A ex-companheira e o filho do humorista Vinicius Antunes perderam a vida barbaramente, em cima de uma bicicleta elétrica, em uma rua do bairro carioca da Tijuca. Emanoelle Martins Guedes de Farias (40), levando na garupa o filho Francisco Farias Antunes (9), trafegando pelo lado esquerdo de uma das vias, foi atropelada por um ônibus.
Testemunhas dizem que foi fechada por um carro. As câmeras que captaram o momento não deixam claro. O que importa é que o acidente chocou e encheu de tristeza a cidade, fez minutos de silêncio nos corações, encheu de lágrimas e saudade o pai e ex-companheiro.
Consequências terríveis de um trânsito brutal, em que a pressa é mais importante que as vidas humanas, feito de motoristas que ignoram uns aos outros e usam veículos como armas, em uma cidade que tem nas armas alguns dos seus principais problemas e símbolos de medo. É a selva do cotidiano trazendo a sensação de vitória ao fim de cada dia que se chega com vida. Nas palavras de Vinícius Antunes, após o sepultamento de sua família:
“O Rio de Janeiro não é uma cidade que a gente vive, é uma cidade que a gente sobrevive. Todo dia pessoas saem de casa e não voltam mais.”
Infelizmente, não é apenas do Rio de Janeiro o desprivilegio da vida feita de correria e providências para conseguir continuar existindo apesar de tanto pesar. Cidades devoradoras de gente. Lugares de corações endurecidos e cegos de ódios plurais, pois não demorou para que a crueldade disfarçada de fé desse as caras em meio à tragédia.
Em um post, o comentário: “Fez piada com a Bíblia, toma”.
Vinícius é humorista e nunca escondeu a sua não crença no divino, ou seja, ele é ateu e, a julgar por reações que tiveram coragem de postar em suas redes, todos deveríamos ser. Pelo menos descrentes do deus com “d” minúsculo de alguns fiéis, que colocam na conta deste suposto ser superior e vingativo a morte dolorosa de mãe e filho em uma segunda-feira comum, apenas por não acreditarem na sua existência. A julgar por esses, um Deus feito de ameaça e medo.
Nas mesmas redes sociais em que tais aberrações são ditas, Vinícius e o menino Francisco esbanjavam amizade, carinho e bom humor. Toda a graça e encantamento que são capazes de despertar em um garoto começando a descobrir a vida e em um pai totalmente apaixonado por ele, que, após todo o ocorrido, enviou uma mensagem: “Amem seus filhos”.
Caso o carro tenha mesmo fechado a bicicleta, podemos sem esforço imaginá-lo estacionando em sua garagem após um dia exaustivo, o motorista saindo e vendo pela televisão o que provocou, escondendo-se das responsabilidades criminais que, mesmo que lhe alcancem, não trarão Emanoelle e Francisco de volta.
Conseguimos visualizar as pessoas que, em seu ir e vir pelas calçadas, involuntariamente foram testemunhas de uma cena de terror, tentando sem sucesso esquecê-la a qualquer custo.
Também podemos pensar em quem está atrás de um teclado qualquer, ignorando tudo isso, digitando deboches e ofensas para um pai enlutado, apenas pelo fato de ele não compartilhar de suas mesmas crenças… E, se podemos imaginar tudo isso, também conseguimos lutar por civilidade e respeito nos ambientes virtuais, além de idealizar e agir por uma cidade mais gentil, que garanta a sobrevivência, mas também possa nos oferecer vida plena e abundante.
Emanoelle, Francisco, todos e todas nós merecemos mais que a mera sobrevivência.