Por Valter Mattos da Costa*
Há ídolos que nos acompanham por décadas. Sou botafoguense, e como tantos outros, fui fã de Túlio Maravilha, um atacante que marcou época, gols improváveis e momentos inesquecíveis. Ídolos esportivos, porém, não estão imunes ao julgamento público quando suas falas extrapolam o campo e atingem valores coletivos. E foi exatamente isso que aconteceu.
Ao justificar a decisão de que a filha não estudará em universidade pública, Túlio, sua esposa e a própria jovem (em vídeo nas redes sociais) recorreram a argumentos que escancaram um preconceito profundo contra a universidade pública brasileira. Falaram em “valores”, em “ambiente”, em suposta superioridade moral e formativa do ensino privado, como se a universidade pública fosse um espaço degradado, ideologizado e indesejável. Essa fala não é neutra. Ela carrega desprezo, desinformação e um anti-intelectualismo perigoso.
Falo com propriedade. Sou professor do ensino básico com muito orgulho e fruto integral da escola pública brasileira. Estudei toda a vida em escolas públicas, do ensino fundamental ao ensino médio. Não fiz cursinho pré-vestibular. Ainda assim, fui aprovado nos antigos vestibulares de todas as universidades públicas do Estado do Rio de Janeiro: UERJ, UFRJ, UNIRIO, UFRRJ e UFF. Escolhi a Universidade Federal Fluminense.
Na UFF tive uma formação intelectual exemplar. Tão sólida que, anos depois, fui aprovado em quatro concursos públicos para professor — dois do Estado do Rio de Janeiro e dois do Município do Rio de Janeiro — além de ingressar em instituições privadas de reconhecido prestígio. Nos editais desses concursos, muitos dos autores indicados na bibliografia haviam sido meus professores. Isso não é acaso. É a prova concreta da excelência da universidade pública.
Minha trajetória acadêmica não parou na graduação. Fiz pós-graduação lato sensu e mestrado na UFF e doutorado na Universidade de São Paulo, uma das mais importantes da América Latina. Tudo isso em universidades públicas. Toda essa formação foi decisiva não apenas para minha atuação profissional, mas para minha constituição como intelectual, cidadão e sujeito crítico.
Diante disso, ouvir uma família — com grande alcance midiático — desqualificar a universidade pública em nome de “valores” é ofensivo. Não apenas a mim, mas a milhões de estudantes, professores, técnicos e pesquisadores que sustentam, diariamente, a produção científica, cultural e tecnológica deste país. É desrespeitoso com quem salva vidas no SUS formado em universidades públicas. Com quem pesquisa vacinas, combate epidemias, produz conhecimento em áreas estratégicas e mantém viva a reflexão crítica sobre a sociedade brasileira.
Esse discurso não surge do nada. Ele se insere num contexto mais amplo de avanço do anti-intelectualismo, historicamente associado à extrema direita. É o mesmo caldo cultural que alimenta negacionismo científico, movimentos antivacina, terraplanismo e a demonização do pensamento crítico. Atacar a universidade pública é atacar a própria ideia de conhecimento como bem comum.
Há também uma contradição gritante. Muitos que hoje demonizam a universidade pública só podem fazê-lo porque foram beneficiados, direta ou indiretamente, por políticas públicas, investimentos estatais e estruturas coletivas. A universidade pública não é um privilégio de poucos; ela é uma conquista social, financiada pela população, e precisa ser defendida justamente para que não se transforme em um clube exclusivo das elites.
Ninguém é obrigado a escolher universidade pública. A escolha individual é legítima. O problema começa quando essa escolha é justificada por meio da desqualificação do outro, da construção de estigmas e da reprodução de preconceitos. Quando se transforma uma decisão privada em um discurso público de desprezo, o debate deixa de ser pessoal e passa a ser político.
Como professor da educação básica, sei o quanto esse tipo de fala repercute negativamente. Ela reforça a ideia de que estudar, pensar, pesquisar e questionar são atividades suspeitas. E isso é devastador para um país que já convive com desigualdades educacionais profundas e com a precarização sistemática do trabalho docente.
Minha decepção como torcedor é pequena diante da indignação como educador. Ídolos podem cair do pedestal quando escolhem propagar discursos que ferem o interesse público. A universidade pública brasileira, com todos os seus problemas e desafios, segue sendo um dos poucos espaços de excelência, diversidade, produção de conhecimento e mobilidade social real que este país ainda possui.
Atacá-la não é apenas um erro. É um desserviço ao Brasil.
*Professor de História, especialista em História Moderna e Contemporânea e mestre em História social, todos pela UFF, doutor em História Econômica pela USP e editor da Dissemelhanças Editora.