Por Cleber Lourenço
O relatório final da CPI do Crime Organizado, apresentado pelo senador Alessandro Vieira (MDB-SE), surpreendeu a base governista e desencadeou uma reação articulada para barrar sua aprovação. Segundo relatos de bastidores, o conteúdo do documento e a linha adotada pelo relator não eram esperados por integrantes do governo, que passaram a atuar diretamente na composição da comissão.
A movimentação mais visível ocorreu na própria CPI, com a substituição de senadores às vésperas da votação. A entrada de novos nomes alinhados ao governo alterou o equilíbrio de forças e abriu caminho para a rejeição do relatório.
Durante a sessão, o líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT-BA), fez críticas diretas à condução da comissão. Ele relembrou que o requerimento de criação da CPI previa a investigação de facções criminosas e milícias, mas afirmou que o foco acabou sendo deslocado para o caso do Banco Master.
Wagner também apontou uma contradição no relatório. Segundo ele, mesmo ao tratar do Banco Master, o documento não pede o indiciamento de Daniel Vorcaro, principal nome ligado à instituição. “Eu não sou advogado de ninguém, mas é preciso defender as instituições”, afirmou.
Na mesma linha, o senador Humberto Costa (PT-PE) disse que o relator se deixou levar por motivações políticas ao longo do processo. Para ele, o relatório final provoca a sensação de que “falta muita coisa” e de que “muita coisa não deveria estar”.
A crítica foi reforçada pela senadora Teresa Leitão (PT-PE), que assumiu uma vaga na comissão pouco antes da votação, em um movimento articulado pelo governo. Segundo ela, o resultado da CPI representa uma oportunidade perdida.
Em conversa ao ICL Notícias, a senadora afirmou que “ao que tudo indica, perdemos uma oportunidade de investigar as facções e o crime organizado para dar lugar a mais uma ação vazia de entregas e cheia de disputas políticas e narrativas que pouco contribuem com o povo brasileiro”.
Nos bastidores, a avaliação de integrantes da base é de que o relatório avançou sobre temas sensíveis, incluindo pedidos de indiciamento de autoridades do sistema de Justiça, sem consolidar elementos considerados centrais em investigações paralelas, como o próprio caso do Banco Master e Daniel Vorcaro.
A estratégia do governo, diante do cenário, foi atuar para impedir que o texto fosse aprovado, evitando um possível desgaste institucional com o Judiciário e abrindo espaço para a elaboração de um relatório alternativo.
A leitura entre aliados do Planalto é de que o documento final da CPI acabou marcado por disputas políticas e por um desvio em relação ao objetivo inicial da comissão, o que justificaria a reação para barrar sua validação.