Por Carol Souza
A política de cotas no ensino superior, em vigor desde 2012, ampliou a presença de pretos, pardos e indígenas nas universidades. No entanto, o acesso a bolsas de pesquisa no Brasil ainda reflete desigualdades raciais.
Relatório da Associação Opará, em parceria com a Educafro, aponta que a participação desses grupos nos programas de pesquisa científica, como mestrado e doutorado, segue significativamente menor, evidenciando um padrão persistente de exclusão.
Entre 2010 e 2025, apenas duas das 323 chamadas públicas do CNPq incluíram a diversidade racial como critério — o equivalente a 0,62%. No mesmo período, mais de R$ 10 bilhões foram destinados a editais sem esse recorte, enquanto iniciativas com critérios de diversidade receberam pouco mais de R$ 2 milhões.

Segundo o pesquisador Edmilson S. dos Santos, responsável pelo estudo, entre os editais lançados por ministérios no período analisado, apenas os da pasta de Igualdade Racial consideraram critérios raciais.
O estudo também identifica barreiras anteriores à disputa por bolsas. Estudantes pretos e pardos têm menos acesso a universidades de maior prestígio, redes de indicação e oportunidades de financiamento — fatores decisivos na seleção. Na prática, isso reduz suas chances de ingresso e permanência na pesquisa científica, mesmo quando apresentam desempenho semelhante ao de candidatos brancos.
Dados do Centro de Gestão e Estudos Estratégicos divulgados em 2025, mostram que, entre 1996 e 2021, metade dos títulos de mestrado foi concedida a alunos brancos, enquanto pretos e pardos somaram apenas 21%. No doutorado, a desigualdade é ainda maior: 57,8% para brancos contra 18,3% para pretos e pardos.

Para a Associação Opará, o problema vai além de critérios técnicos e reflete um modelo que privilegia trajetórias acadêmicas historicamente elitizadas. A falta de transparência nos processos seletivos dificulta o monitoramento e contribui para a manutenção das desigualdades.
“A falta de dados oficiais é um problema. Uma de nossas propostas é que tenhamos condições de controlar esta distribuição de bolsas. Se o edital não estabelece cotas de bolsas à diversidade, cada um faz do jeito que quer e sem nenhum controle. No modelo atual, se reproduz um modelo branco de pesquisa que existe desde sempre”, diz o pesquisador.