Na última quarta, 8/04, um vídeo postado pela TV Globo emocionou a internet. Nele, Tia Milena, participante do Big Brother Brasil 2026, fala de seu passado sofrido e de uma sucessão que guarda a história do Brasil inteiro:
“Minha bisa foi doméstica, minha avó foi doméstica, minha mãe é doméstica. Tem aquilo do brasileiro, que é um ciclo vicioso de mãe doméstica, filhos vão virar domésticos, que eu estou quebrando por estar aqui”.
Como coincidências não existem, o serviço doméstico está no topo da lista do “Cadastro de Empregadores que tenham submetido trabalhadores a condições análogas à escravidão”, a famosa “Lista Suja”. Uma atualização foi publicada pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), apenas dois dias antes (6/04) do VT de Milena.
No total, são 169 empregadores, sendo 102 pessoas físicas e 67 pessoas jurídicas, um aumento de 6,28% em relação à atualização anterior. Na versão novíssima, serviço doméstico está no topo (23) e ganha de criação de bovinos (18), cultivo de café (12), construção de edifícios (10) e serviços de preparação de terreno, cultivo e colheita (6).
Os novos casos incluídos no cadastro resultaram no resgate de 2.247 trabalhadores em situações de exploração e de trabalho análogo à escravidão.
Você, leitor e leitora, notou que a natureza dos trabalhos listados nas primeiras posições são todos de longa data conhecidos do Brasil desde os tempos coloniais? Isso também não é acidente. É projeto bem executado e perpetuado.
Sempre é bom fazer a ressalva de que o trabalho doméstico é digno. Todas estas ocupações listadas são dignas. Indigna é a manutenção dessas atividades e das pessoas que as executam em níveis tão baixos de humanidade por quem as emprega. Indecente é a semelhança tão grande de condições e estruturas com o período pré-abolição, em pleno 2026.
Milena chocou a muitos ao longo dos dias na casa mais vigiada do Brasil, quando revelou que nunca entrou na piscina para se divertir, mas para levar a criança; que nunca foi servida por ninguém, sempre serviu; e a mais cruel de todas: não sabia que beijo na testa era tão bom. Nunca havia ganhado um.
A participante demonstra tremenda tristeza em abandonar o programa. Não sabe o que a espera do lado de fora, nunca recebeu tanta atenção na vida. A falta de cuidado e amor também é plano para enrijecer e retirar subjetividade daqueles que — pela lógica vigente há cinco séculos — foram feitos para trabalhar.
Outro dado da “Lista Suja” que parece até ficção, de tão perfeito que é o casamento com a fala da mineira Milena: A unidade da Federação com maior número de casos nesta atualização, que abrange os período de 2020 a 2025, é Minas Gerais (35).
A lista foi criada em 2003 e é publicada semestralmente. Alguns nomes que estão por lá são bem conhecidos, como o cantor Amado Batista e a montadora de carros elétricos BYD. Considerando a distância do ano de 1888, quando aconteceu a incompleta abolição da escravatura em solo nacional, eles engrossam um número escandaloso de empregadores listados: 613.
Como o cadastro depende de denúncias em um país de dimensões continentais, podemos imaginar que todos estes números estão subnotificados. Podemos imaginar um horror bem maior.
E há quem diga que o passado passou. Tia Milena e toda a sua ascendência que o digam. Foi preciso a entrada em um programa de televisão para quebrar essa gira. Esperamos que seja ela e toda a sua descendência, que não mais ocuparão estes lugares listados. O que esperar, todavia, para as tantas “Milenas” que não conseguiram vaga em nenhum reality show?
Sim, foi o pior crime da humanidade.
Atualização 2026 – Casos por unidades da Federação:
- Minas Gerais (35);
- São Paulo (20);
- Bahia (17); Paraíba (17);
- Pernambuco (13);
- Goiás (10);
- Mato Grosso do Sul (10);
- Rio Grande do Sul (9);
- Mato Grosso (7);
- Paraná (6);
- Pará (5);
- Santa Catarina (4);
- Maranhão (4);
- Acre (2);
- Distrito Federal (2);
- Espírito Santo (2);
- Rio de Janeiro (2);
- Amazonas (1);