano eleitoral e justificou sua resistência com argumentos ligados à competitividade das empresas brasileiras.

“Quanto mais trabalho, mais prosperidade”, afirmou, em visão totalmente descolada da realidade de grande parte dos trabalhadores brasileiros. “Se as pessoas tivessem condições de fazer lazer, a demanda seria válida, mas o povo não tem dinheiro, infelizmente. Vai ficar mais exposto a drogas, a jogos de azar. Pode ser o contrário. Ao invés de lazer, pode ser o mal. Qual é o lazer de um pobre numa comunidade? Ou num sertão lá do Nordeste?”, questionou.

Na entrevista, o deputado disse ter alertado Motta sobre os riscos de pautar a PEC neste momento, e ouviu que o presidente da Câmara decidiu levar o debate para a Casa para evitar que o governo Lula (PT) apresentasse um projeto de lei posteriormente. “No momento que ele despachou para a CCJ [Comissão de Constituição e Justiça], ele me disse: ‘Eu estou fazendo isso porque se eu não fizer, o governo vai fazer, então é melhor que a Casa tome o protagonismo’”, relatou.

Em público, porém, Motta comparou a jornada 6×1 ao fim da escravidão. “Quando a Lei Áurea foi instituída, se dizia que era impossível o mundo funcionar sem escravidão. Quando Getúlio Vargas decidiu criar a carteira de trabalho, se dizia que acabaria com a produtividade do Brasil. Com essas decisões corajosas, conseguimos avançar na melhoria da qualidade de vida, de condições dignas de trabalho”, iniciou Motta.

A visão econômica do deputado

O deputado defende que a redução da jornada de trabalho poderia encarecer o setor produtivo brasileiro e prejudicar a competitividade, em visão alinhada ao mercado. “Pelas notas técnicas do setor produtivo, vai encarecer mais ainda. Pode ficar ruim para todos, porque vai tirar mais ainda a competitividade do setor produtivo brasileiro”, disse o bispo licenciado da Igreja Universal do Reino de Deus.

Ele também comparou o Brasil a países de alta renda ao analisar experiências internacionais com jornadas de trabalho reduzidas, argumentando que não é possível aplicar os mesmos modelos aqui. “Quando você pega os países que já implantaram, são só países de primeiro mundo, de índice de qualidade de vida e de renda per capita altíssimo. Alemanha, Finlândia, Islândia, Noruega, não dá para comparar”, afirmou.

Ele ainda se disse um liberal na economia: “Eu tenho posições convictas, sou liberal na economia, sou da opinião de que 80%, 90% dessas empresas públicas deveriam ser privatizadas. Fui um crítico ferrenho dos Correios, deveriam privatizar. O que é inegociável? Não se deve privatizar Banco do Brasil, BNDES [Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico], Caixa Econômica e Petrobras. De resto, sou a favor”.

Entre lazer e precariedade social

Sobre a demanda popular por mais tempo de lazer, Pereira manteve uma visão crítica. “Claro, a pessoa tem que ter lazer, mas lazer demais também, o ócio demais faz mal. Tenho vários casos de pessoas que pararam de trabalhar, morreram rápido, ficaram doentes. A gente precisa de atividade”, disse.

Ele reforçou que o lazer é limitado pela desigualdade social: “O povo não tem dinheiro, infelizmente. Vai ficar mais exposto a drogas, a jogos de azar. Pode ser o contrário. Ao invés de lazer, pode ser o mal. Qual é o lazer de um pobre numa comunidade? Ou num sertão lá do Nordeste?”

O deputado também abordou temas envolvendo escândalos financeiros e atuação da Justiça, como o caso do Banco Master e problemas de fundos de previdência estaduais, ressaltando que cabe à Polícia Federal, ao Ministério Público e ao Judiciário conduzir as investigações.

Deputado ganha troféu “Sexta de Arromba”

A economista e apresentadora do ICL Mercado e Investimentos, Deborah Magagna, comentou as falas preconceituosas do deputado na edição desta sexta-feira (27) do programa. Ele foi coroado no quadro “Sexta de Arromba”, um jeito bem humorado de o programa “coroar” discursos e situações sem noção.

“Marcos Pereira falou um monete de asneiras, além de falas elitistas”, disse Deborah. “Ao defender a escala 6×1, o deputado demoniza o lazer do trabalhador, dizendo que o ócio vai levá-lo a usar drogas. Ele ele traz ligação do trabalho com prosperidade, o que revela muito da desigualdade estrutural que temos no Brasil. É classisita, elitista e horroroso, traz uma série de confusões , como se o trabalho fosse virtude e o lazer é demonizado. O lazer também traz produtividade”, enfatizou Deborah.

A economista do ICL também comentou as falas da presidente da ABMT (Associação Brasileira de Magistrados do Trabalho) e juíza do Trabalho aposentada, Cláudia Márcia de Carvalho Soares, durante julgamento no STF (Supremo Tribunal Federal) sobre os penduricalhos pagos a servidores públicos.

Na ocasião, a juíza disse que “juiz de primeiro grau não tem carro, paga do seu próprio bolso o combustível, o carro financiado, enfim. Não tem apartamento funcional, não tem plano de saúde, não tem refeitório, não tem água e não tem café”.

“Todo mundo paga impsoto de renda e Previdência. Só quem está na informalidade que não. A fala dessa juíza também foi muito infeliz”, disse Deborah.

Veja os comentários de Deborah Magagna no vídeo abaixo:

Carregar Comentários
Assine nosso boletim econômico
Receba gratuitamente os principais destaques e indicadores da economia e do mercado financeiro.