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Não é verdade que uma imagem que circula nas redes provaria que é montagem a foto do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) com Luiz Phillipi Mourão, conhecido como Sicário. O registro apontado em posts como original, que mostra o político ao lado de um apoiador, contém marcas d’água e anomalias de conteúdos gerados por inteligência artificial.

Esta peça de desinformação reunia ao menos 120 mil interações no Instagram e no Facebook nesta terça-feira (21).

Uma captura de tela vertical de um vídeo exibe dois homens, aparentemente sem camisa, em um enquadramento próximo, tipo selfie. À esquerda, o político Flávio Bolsonaro sorri, usando óculos escuros estilo aviador e uma fina corrente prateada no pescoço. À direita, um homem de expressão mais séria, com bigode e cavanhaque grisalho, veste um boné preto com aba e detalhes em vermelho, além de uma corrente escura no pescoço. Bem no centro da imagem, sobreposto aos dois, há um grande ícone circular escuro semitransparente com um triângulo branco de reprodução ('play'). Na parte inferior da tela, um pequeno ícone quadrado verde-água contendo aspas duplas brancas está posicionado acima de um grande bloco de texto. O texto, escrito em letras maiúsculas pretas sobre faixas de fundo branco empilhadas, diz: ‘DONO DE FOTO ORIGINAL COM FLÁVIO BOLSONARO APARECE EM VÍDEO E CONFIRMA MANIPULAÇÃO POR INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL’.

É falso que a foto de Flávio Bolsonaro com Sicário, aliado do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, seria uma montagem feita sobre a imagem do senador com um apoiador conhecido como André Caminhoneiro.

Na realidade, o registro que tem sido compartilhado por bolsonaristas para rebater a veracidade da foto revelada pelo ICL Notícias foi gerado por inteligência artificial.

Aos Fatos submeteu a imagem do político com o apoiador à ferramenta de identificação da OpenAI, que confirmou que o conteúdo foi criado por sua tecnologia (veja abaixo).

Uma captura de tela apresenta uma interface dividida em duas partes sobre um fundo claro. À esquerda, exibe-se a mesma fotografia dos dois homens (Flávio Bolsonaro sorrindo de óculos escuros e o outro homem sério de boné preto, com a mão em primeiro plano, apontando o dedo indicador e o polegar para a câmera. À direita, um painel de análise exibe no topo um ícone circular verde com um sinal de visto, seguido pelo título em letras grandes e verdes: ‘Gerado com ferramentas da OpenAI
Ferramenta da OpenAI identificou marca d’água da empresa na foto do caminhoneiro (Reprodução)

Esta ferramenta verifica se a foto contém “sinais de procedência associados a imagens geradas por ferramentas da OpenAI”, como metadados e marcas d’água.

Se o resultado atesta a presença de SynthID, como mostrado acima, a imagem tem marcas d’água da OpenAI e, portanto, foi gerada por uma de suas ferramentas — ChatGPT, API da OpenAI ou Codex. Esse tipo de verificação tem baixa incidência de falsos positivos, segundo a empresa.

Além disso, Aos Fatos constatou que a foto do apoiador apresenta distorções comuns em conteúdos gerados por IA. Um exemplo mais visível é a corrente, que se funde na parte inferior e tem alguns elos distorcidos e com aspecto “derretido” (veja abaixo).

Uma captura de tela de uma montagem de análise de imagem. No centro, um grande círculo exibe um close-up ampliado de uma corrente metálica no pescoço de um homem, com duas setas brancas horizontais apontando para elos distorcidos ou falhos. Um círculo menor no canto inferior direito mostra a área original não ampliada e o fundo desfocado revela dois homens.
Corrente se funde e tem elos distorcidos (Reprodução)

Por meio de busca reversa, Aos Fatos constatou ainda que a foto apareceu pela primeira vez no perfil do apoiador de Flávio em um vídeo publicado em 16 de julho – um dia depois da reportagem do ICL Notícias. Antes disso, não há qualquer registro público desta imagem.

O relato de André Caminhoneiro é ainda evasivo quanto à situação em que foi tirada a foto que alega ser real. No vídeo que veiculou, ele disse que os dois foram fotografados em um encontro na praia, sem especificar o local. Procurado, ele não respondeu aos questionamentos do Aos Fatos.

ICL Notícias afirma que a foto do senador com Sicário foi feita no Hotel Fasano, no Rio de Janeiro. E, de fato, o teto que aparece na imagem é bastante semelhante ao do terraço do hotel.

Aos Fatos também submeteu a imagem veiculada pelo ICL Notícias à ferramenta da OpenAI, que não encontrou nenhuma marca de geração por inteligência artificial.

Na reportagem, o site afirma ter submetido o registro a outras cinco ferramentas (Gemini, Hive Moderation, Sight Engine, Was It AI e Image Whisperer), que não detectaram indícios de IA.

Uma captura de tela apresenta uma interface dividida em duas partes sobre um fundo claro. À esquerda, exibe-se uma fotografia vertical de dois homens em um ambiente claro, sob uma estrutura rústica de teto com ripas de madeira. O homem à esquerda (Flávio Bolsonaro) aparece sem camisa, sorrindo levemente, usando óculos escuros e uma fina corrente prateada no pescoço; ele faz um sinal de positivo com a mão direita e aponta o dedo indicador esquerdo em direção à câmera. À direita dele, um outro homem de cabelos escuros e barba veste uma camiseta branca e também usa óculos escuros. À direita, um painel informativo exibe no topo um pequeno ícone circular vermelho-claro com um ‘x’ vermelho no centro. Logo abaixo, há um título em letras grandes e vermelhas: ‘Nenhum sinal da OpenAI detectado’.
Imagem de Sicário e Flávio, por outro lado, não possui nenhum indício de geração artificial (Reprodução)

Após a revelação da imagem pelo ICL Notícias, a assessoria de Flávio Bolsonaro primeiro pôs em dúvida a veracidade da foto. Mais tarde, o senador disse que seria uma entre tantas fotos que tira com apoiadores.

Um dia depois, no entanto, ele mudou novamente a versão para alegar que a foto seria manipulada — mas sem apresentar provas. A partir daí, perfis influentes de bolsonaristas nas redes passaram a amplificar a versão de André Caminhoneiro.

A Turma. Em março deste ano, o ministro do STF André Mendonça determinou a prisão de Luiz Phillipi Mourão e do ex-dono do banco Master, Daniel Vorcaro, e de seu sócio, Fabiano Zettel, em um desdobramento da Operação Compliance Zero.

De acordo com o magistrado, Vorcaro e Zettel mantinham com Mourão uma estrutura voltada para intimidação de pessoas vistas como adversárias do grupo, conhecido como A Turma. Em mensagens interceptadas pela PF (Polícia Federal), Vorcaro chegou a falar para Mourão “moer essa vagabunda”, em referência a uma empregada que estaria o ameaçando.

Na decisão de março, Mendonça afirma ainda que Mourão seria “responsável pela execução de atividades voltadas à obtenção de informações sigilosas, monitoramento de pessoas e neutralização de situações consideradas sensíveis aos interesses do grupo investigado”. Para isso, ele receberia pagamentos mensais de R$ 1 milhão.

No mesmo dia em que foi preso, Sicário tentou se suicidar em uma cela na Superintendência da PF em Minas Gerais. Levado ao hospital, ele morreu dias depois. Uma investigação da PF levada ao STF concluiu que a morte se deu por suicídio.

O caminho da apuração

Aos Fatos procurou o vídeo original do caminhoneiro citado e encontrou a publicação original. Fizemos o download do conteúdo e seguimos por três etapas:

1. Envio para ferramenta de detecção oficial da OpenAI, que confirmou se tratar de imagem gerada artificialmente;
2. Análise de inconsistências e anomalias;
3. E busca reversa para confirmar a origem da imagem.

A reportagem também resgatou informações sobre a foto de Flávio com Sicário, bem como os posicionamentos do senador sobre ela. Por fim, Aos Fatos entrou em contato com o autor do vídeo (veja a resposta).

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