Querida,
Quando você, exausta de tantas sobrecargas, deita a cabeça no travesseiro, talvez uma batalha se inicie. Uma luta consigo mesma, buscando responder às perguntas mais dolorosas: Onde estava que não impedi a violência? Onde falhei? Onde…? Adoraria que este texto tivesse o poder de ao menos aliviar o peso de uma palavrinha usada cruelmente contra você e sua menina: Culpa. Não tem. Um texto não pode apagar séculos de uma construção perversa que a fez receber, digerir e naturalizar a culpa por ser simplesmente… mulher.
Onde você estava? Na escala seis por um, pondo a comida na mesa, cuidando de todos menos de si, na briga pela sobrevivência, na jornada tripla, quádrupla, alertando com pouca escuta…? Você buscou por todos os meios ao seu alcance para proteger a sua menina de coisas absolutamente assustadoras e, mesmo assim, elas aconteceram.
Entenda, como diziam nossas avós, uma andorinha não faz o verão. Uma sociedade que, por gerações, naturaliza, incentiva e deixa impune todo tipo de abuso, invasão, desrespeito e violência contra a mulher, está pronta para fazer vítimas em série indistintamente. Sinto verdadeiramente que tenha sido a sua garota mais uma na longa lista e seu coração trespassado por dores tão agudas e torturantes. Nenhuma de nós merece.

Entendo que você esteja reavaliando sua conduta, sua relação com a sua filha, a vida, a existência inteira! Isto é natural e mais que válido. Apenas não se culpe e muito menos a ela. E mais: Aprenda a abaixar os dedos que ousam apontar para você.
Quem sabe não é este o momento de segurar nas mãos umas das outras para pensar um mundo onde possamos dar vazão ao amor sem receios e onde possamos existir sem o fardo por sermos quem somos? Isso não se dará sem a retomada do diálogo entre gerações, o fomento de valores que passem distantes dos sentimentos de dependência e posse; o cultivo da escuta, observação, paciência, diálogo e acolhimento.
Vamos ter que abordar mais fortemente as escolas, as famílias à nossa volta, as instituições governamentais e — aqui é inevitável — rever os papéis mofados e as relações falidas entre gêneros que, veja, não é que estejam apenas “dando errado”. Elas estão nos ferindo, incapacitando e matando em larga escala. Mais exatamente 3,7 milhões de nós sofreram alguma violência e quatro por dia foram mortas no último ano. Os dados oficiais não mentem. É sangue demais…
Sim, dá trabalho e é natural que você se sinta sem forças, mas saiba que você não está só. Há muita gente na luta por justiça; há a intolerância com o que não pode mais ser tolerado; há profissionais de todas as disciplinas prontos para auxiliar no recomeço da sua jovem e no seu também. Apenas, amiga, não se isole na dor da impotente frustração por não ter feito algo que você nem consegue determinar o que seja e que, certamente, não estava no seu alcance, pois os filhos e filhas — isso também já avisam as avós — nascem para viver no mundo.
Por fim, embora não haja receitas ou fórmulas fáceis para solucionar os dilemas na árdua tarefa que é auxiliar uma mulher a nascer, crescer e florescer, há saída e ela pode estar justamente naquele ditado da vovó citado acima. Se uma não é suficiente, vamos trazer mais andorinhas que ajudem a, finalmente, fazer das nossas vidas a boa estação.
Sinta-se fortemente e amorosamente abraçada.